Um ajuste de contas com a utopia

19.05.2014

Opção Cultural | Jornal Opção
Roberson Guimarães

Apesar dos cinco séculos de publicação da obra de Thomas Morus — “A Utopia” — não se esgotaram suas reverberações filosóficas e implicações políticas. Sob o domínio do senso comum, a utopia tomou-se licença provisória para um sonho humano irrealizável e condenado inexoravelmente ao fracasso.

A Revolução Russa em outubro de 1917 conduziu os bolcheviques ao poder. Ancorados no marxismo e sob a tutela da dupla Lênin-Trotski acreditou-se ser possível construir uma “sociedade de iguais, justa e ideal” nos moldes da sociedade utópica de Morus. Hoje sabemos que o sonho dessa sociedade perfeita desmoronou a partir da institucionalização da violência e da restrição de liberdades impostas ainda na juventude da ditadura stalinista na antiga União Soviética e também na China de Mao Tsé-tung.

É sob esse pano de fundo que o escritor cubano Leonardo Padura desenvolve seu romance O homem que amava os ca­chor­ros , cuja história central narra os anos de exílio itinerante de Trotski e seu assassinato no México, sob as mãos do comunista espanhol Ramón Mercader.

O homem que amava os ca­chor­ros é ao mesmo tempo, ro­mance histórico, thriller policial, ajuste de contas com a utopia e minucioso informe — pessoal e geracional — da derrota e do horror. Padura demonstra enorme habilidade para narrar explorando técnicas de suspense e mistério, capazes de produzir um livro de quase 600 páginas que pode ser lido sem qualquer enfado.

O romance histórico resulta em um extraordinário afresco que perpassa boa parte da história do século 20 e das ideologias de esquerda, desde a fundação da União Soviética, da Guerra Civil Espanhola, da Segunda Guerra Mundial, culminando com a crise do regime comunista implantado por Fidel Castro em Cuba. Trotskistas, stalinistas, marxistas, poumistas, menchevistas, anarquistas… disputam a terra da utopia e vitimados por disputas internas, combates fratricidas e desejos de poder, revelam-se incapazes de construir a sociedade idealizada.

Mas o livro é bem mais do que isso. Es­­­tamos diante de uma obra de ficção, e ainda que respeite a História, Padura con­­segue enriquecê-la com novos matizes e converte as figuras históricas em per­­sonagens de grande complexidade, com suas inquietudes, paixões e debilidades.

Uma das maiores virtudes do escritor é sua capacidade de tornar atrativa a leitura de uma história da qual se conhece o final, o que por princípio inviabilizaria qualquer thriller policial. Todos sabemos que Trotski é morto por Mer­cader. O autor consegue vencer essa dificuldade por meio de uma engenhosa técnica narrativa. Leonardo Padura estabelece três linhas narrativas intercambiantes e não lineares, que apresentam a descrição do exílio de Trotski, a transformação do proto-comunista espanhol Ramón Mercader em espião e assassino sob as ordens do império stalinista e ainda uma terceira voz: o cubano Ivan Cárdenas, escritor frustrado e veterinário sem formação acadêmica que casualmente se encontra com Mercader na Havana dos anos 1970.

Apesar de ser um personagem de ficção, é por meio de Ivan que Padura revela sua própria experiência e de uma geração de cubanos. Uma geração que se criou na revolução e compartilhou ilusões, desilusões, fracassos e temores e que nos anos 1990 descobriu que não tinha quase nada em suas mãos. Fidel Castro não é citado em qualquer mo­mento da narrativa, mas sua sombra está ali, presente e ameaçadora. E Pa­dura não esconde ou se­quer suaviza o sofrimento dos cubanos a partir da derrocada comunista na ex-URSS.

As três histórias convergem de forma muito elegante, aliás, como também o é a prosa de Padura. Trotski, Mercader e Cárdenas eram homens que amavam cachorros. Os três descobriram — talvez tarde demais — que a lealdade que devotaram à causa comunista os tornou fantasmas, mortos-vivos; todos eles, cada um a seu modo, foram derrotados pelas maquinações de um sistema totalitário que os descartou assim que não eram mais úteis. Em um da­­do mo­men­to da narrativa, o per­sonagem Gri­goriev assegura: “Há algo de muito importante que me en­sinaram: o homem não é uma unidade in­su­bstituível, senão um conceito que se soma e forma a massa, essa sim real. Mas o homem enquanto indivíduo não é sagrado, é prescindível”.
Seguramente Leonardo Padura escreveu um grande livro: instigante, desafiador e necessário. Como sói acontecer com toda boa literatura.