O Romancista e o Assassino

07.05.2014

Revista Brasileiros | Literatura
Daniel Benevides e Luiza Villaméa

De tempos em tempos surge um livro que todo mundo lê ou, no mínimo, comenta. Um livro “obrigatório”, motivo de conversa em festas, bares, clubes, escritórios e redações de jornais e revistas. O homem que amava os cachorros (Boitempo Editorial), romance-catatau do cubano Leonardo Padura é, no momento, esse livro. Ao relatar passo a passo a história que levou ao assassinato de Leon Trotski, recriando romanescamente a figura misteriosa de Ramón Mercader – o sujeito que enfiou a picareta no crânio do líder revolucionário -, Padura despertou a curiosidade de leitores mundo afora.  Conhecido pela série de livros policiais com o investigador Mario Conde, o autor, ex-jornalista, levou quatro anos fazendo as pesquisas que deram verossimilhança à narrativa. E surpreendeu os próprios cubanos, que sabiam muito pouco sobre a história de Trotski, eliminada do currículo escolar do país, por conta da aliança com a União Soviética, de onde o ex-lider do Exército Vermelho estava proscrito. O livro foi um sucesso na ilha, no México, na Espanha, e aos poucos vem sendo traduzida nas mais diversas línguas, inclusive o russo, em edição prevista para 2015. Tranquilo e direto, Padura é bastante parecido com o personagem Iván Cárdenas, um possível alterego.

J´pa tem um livro na praça, Herejes, sem previsão de lançamento no Brasil. No começo de abril, foi à Bienal do livro e da literatura em Brasília, como um dos principais convidados. Muito requisitado e solícito, leu na sua palestra trechos do gigantesco material de notas que recolheu para o livro. Depois, veio a São Paulo, para uma conversa no Auditório Ibirapuera. A voz é grave e o espanhol claro. Fala depressa, sem hesitações, com frases bem construídas. A firmeza global, no entanto, não é sinônimo de certezas. Como todo grande autor, Padura está em constante questionamento da História, do próprio métier e de tudo o que percebe a sua volta.

Conte um pouco da pesquisa que fez para escrever O homem que amava os cachorros.
Um romance de investigação histórica requer do escritor conhecimento muito grande dos assuntos tratados. E numa história como O homem que amava os cachorros, com um personagem como Ramón Mercader, muito mais. Fiz uma pesquisa muito ampla e, evidentemente, nem todos os elementos dela aparecem no romance. Há questões históricas que não cabiam no livro. Por exemplo, eu não podia escrever sobre as relações de Mercader comn os cubanos que conheceu no período do exílio.

Versão na íntegra nas bancas.