Revoluções e cachorros

02.06.2014

Revista Espaço Acadêmico | Resenhas
Angelita Matos Souza

O romance histórico O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, narra a história do assassinato de Leon Trotsky por Ramón Mercader. A dimensão ficcional fica por conta sobretudo do narrador-personagem, Ivan (ou Daniel), um escritor-veterinário cubano que teria conhecido Mercader numa Cuba opressiva e mais tarde devastada economicamente pelo fim da URSS. Porém o foco do livro não é o fracasso da revolução cubana (abordado sutilmente) e sim as atrocidades do stalinismo, passeando por fatos históricos como a guerra civil espanhola, a 2ª GM, a guerra fria, a URSS pós-Stalin.

Em resumo, para além do objetivo de escrever um romance, talvez policial (o autor é conhecido por seus romances policiais), embora sem suspense à medida que o desfecho é conhecido, predomina no romance de Padura o desejo de revisão da história do comunismo, cujo resultado é um tanto maniqueísta: do lado do mal, Stalin e seus seguidores; do outro lado Trotsky e afins, apesar de violências cometidas a seu mando e do personalismo que, nuançado, não deixa de compor o revolucionário de Padura.

E posso ser injusta, mas achei que há no romance um quê de O livro negro do comunismo e que talvez resida aí a causa do seu sucesso. Sem falar no ressentimento com Cuba (compreensível) como possível motivação, Ilha a qual o  autor nunca abandonou, ao que tudo  indica, pela mesma razão de seu alterego  Ivan: medo. O sentimento garantidor por excelência de toda ordem social, que  Stalin e tantos outros souberam impor por meio da violência sem limites. Até  mesmo Trotsky, antes de ser banido da  URSS teria agido de forma stalinista, em episódios como o da Revolta de  Kronstadt.

Tudo parece bastante atribuível ao azar histórico que levou ao poder o gênio do mal chamado Stalin, sendo os personagens comunistas alinhados à União Soviética figuras problemáticas (como Mercader e sua mãe), que odeiam, odeiam e odeiam. É simplesmente assim. Revolucionários “do bem” (trotskistas,  anarquistas e anti-stalinistas em geral) são figuras igualmente complicadas, divididos em facções inúmeras, digladiando entre eles e, dessa forma,  facilitando a vitória dos fascistas na  Espanha, com a ajuda, claro, de Stalin, mais interessado em eliminar revolucionários considerados inimigos do  que em salvar a República espanhola. Como todos sabem, a esquerda está sempre brigando entre si e, por isso, sofre derrotas recorrentes, eis afinal uma das mensagens sublinhares do livro.

A preservação da vida de Trotsky foi  possível enquanto útil à eliminação de  “todos que conheceram Lênin”, acusados de alianças com o renegado em processos judiciais mirabolantes, marcados pelas  confissões e execuções dos personagens  proeminentes da revolução bolchevique.  Sem falar dos assassinatos em massa nos  processos de coletivização forçada, nos  campos de concentração, pela fome, frio,  miséria etc. Em suma a destruição por Stalin de um sonho – o da sociedade igualitária e (por que não?) libertária – e sua substituição por um regime totalitário similar ao nazismo. No bojo dessa  história a própria Ilha do autor e as mazelas decorrentes da revolução e alinhamento com Stalin.

Não que os fatos históricos mencionados e outros que recheiam o romance sejam inverídicos, infelizmente estão longe disso e, sob qualquer ponto de vista, são merecedores de crítica e rechaço  enfático. Entretanto, uma revisão  histórica se realizada com responsabilidade política deve partilhar de uma visão menos simplória e maniqueísta dos processos históricos e,  neste sentido, existem estudos excelentes  sobre história do século XX, marxistas e  não marxistas.

Do ponto de vista literário, não se pode afirmar que seja um romance pleno de lirismo/poesia, o que é mesmo difícil de encontrar em escritores de romances policiais. Todavia, também faltou  suspense/emoção e não apenas porque o  desfecho é conhecido, mas porque não  estamos diante daqueles thrillers que  fazem desejar reabrir o livro o mais  rápido possível a fim de saber como vão  os preparativos para o assassinato do  protagonista. Por sua vez, é pobre a dimensão psíquica dos personagens (do assassino Mercader e do próprioTrotsky). E sequer do romance entre  Leon Trotsky e Frida Kalho se extraí alguma emoção, de fato é um livro bem pouco excitante.

Finalmente, é preciso ser muito trotskista (ou anticomunista) para considerar o livro uma obra-prima do ponto de vista literário. E acho que até Trotsky, letrado como era, concordaria comigo. No  entanto, também não é um romance para  ser abandonado antes do final (e são 600  páginas!), apenas não parece uma grande  obra literária, que sobreviverá aos  tempos e daqui cinquenta anos (e nem  falo séculos) ainda lida e discutida.

A terceira e última parte é a melhor, as  análises do mentor de Mercader, vítima da gratidão costumeira de Stalin para com colaboradores, após temporada  preso, foi solto e salvo devido à morte do responsável pela destruição do sonho socialista, com a ajuda de indivíduos, como ele e Mercador, cegos pela ideologia e/ou pelo medo. Última parte  na qual o revisionismo histórico  predomina, assim como digressões sobre  o medo (também simplórias), tendo como cenário uma URSS pós-Stalin. O encerramento da leitura produz certa  ambiguidade, porque felizmente acabou  (o stalinismo e/ou o livro), mas pelos tempos atuais, caracterizados pelo sucesso de um livro tão reacionário e entre aqueles que se dizem à esquerda, ao mesmo tempo em que o sucesso não deixa de ter pertinência.