Editora Boitempo lança selo de quadrinhos

27.07.2014

O Globo
Télio Navega

A editora Boitempo acaba de lançar um selo de quadrinhos com um nome que evoca a luta e a resistência: Barricada. E, para comprovar o teor editorial da nova linha de títulos, o primeiro álbum, já disponível para compra, é Último aviso, da alemã Franziska Becker. De olhar feminista afiado, a veterana autora faz uma espécie de crônica visual de situações cotidianas.

Em agosto, sai Cânone gráfico, antologia de Russ Kick com o melhor da literatura, só que em quadrinhos. O primeiro de três volumes traz 51 histórias em 400 páginas, com gente como Will Eisner, Robert Crumb e Peter Kuper. Depois, em outubro, é a vez de CLAUN, HQ de um projeto transmídia do roteirista de cinema Felipe Bragança, do filme “Praia do Futuro”. A arte é de Daniel Sakê, Gustavo M. Bragança, Diego Sanches Martinez e Aloyzio Zaluar. Segundo Bibiana Leme, responsável pela coleção editorial, o foco é na diversidade, na mistura de assuntos:

— As três obras que inauguram o selo são completamente diferentes entre si, mas têm, em comum, a qualidade excepcional. Franziska Becker une as questões de gênero à crítica ao consumismo desenfreado da vida moderna. Com essa temática, ela cria situações hilárias, mas que ao mesmo tempo nos deixam perplexos, por cutucar, sem dó, os pontos fracos de nossa sociedade. E, apesar de não ser conhecida no Brasil, ela é uma veterana dos quadrinhos, aos quais se dedica desde os anos 1970. O “Cânone gráfico”, por sua vez, foi uma indicação certeira das meninas da Villas-Boas & Moss. A partir do instante em que colocamos os olhos ali, caímos de joelhos pela publicação! A ideia de juntar todos aqueles clássicos na forma de quadrinhos, oferecendo um panorama ilustrado da tradição literária mundial, foi de uma sagacidade arrasadora!

A escolha dos títulos a serem publicados pelo Barricada vão partir de um conselho editorial formado por gente que curte quadrinhos ou já trabalhou com o gênero, como o ilustrador Luiz Gê — que desenhou o logo do selo —, o artista plástico Rafael Campos Rocha, o cartunista Gilberto Maringoni e o jornalista Ronaldo Bressane, que revela como entrou no time:

— Eles já tinham alguns livros na manga, os quais avaliamos, dando pitacos na concepção editorial. E estamos sempre levando novas sugestões. Nosso foco são nomes alternativos e títulos pouco conhecidos por aqui.

Bibiana diz que publicar quadrinhos era um desejo antigo da editora.

— Há uma demanda crescente de leitores interessados em quadrinhos e espaço para publicação de títulos mais ousados, que transmitam uma mensagem libertária e privilegiem temas ligados à política, à crítica social. Digamos que as manifestações de junho de 2013 tiveram certo mérito na inspiração.