A violência segundo Zizek e uma canção da Jovem Guarda

27.07.2014

G1 | Máquina de Escrever
Luciano Trigo

Ler um livro de Slavoj Zizek é como conversar com alguém muito inteligente e que não para de falar, mas cujas ideias parecem um pouco confusas – e movidas pela necessidade de chocar o interlocutor. É o que acontece com Violência (Boitempo Editorial, 198 pgs. R$ 36). O tema, bastante em voga no momento atual do Brasil, é um terreno fértil para os malabarismos mentais e as frases de efeito do pensador esloveno, que já foi chamado, sabe-se lá por quê, de “Elvis Presley da filosofia”. Com sua verborragia habitual e fazendo uso de uma salada de referências – das reflexões sobre a História de Walter Benjamin à psicanálise lacaniana, passando pelo cinema de Hollywood – Zizek intercala momentos de genialidade com outros de rematada estupidez, o que pode ser bastante irritante: talvez o segredo seja lê-lo como entretenimento intelectual, sem levar muito a sério suas provocações.

Violência, de Slavoj Zizek O apelo de Zizek reside em parte na falta de referências dos sobreviventes da antiga esquerda revolucionária, que buscam desesperadamente em nossa realidade política e ideológica os espaços para exercerem um radicalismo de butique. José Guilherme Merquior dizia que no Brasil o sujeito que sabe três coisas é considerado um gênio por quem sabe duas. Seguramente, o cenário de indigência intelectual em que vivemos hoje – com meliantes semiletrados assinando colunas em jornais e lecionando em universidades públicas – ajuda a entender a existência do culto a Zizek entre nós, ainda que muitos de seus leitores não entendam patavina do que ele escreve (ou sequer se deem ao trabalho da leitura).  Por exemplo: o autor esloveno reconhece que a União Soviética recorreu à violência desenfreada e irrestrita, que levou milhões de pessoas à morte pela fome ou pelo fuzilamento, sobretudo na década de 1930. Mas não conclui daí que o projeto stalinista foi longe demais, ao contrário: afirma que aquele projeto não avançou o suficiente, o que explicaria seu fracasso político e social. De forma similar, o pensador já afirmou que Hitler “não foi suficientemente violento”. Ou ainda, que “o antissemita também está no judeu”. Esse padrão é recorrente nas análises de Zizek: ele pensa de uma maneira contra intuitiva, chegando a conclusões duvidosas a partir de dados verdadeiros e raciocínios engenhosos.

Com o subtítulo “Seis reflexões laterais”, Violência parte de uma premissa que não é exatamente original, nem particularmente ousada: a de que a violência visível em nossa sociedade é ela própria produto de uma violência oculta, estruturante do sistema político e econômico em que vivemos. Até aí nada demais, e Zizek poderia acrescentar ao seu catálogo de citações uma canção da Jovem Guarda que diz muito sobre o presente: “eu sou rebelde porque o mundo quis assim”. No fundo, é isso o que ele diz. Mas na aplicação dessa tese à interpretação de fenômenos sociais, culturais e políticos, Zizek frequentemente se afasta de qualquer compromisso com a lógica.

Em seis ensaios mais ou menos autônomos, Zizek envereda no livro por diferentes temas – as manifestações nos subúrbios de Paris, a desestruturação da ordem social em Nova Orleans após a passagem do furacão Catarina, o medo da criminalidade e do terror, o fenômeno social da filantropia e o culto da tolerância – para chegar sempre à mesma conclusão, estabelecida de antemão como a grade na qual deve se encaixar a realidade: existe uma violência invisível nas relações socioeconômicas. Se isso é evidente e mesmo inquestionável, Zizek ignora surpreendentemente um tema da ciência política fundamental: o do monopólio da violência pelo Estado. Sem a referência explícita a essa questão, qualquer interpretação do fenômeno da violência cairá na ideia inocente e falsa de que todas as violências se equivalem, ou de que existem sistemas políticos nos quais o Estado abre mão de formas legítimas de coerção. Como afirmou George Orwell, aliás citado por Zizek, “as pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”.

Em outro momento do livro, afirma Zizek: “Sem um exame radical de nós mesmos, acabamos por endossar a ordem jurídica e política existente como o quadro que garante a estabilidade de nossas vidas familiares e privadas”. Mas por que deveríamos considerar essa estabilidade algo intrinsecamente ruim? E o que ele oferece em troca, além de um discurso politicamente incoerente e moralmente irresponsável? Em qual sistema alternativo a questão da violência sistêmica foi resolvida de forma satisfatória? Mas Zizek também acerta – por exemplo, quando escreve, com toda razão: “Uma das estratégias dos regimes totalitários é terem normas jurídicas e leis criminais tão severas que, se as tomarmos literalmente, todo mundo será culpado de alguma coisa. Mas sua aplicação plena não tem lugar, o que faz com que o regime possa parecer compassivo”. Um bom tema para reflexão, em tempos de black blocs.