O homem que amava os cachorros

06.08.2014

Blog do João Paulo Cunha
João Paulo Cunha

Livro bom, costumo dizer, é aquele que você conta com prazer. E a pessoa que escuta sai com vontade de ler. Tenho falado muito de Leonardo Padura e seu livro “O homem que amava os cachorros”, da Boitempo Editorial.

O autor, um cubano, entrelaça três acontecimentos fundamentais do século passado: a Revolução Soviética, a Cubana e a Guerra Civil Espanhola. E amarra esses fatos com o exílio e a morte do líder da revolução soviética,  Leon Trotsky (Lev Davidovitch Bronstein), e a vida de seu algoz, o Espanhol Jaime Ramon Mercader.

Padura nomeia Iván Cárdenas Maturell, seu alter ego, que toma a história em suas mãos e passa a contar.  E nisso mistura um pouco de criação com realidade. É efetivamente um romance histórico!

Ivan é um homem em crise com si próprio e com seu país. Quer ser escritor e criar um grande livro. Mas não quer repetir a sabujice da maioria daqueles que escrevem no país. A crise pela qual seu país passa o atormenta. Está seguro de acertos pretéritos, mas a fome, o preconceito (tem um irmão gay que sofre) e a falta de perspectiva à juventude (seu irmão morre no mar ao tentar atravessar para os EUA) o advertem permanentemente. Sente a revolução esvaindo. Como na União Soviética ou na Guerra Civil Espanhola. Alimenta uma história que será o seu grande livro. E acerta. Assim, Leonardo Padura, através de Ivan, presenteia os leitores com esse grande livro que, mesmo tratando de um assunto já muito explorado, ainda consegue sensibilizar.

Em seus passeios pelas praias de Havana, Ivan conhece um enigmático senhor que passeia com seus cachorros e esconde uma cicatriz na mão (que jamais se fechou e que nunca fechará, pois é das memórias que ela se alimenta) que, enrolada em uma faixa, exala mistérios. Esse senhor inicia um diálogo com Ivan, no começo quase por códigos que, ao ir aprofundando, impõe cada vez mais dúvidas.

De forma paralela, o autor mostra a vida, até os últimos dias, do revolucionário russo Leon Trotsky (Liv Davidovitch Bronstein). Diante da ascensão Stalinista, Trotsky sabia que mais dia menos dia Stalin poria fim a sua vida. O leitor chega a sentir pena ao ver o homem que comandou o exército vermelho Soviético na revolução de 1917 ficar cada vez mais só. E, nessa solidão, admitir a aproximação íntima daquele que seria seu assassino. Os revolucionários estariam fadados a encerrar suas vidas solitariamente?

Trotsky, já exilado e com familiares ameaçados, é considerado traidor da Revolução e inimigo da classe operária. Como ele continua a produzir análises que fustigam Stalin, seu aparelho e mantém uma articulação interna e externa, o comando soviético decide que Trotsky deve morrer. E assim procede.

Nas montanhas espanholas, luta numa frente popular um jovem chamado Ramom Mercader. Comunista e filho de uma militante ardorosa, imagina uma Espanha livre e socialista. A ele será dada a tarefa de livrar o mundo de um traidor. Será próprio da juventude o desabrochar revolucionário?

Leonardo Padura nos faz conhecer um pouco Ramom Mercadrer. Um militante terno, que ama os cachorros e mistura a crença absoluta e dogmática na revolução com a ingenuidade que sempre atinge nossa juventude em algum momento. Ramon amou tão intensamente uma companheira, (acabou tendo um filho com ela), que não controlou o tempo do amor e da luta. Acabou sem a mulher e não viu filho crescer. Seus olhos eram para outro lugar! E se ele tivesse se entregado ao amor da mulher que o despertou?

A mãe de Ramon, Caridad Mercader, revolucionária Espanhola que, sofrendo psicologicamente, acabava descontando suas loucuras humanas no desejo de ver o filho completamente entregue à revolução. No fundo, Caridad pode ter se entregado à militância para fugir de uma vida vazia e sem sentido.

Ela e o agente soviético Kotov (Nahum Eitingon), que todo militante de esquerda já ouviu falar um dia, foram os portadores do convite que fez Ramon Mercader entrar para a história pela cova de Trotsky e perder a vida. Perder? Ele disse sim, seguro que essa era sua contribuição para a história. Esse sim o acompanharia ao longo de sua história e se juntaria posteriormente aos gemidos de Trotsky ao receber o golpe certeiro da picareta que pôs fim a sua vida.

Mas para chegar à casa de Trotsky, no México, Ramon deixou sua militância juvenil nas ruas e montanhas da Espanha e foi buscar nos labirintos do aparelho soviético apetrechos para sua caminhada rumo ao assassinato. Preparou-se e com determinação, deixou de ser Ramon e passou a ser Jacques Mornard Van Drendreschd, um sujeito de nacionalidade belga que entrou no México com passaporte canadense em nome de Franck Jacson e se apaixonou por uma trotskista feiosa, Sylvia Ageloff, que o levou até os aposentos de Trotsky.

Trotsky, depois de desprezado por vários países e perder aliados internos e externos, estava estabilizado no México. Seu anfitrião era Diego Rivera, marido de Frida Kahlo, que emprestou e depois ajudou Trotsky a montar sua própria casa. Ainda teve olhos para ver a beleza de Frida, e se entregar a uma rápida aventura, só não prosperando por decisão de Frida e em respeito à mulher de Trotsky.

É nessa casa que Trotsky morre pelas mãos de Ramon. Preso, passa 20 anos na cadeia, no México. Assume a responsabilidade, cumprindo a lei do silêncio que regra os agentes secretos, sustentando ser um belga que entrou no México com documentos canadenses.

Depois de sair da cadeia e tentar aportar em algum canto do mundo (pouquíssimos países lhe oferecem ajuda), Ramon passa por Cuba e, ao terminar sua vida na União Soviética, encontra um velho militante comunista, Eitingon (Kotov) que o havia ajudado a se preparar para a tarefa de matar Trotsky. Entre Vodca e Caviar, iniciam um balanço melancólico do que aconteceu na União Soviética. Terá valido a Pena?

Por outro lado, Ivan, o alter ego, em seus encontros casuais com o homem que amava os cachorros, descobriu que era o próprio Ramon a andar com a mão enfaixada pelas praias de Havana e que a história da revolução soviética, seus descaminhos e a dura experiência da guerra civil espanhola tinham tudo a ver com seus sentimentos do presente na ilha. Que sua crise com Cuba não era singular. Era plural, pois era de todos os jovens cubanos.

Ivan percebeu também que revolução atormenta muita gente. Que a solidão, que faz companhia e acaba ficando amiga de muitos militantes de esquerda, é um reflexo de dúvidas e angústias que habitam as almas dos seres que sonham com novos mundos. Que no mesmo diapasão, o passo para a degeneração é curto e facílimo. Que as disputas, a arrogância e a inveja têm sempre terreno fértil em processos coletivos e revolucionários. Que a morte ou uma injustiça praticada contra qualquer companheiro, motivada por questões ideológicas, gera aborrecimentos e turva a verdade, levando assim a desilusão de muitos homens de bem.

Assim esse romance histórico, baseado em pesquisas e entremeado por ficção, deixou para os leitores um sentimento de que crescemos um pouco com sua leitura. E deixa forte o sentimento de que, às vezes, amamos tanto os cachorros que somos capazes de matar para que nosso amor por eles continue a dirigir nossas vidas.