Entre a desesperança e a compaixão

10.09.2014

Revista Emília
Mariana Bonfanti

Premiado e aclamado como um dos romances históricos mais importantes sobre o século XX, O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, apresenta, ao leitor que se debruça sobre suas quase 600 páginas, um panorama profundo e exemplar das características mais marcantes do breve século da era dos extremos, como lembrou o inglês Eric Hobsbawn.

Embora o pano de fundo sejam as vidas de Leon Trotsky, Jaime Ramón Mercader e o fictício narrador Iván Cárdenas Maturell, é sobre a macro história e os descaminhos dos projetos políticos do século XX de que trata esse belo trabalho. 

Ivan Cardenas é um escritor cubano que vivencia as diferentes etapas pelas quais a ilha caribenha foi afetada durante a ascensão e queda da União Soviética e as consequências desastrosas nas décadas seguintes.  Impedido de levar adiante seus projetos juvenis por razões não só políticas mas também impostas pela própria vida, esse personagem é o fio condutor que nos aproxima de Jaime López, o misterioso homem que passeia com seus dois borzóis pelas praias de Havana e que confidencia ao narrador a impactante história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky.

Mercader, ou Jacques Mornard, uma das várias identidades assumidas por ele durante sua transformação em algoz do líder soviético, é um jovem militante comunista catalão, que escolhido a dedo pela inteligência de Moscou na efervescente Espanha pré Guerra Civil é treinado nos porões da NKGB para obedecer aos anseios de Josef Stálin e de seu aparato de Estado, responsável pela morte de Trotsky, de seus dois filhos Lyova e Sergei e pela eliminação de mais de 20 milhões de pessoas contrárias aos projetos estalinistas da União Soviética em formação.

Paralelamente ao desenrolar dessas duas histórias, o autor nos brinda com a trajetória de Trotsky, de 1929 a 1940. Nesse período de vida errante, obrigado a acompanhar os acontecimentos de seu país desde muito longe, nos locais que ousavam lhe oferecer asilo, Trotsky produz  ataques veementes à política praticada por Stálin oferecendo formulações teóricas que o transformariam num dos homens mais perseguidos pelo regime soviético.

Padura constrói esse panorama - por vezes, tão concreto - e permite que, durante a leitura, nos façamos tantas perguntas quantas são as explicações que hoje apontam a inviabilidade de qualquer projeto político. O narrador é quem exprime textualmente  nossa angústia:

“A verdade é que lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino que obra de homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendência histórica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis...” (p. 419)


Vale lembrar que o autor logrou também narrar essa história sem produzir reducionismos de qualquer espécie, estimulando no leitor sentidos e sensações contraditórias e sem vereditos definitivos.

Que utopias foram construídas e destruídas nesse breve século XX e o que permanece dos resultados e escolhas que foram feitas nesse período?

O prefácio de Gilberto Maringoni nos ajuda a entrar pela porta da frente no livro de Padura, e pela porta de saída levamos numa das mãos a sensação de desesperança e na outra, o sentimento de compaixão.