Eu, bate-bola

13.11.2014

Le Monde Diplomatique Brasil
Felipe Bragança

1.

O tecido pesa mais quando está molhado de suor. Dentro da máscara, a respiração tem o som amplificado e a rua se parece com um filme bonito, passando atrás de um filtro muito leve. Os meninos ao redor, todos também mascarados e trajando seus mantos, cantam trechos curtos e repetitivos de algum funk afiado e ingênuo, enquanto ao longe explodem fogos de uma outra “turma” de mascarados que está pronta para sair às ruas.

Aqui, somos quarenta, temos em torno de 20-30 anos de idade – alguns um pouco mais velhos, outros ainda muito jovens. Os fogos no horizonte chamam nossa atenção e caminhamos saltando, gritando e fazendo barulho pelas ruas da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro.

Carregamos uma sombrinha que nos abençoa ou uma bola feita de plástico presa a um pedaço de madeira que ressoa no chão como um estouro. Somos clóvis, somos clowns, somos bate-bolas.

Eu, bate-bola. 

2.

O que eu uso, hoje, é mais do que uma fantasia – é um traje de gala, uma armadura simbólica, uma insurreição de beleza em meio à idéia de ruas meramente feitas para nos levar do trabalho para casa, do cansaço para o sono.

Organizados estamos em grupos em torno de um ou mais “cabeças” que nos lideram e organizam, e assim saímos para a rua buscando atuar o nosso lugar único e verdadeiro, onde transformamos a diversão e o prazer em um momento de aventura, amores, magia, imaginação, resistência, música e amizade.

Somos tão antigos quanto o desejo do homem de se libertar nessa cidade. Somos tão antigos quanto o desejo das ruas da cidade de serem engolidas por quem realmente as ama.

leia o artigo completo na edição de novembro da Le Monde Diplomatique Brasil