Bate-bolas em quadrinhos

28.11.2014

O Globo
Telio Navega

Figuras tão tradicionais quanto temidas no carnaval carioca, os bate-bolas surgiram no início do século passado, na região portuária do Rio de Janeiro, e hoje, refugiam-se na Zona Norte e nos subúrbios, em dezenas, se não centenas, de grupos, como o Mundão, de Honório Gurgel, o Escracha, de Rocha Miranda, e o Camélias, de Vila Valqueire. Também chamados de clóvis, os mascarados acabam de ser transformados em heróis dos quadrinhos no álbum Claun — A saga dos bate-bolas (cor, 120 pgs., R$ 57), o primeiro título nacional do selo Barricada, da editora Boitempo. O livro, que será lançado no Rio nesta sexta, a partir das 15h, na Quinzena de Quadrinhos da Travessa, no CCBB, reúne cinco histórias, de três ilustradores diferentes, e faz parte de um projeto transmídia do roteirista Felipe Bragança — de filmes como O céu de Suely e Praia do futuro, ambos do diretor Karim Aïnouz — que teve início como websérie e, depois de HQ, ainda se tornará videogame.

— Cresci entre o Centro do Rio e a Baixada Fluminense. E a figura dos bate-bolas sempre fez parte dos meus sonhos e pesadelos infantis — conta o roteirista Felipe Bragança por e-mail ao GLOBO. — CLAUN surgiu como um desejo de falar sobre a mitologia, o cotidiano e o imaginário desses grupos de mascarados, lúdicos e guerreiros, que representam de forma metafórica uma série de lutas populares ao longo da História do Rio de Janeiro.

Com três longas como diretor no currículo — A fuga da Mulher Gorila (2009) e A alegria (2010), ambos em parceria com Marina Meliande, além do filme coletivo “Desassossego” (2010) —, o cineasta diz que o desejo de fazer quadrinhos vem desde a adolescência, mas nunca foi seu foco

— Agora estou totalmente apaixonado pelas possibilidades dessa linguagem que trabalhei junto com Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo Bragança, os três desenhistas do livro — empolga-se o roteirista nascido em 1980 e formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1989, depois de ter crescido entre o bairro de Santa Teresa e a cidade de Queimados, na Baixada. — Os quadrinhos surgiram para expressar, ao mesmo tempo, uma das referências pop presentes no imaginário dos grupos de mascarados da vida real, e também por me possibilitar uma obra urgente, realizada em um ano, expressando meu sentimento sobre eventos do ano de 2013 no Rio de Janeiro e no Brasil, e suas rimas com a história cultural e social dos bate-bolas.

O autor reconhece que há muitas semelhanças entre escrever para cinema e quadrinhos:

— O gesto é muito parecido, o conceito visual e o tempo são mais importantes do que a literatura em si. Quando escrevo meus filmes como diretor ou escrevo a HQ, o que procuro fazer é fechar os olhos e visualizar o que vai ser visto na tela ou nas páginas, seu ritmo e seu tempo de fruição.

Além das cinco HQs, que mesclam estilos de arte e narrativa, o álbum ainda traz fotos de bate-bolas, um texto em que Felipe Bragança conta sua experiência como clóvis e um mapa do Rio de Janeiro com as localizações, por bairros, dos grupos de mascarados. Apenas daqueles, como está escrito no livro, que se dispuseram a revelar nome e localidade, evidentemente. Alguns grupos têm mais de 30 anos. Outros foram fundados há menos de um. E a lista, com dezenas de grupos, é dinâmica, pois eles podem mudar de nome, lugar e identidade. Como qualquer bom personagem de quadrinhos.