Marx, o capital e o espírito do mundo

20.12.2014

Estado de S. Paulo
Rodrigo Petronio

Raymond Aron costumava dizer que a obra de Marx poderia ser compreendida em 5 minutos, em 5 horas, em 5 anos ou em 5 décadas. Esse seria um dos aspectos de sua grandeza. Se o leitor estiver cansado das versões de Marx em 5 minutos, que dominam o debate intelectual, a editora Boitempo acaba de lançar duas excelentes portas de entrada ao pensamento do filósofo alemão: o Livro II de O capital, do próprio Marx, e Para entender o capital: Livros II e III, do geógrafo britânico David Harvey, um dos expoentes do pensamento marxiano mundial.

Essas duas publicações dão sequência ao projeto de edição integral dos três volumes de O Capital com base na edição estabelecida por Engels, saída do prelo de Hamburgo em 1890 e com aparato crítico estabelecido pela Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA). Paralelamente, finalizam-se agora as análises livro por livro feitas por Harvey. Todas as meticulosas traduções de Marx e Harvey são assinadas e coordenadas por Rubens Enderle, do alemão e do inglês, respectivamente.

Por que uma obra teria dado ensejo a tantas controvérsias e perspectivas distintas? Um aspecto central para compreender o pensamento de Marx, sobretudo em O capital, diz respeito a aliança entre métodos crítico e dialético. Essa aliança se tornou possível porque, segundo Harvey, Marx unificou as teorias políticas-econômicas clássicas britânicas, as ferramentas da filosofia alemã e os princípios do utopismo francês. Com essa nova ciência crítico-dialética, Marx criou um modo de compreender o funcionamento global do capital, aspecto não contemplado por nenhuma das análises periféricas.

O Livro I aborda o capital não do ponto de vista do mercado e do comércio, mas da produção. Por seu lado, o Livro II analisa as relações de troca. Ao passo que o Livro III se concentra nas crises e contradições do capital financeiro, bem como em fenômenos como juros, renda, lucro. A dificuldade se encontra no fato de os Livros II e III terem ficado inconclusos.

Além disso, diferentemente da enorme abrangência dos exemplos arrolados no Livro I, que vão de Shakespeare e Balzac a contos de fadas, nos Livros II e III Marx concentrou-se na tarefa de delinear tecnicamente dois conceitos: produção e realização. Ambos são entendidos como uma unidade contraditória. Nesse sentido, estes dois livros são mais áridos. Neles, a crítica da economia política deixa de ser feita com base em imagens da produção social de cada tempo e passa a ser entendida como um funcionamento do capital em estado puro.

Por esse motivo, Harvey unificou as análises dos Livros II e III em um só volume. Ambos são essenciais para compreender a produção do mais-valor e como este é extraído do trabalho e adicionado à produção e à circulação geral do capital. Nesses termos, deve-se ressaltar a importância das leis naturais no Livro II. Elas conferem à análise do capital um valor científico, aproximando-a das relações de metabolismo dos sistemas orgânicos.

As metáforas sistêmicas e orgânicas são de extrema relevância nesse caso. E podem frustrar aqueles que gostariam de enxergar na crítica radical do capital a consumação das utopias do jovem Marx. Produção, distribuição, troca e consumo: esses seriam os quatro pontos cardeais da circulação do capital entendido em sua generalidade, particularidade e singularidade. Nessa chave, Harvey entende a concepção de Marx como ecossistêmica, relacional, dialética e orgânica. Ou seja, como um método crítico-dialético de análise capaz de decompor todas as formas atuais ou virtuais, passadas ou futuras da produção do capital.

Não estamos diante de um escrutínio erudito como de Gênese e Estrutura de O Capital, de Roman Rosdolsky (Editora Contraponto), ou dos volumes de Ruy Fausto dedicados a decifrar a obra-prima de Marx (Editora 34). A obra de Harvey se assemelha a aulas expositivas sobre cada capítulo. Não por acaso, surgiu dos cursos sobre O capital de mais de três décadas.

São diversos os motivos que fazem de O capital uma das obras mais importantes da história do pensamento. Acima de tudo, mais do que um pensador revolucionário, Marx é um pensador das contradições. Ao colocar as antinomias e o conflito no coração mesmo dos processos econômicos, naturais e sociais, Marx deu um golpe de morte nas teorias liberais clássicas que ele mesmo tanto admirara.

Por isso, tornou-se uma referência nuclear para pensadores de espectros ideológicos tão distinto quanto Berlin, Luckács, Gramsci, Adorno, Aron, Benjamin, Agamben e uma lista praticamente infinita. Os grandes pensadores não são aqueles que revelam a ilusão de algumas verdades. São aqueles que sugerem a verdade das ilusões. Por isso, com Marx, pensar o capitalismo sem pensar suas contradições não é ser liberal. É ser apenas ingênuo.