Paz com Cuba, enfim...

21.12.2014

O Globo
Helena Celestino

Os sinos tocaram não foi à toa. Já tem gente apressando a viagem a Havana para ver a cidade ainda pontilhada com os cadillacs do século passado, antes de chegaram os carros cheios de tecnologia mas sem o charme dos anos 50. Mesmo com republicanos americanos e dissidentes de Miami tentando reerguer o muro de incomunicabilidade entre EUA e Cuba, não vão voltar os bizarros tempos em que espiões procuravam humilhar o então altivo Fidel Castro usando creme depilatório para fazer sua barba cair ou botando alucinógenos no seu café — isto não é uma figura de linguagem, era assim nos anos da Guerra Fria. Fidel, no seu estilo irreverente, respondia com provocações e ameaças. Após os sinos comemorarem os discursos dos presidentes Obama e Raúl Castro quarta-feira passada, os prognósticos para a ilha são animadores: “Cuba terá de enfrentar um desafio nada familiar às autoridades locais: como gerenciar o boom econômico”, diz a sóbria pesquisadora do University College London, Emily Moore, especialista do Instituto das Américas.

O embargo ainda pode durar, mas já está marcado para morrer. Só a retirada de Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo — um anacronismo há décadas — acabará com o medo das empresas estrangeiras de sofrerem sanções ao investirem na ilha e elevará em vários pontos percentuais o PIB cubano. Os turistas já contribuem com US$ 2,6 bilhões para a economia do país, mas ainda não passam de 200 mil os moradores dos EUA a viajar legalmente à terra dos Castro — número que pode crescer para um milhão.

“O melhor canhão do capitalismo é a mercadoria”, diz o professor e analista político Plínio de Arruda Sampaio Jr, citando o velho Marx.

Por que Cuba interessa? Ao contrário do resto da América Latina, a ilha tem uma mão de obra altamente qualificada e bem baratinha. É um time de engenheiros, médicos, cientistas bem formados, disponíveis para trabalhar na indústria farmacêutica, de informática, em empreiteiras ou onde mais os americanos enxerguem oportunidades de negócios. Antes deles, certamente chegarão os brasileiros e europeus para usarem Cuba como plataforma de exportação, atraídos pela proximidade com o vizinho rico e gigante, dispostos a aproveitar os custos baixinhos de produção.

Para Cuba, o degelo veio na hora em que já faltava oxigênio. “Temos de recuar para evitar a debandada”, disse há poucos meses uma alta dirigente do partido para explicar a liberalização econômica na era Raúl. O escritor Leonardo Padura — autor do O homem que amava os cachorros, um best-seller da Boitempo — já via uma saída à la Vietnã ou China para a ilha, mas percebia nos cubanos um crescente desinteresse pela política, mais preocupados em sobreviver no difícil cotidiano de filas e serviços precários. “É um processo que trata de manter o controle socialista sobre os meios de produção fundamentais e o controle político. Começam a abrir estruturas no país de um caráter mais liberal ou capitalista, mas a essência política não mudou e o governo não pretende mudá-la”, me disse ele numa entrevista este ano.

As comparações com os regimes comunistas do passado ou de outros continentes param aí. A queda do muro diplomático nas Américas não vai derrubar o regime, como aconteceu no Leste Europeu e na União Soviética na virada dos 80 e início dos 90. Nem vai liberar geral. A tendência é o fortalecimento de uma classe média que vai procurar uma expressão política e, certamente, criar pressões para a abertura do regime. Do ponto de vista da rede de apoio a Cuba, se tudo der certo, a transição incluirá o reconhecimento do direito à crítica — aos irmãos Castros e ao partido e ao que mais for — o direito sagrado de reclamar do governo e da fofoca política, arquivando a célebre frase de camareiras nos hotéis: “Não posso falar, é perigoso”. Mas não é provável a permissão para a imprensa internacional se instalar lá e entrar no debate político, ou os blogs terem o reconhecimento oficial.

“A resposta deve ser reforçar a mensagem nacionalista no estilo José Martí. Intensificar a batalha das ideias, reforçar os valores de solidariedade”, diz Plínio, interlocutor frequente das autoridades cubanas, tentando decodificar os sinais emitidos de Havana.

Mas a grande mudança é simbólica. Cuba sobreviveu ao bloqueio, e o acordo com a superpotência aconteceu sem negociações sobre seu regime político. De repente, parece que os 50 últimos anos não existiram e voltam as histórias engraçadas de Fidel, as lembranças da Cuba heroica, lutando por uma sociedade mais igualitária, as mulheres com filhos no colo engajando-se na luta contra o colonialismo em Angola. “Para os EUA” — escreve o repórter da “New Yorker” John Lee Anderson — “os americanos temporariamente também voltaram a pensar na época de ouro, antes de o país se meter no Vietnã, antes de derrubar Allende no Chile, antes do Iraque e outras misérias”. A paz dos EUA com Cuba muda o cenário das Américas e pode ser o grande legado de Obama.