Polícia Militar x militantes: uma batalha também nas redes sociais

20.01.2015

Brasil | El País
Talita Bedinelli

A batalha entre os manifestantes contrários à tarifa de transporte público e a Polícia Militar de São Paulo não acontece mais apenas nas ruas. Ela ganhou as redes sociais, que se tornaram nas últimas duas semanas o palco de uma guerra de versões oficiais.

Vilã das manifestações de 2013, quando os abusos cometidos por seus homens se espalharam pela internet e mobilizaram a opinião pública, a Polícia Militar paulista adotou neste ano armas adicionais: sua conta no Twitter, com 78.000 seguidores, e sua página no Facebook, com 575.000 likes. Em uma cobertura minuto a minuto, como a dos veículos de comunicação tradicionais, o Twitter da corporação transmitiu em tempo real as últimas duas marchas, destacando a versão policial dos fatos.

“Polícia Militar utiliza munição química após alguns vândalos atacarem os policiais militares com fogos de artifício”, dizia uma das mensagens no último dia 16, que explicava os motivos de a PM ter lançado gás lacrimogêneo contra os manifestantes. “Vândalos quebram vidros da viatura”, dizia, em outro tuíte, acompanhado por uma foto do carro mencionado, enquanto as TVs mostravam, ao vivo, a praça de guerra que havia se tornado o centro de São Paulo.

Ainda no primeiro protesto, enquanto imagens e relatos de policiais xingando ou atacando manifestantes circulavam aos montes na internet, a PM também publicou vídeos em que mostrava os tais “vândalos” atirando pedras contra agências bancárias, outro argumento usado para justificar a repressão durante a marcha.

Ao mesmo tempo, o Movimento Passe Livre (MPL), organizador dos atos, usava sua conta no Twitter, seguida por 2.100 pessoas, para expor o lado dos manifestantes também em tempo real, algo que não fez nos protestos que organizou 2013. “As bombas para dispersar o ato foram lançadas do alto de um prédio!”, relatava. Também retuitava relatos dos que estavam no ato e sofriam ou presenciavam abusos policiais. “Um detido desmaiou durante a prisão feita pela PM”, afirmava uma das mensagens retuitadas pelo movimento.

A estratégia deu certo. Quase que instantaneamente, a versões oficiais, seja da PM ou do MPL, chegavam não apenas a seus seguidores, mas também aos leitores dos veículos de comunicação tradicionais, que funcionavam como mediador dos lados, ao incluir as versões em seus próprios minuto a minuto. “O Twitter possui uma enorme capacidade de gerar tendências e pautar a imprensa”, explicou Fábio Malini, professor do Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura Universidade Federal do Espírito Santo.

Malini fez um levantamento sobre as redes de retuítes nos dois últimos atos ocorridos em São Paulo.“É uma guerra em rede, que tem um efeito imediato na opinião pública”, afirma. “PM e MPL perceberam a importância de se ter esse posicionamento nas redes. Essa interação reduz a verdade dos outros”, diz.

Mas essa guerra também tem produzido episódios curiosos. “E houve boatos de que não teria armamento @PMESP”, disse uma usuária à Polícia, em uma mensagem no Twitter logo após o primeiro ato e que depois foi apagada. Recebeu da corporação uma reposta um tanto quanto seca, com um toque de bom-humor: “Por isso são boatos”.

A polícia também errou a mão ao publicar um meme, em seu Facebook, em que comparava praticantes da tática “black block” (que acreditam na depredação do patrimônio como forma de protesto contra o capitalismo) com integrantes do Primeiro Comando da Capital, facção criminosa que comanda os presídios de São Paulo –levou uma “bronca” de seus superiores e a mensagem sumiu.

Para João Alexandre Peschanski, professor de ciências políticas da Faculdade Cásper Líbero e um dos autores do livro Cidades rebeldes, da editora Boitempo, que analisa as manifestações de 2013, a nova política de interação da PM nas redes é uma tentativa de mudar sua imagem diante da população. “Em 2013, a polícia perdeu a guerra da mídia. Ela acabou se tornando a vilã, não teve protagonismo, foi vista como a que reprimiu. Agora ela está mostrando sua perspectiva dos fatos”, ressalta. “O problema é que não basta filmar e se posicionar para mudar essa imagem. É preciso que a PM também mude de postura durante os protestos.”