A anarquia indomável dos bate-bolas

07.01.2015

Brasil de Fato
Aldo Gama

Longe dos holofotes e das câmaras de tevês que fazem a cobertura do carnaval do Rio de janeiro, os grupos de “clóvis” ou “bate-bolas” continuam vivos nas ruas dos subúrbios. Reprimida desde os primórdios, no início do século 20, como outras manifestações populares, como o samba e a capoeira, a tradição segue enfrentando o poder público que continua a temer sua mensagem poética e anárquica.

A aura misteriosa irradiada por essas pessoas fantasiadas, com seus próprios mitos e rituais, acaba sendo o principal combustível do projeto transmídia Claun, idealizado pelo cineasta e roteirista Felipe Bragança.

Iniciado em 2013, com a websérie Os Dias Aventurosos de Ayana (dividida em três episódios que podem ser vistos no sítio www.claun.com.br), teve sequência em outubro de 2014, quando foi publicada a graphic novel Claun – A saga dos bate-bolas. A terceira e última etapa, ainda em produção, virá no formato de um videogame.

Recomendado pelo antropólogo Hermano Vianna, o projeto defende um “lado do Rio que nenhum choque de ordem vai conseguir domesticar”, com os bate-bolas recebendo “tratamento de super-heróis. Meteorango-kids sofrem mutações em X-men justiceiros suburbanos”.

Já o escritor e comentarista João Paulo Cuenca destacou o aspecto político da perseguição às gangues de clóvis evidenciado no trabalho, traçando um paralelo com as manifestantes de junho e suas máscaras proibidas.

Mitologia

Na trama elaborada por Felipe, os bate-bolas têm sua própria mitologia, com papéis definidos a cada grupo que, liderados pela relutante rainha, deve combater inimigos poderosos capitaneados por uma figura sinistra associada à elite da cidade. O mote de que as manifestações culturais espontâneas, crias legítimas do povo ou extensão de suas tradições, são vistas como potencialmente subversivas pelo Estado acompanha as sucessivas tentativas  de silenciá-las, sendo o poder público o exército a serviço do mal, visto aqui, entre outras coisas, como a especulação imobiliária.

E o cerceamento da utilização do espaço público para intervenções populares extrapola frequentemente o terreno da ficção, com ações policiais autoritárias e arbitrárias, seja na proibição de um baile funk ou do uso de fantasia, como relata o próprio Fernando no texto “Eu, bate-bola”, reproduzido no livro.

“A caminho de Nilópolis, nossos ônibus fretado é parado por um cerco policial. Descemos em fila – somos cerca de 50 mascarados de dois grupos diferentes que andavam juntos ali. Somos obrigados a tirar as máscaras, colocar as mãos nas paredes e ouvir gritos de ordem de crianças um policial que nos aponta sua arma sem maiores explicações.”

Mascarados

Antes de se envolver com esse projeto, Felipe já trazia no currículo a direção dos longa-metragens A Alegria e Fuga da Mulher Gorila, além do roteiro dos filmes O Céu de Suely e Praia do Futuro, ambos do cineasta Karim Aïnouz. Para sua estreia como roteirista de quadrinhos, contou com o trabalho de Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo M. Bragança, responsáveis pela arte das histórias “As Primeiras Máscaras”, “Jonas Perde seu Rosto”, “Daury e a Morte”, “Meu Rosto Quando Imagino” e “Amílcar e os Espíritos”. Completam o livro um ensaio fotográfico de André Mantelli, que acompanhou uma saída de bate-bolas no Carnaval de 2013, um álbum com fotos amadoras de bate-bolas de diferentes épocas, obras do artista plástico Aloysio Zaluar, autor de uma série de pinturas realizadas na década de 1970 retratando os mascarados do Carnaval e um mapa localizando cerca de 400 grupos de clóvis espalhados pelos subúrbios do Rio de Janeiro.

Claun é o primeiro lançamento brasileiro do selo Barricada, divisão de quadrinhos da Boitempo Editorial, que antes havia publicado Último Aviso, da cartunista alemã Franziska Becker, e Cânone gráfico I, coletânea organizada por Russ Kick que traz quadrinistas da envergadura de Robert Crumb e Will Eisner.