Claun – A saga dos bate-bolas

10.02.2015

Impulso HQ
Floreal Andrade

A primeira vez que ouvi falar dos Clóvis foi quando meu irmão viajou ao Rio de Janeiro no início dos anos 80, passando alguns dias em Jacarepaguá. Ele me falou dos palhaços mascarados, batendo uma espécie de bexiga no chão em um domingo de carnaval. Agora esses personagens ganharam uma excelente HQ, publicada em 2014, pelo selo Barricada da editora Boitempo.

Felipe Bragança, criador das histórias em quadrinhos reunidas no álbum Claun – A saga dos bate-bolas, diz no prefácio do livro que os Clóvis (de clown, palhaço) ou bate-bolas apareceram no Rio de Janeiro nos anos 20, quando a cidade passou por uma profunda reurbanização, quando a população mais pobre foi expulsa do zona central da cidade.

São cinco histórias desenhadas por Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo M. Bragança. E aqui cabe colocar que um dos grandes méritos da obra é a sua uniformidade visual, apesar de ser executada por três artistas diferentes. Toas as histórias são bem finalizadas com desenhos vibrantes e cheios de personalidade. Em momento algum o leitor se perde ou se confunde com os personagens, mesmo sendo em traços diferentes. Destaque para a paleta de cor. Escolha bem acertada e que atinge o seu propósito.

O interessante é que a obra na época de seu lançamento foi apresentada da seguinte maneira: “a proposta é lançar um olhar de crônica e de investigação sobre a mitologia do Rio de Janeiro e os grupos de Clóvis e bate-bolas que tomam as ruas no Carnaval – chegando aos milhares de foliões. Pela primeira vez, essas figuras fascinantes que se apropriam do imaginário pop, como lembra Hermano Viana, “recebem finalmente tratamento de super-heróis”.

Ok, aqui vale uma observação para evitar confusões. Não é uma obra de super-heróis, pelo menos, não os típicos mascarados e encapuzados americanos, super musculosos e com o brilho nos dentes. O diferencial de Claun, é justamente o que ela se propõe a apresentar, a saga dos Bate-bolas.

Em As Primeiras Máscaras somos apresentados a uma história de um amor que termina em pólvora e sangue e no surgimento do primeiro mascarado; Jonas Perde seu Rosto, o ciúme de um irmão que faz de tudo para destruir os mascarados; Daury e a Morte, a sina de um homem que muda de vida ao matar um amigo; Meu Rosto Quando Imagino e Almicar e os Espíritos traz Ayana, irmã de Jonas, Daury e Amilcar, na sua incansável luta contra os poderosos da cidade.

Resumindo, são histórias passadas no subúrbio com gente do subúrbio e heróis mascarados do subúrbio. De quebra, a edição conta com textos sobre o surgimento dos mascarados, sua geografia, fotos e muito mais. É a cara do Brasil em quadrinhos.

Não posso esquecer de falar que esse é um projeto transmídia. A primeira fase do projeto CLAUN é a websérie em três episódios Claun – Os dias aventurosos de Ayana, dirigida por Felipe Bragança. Todos os episódios estão disponíveis no site da Boitempo.