O caminho do feminismo de Simone de Beavouir até Beyoncé e Valesca Popozuda

19.02.2015

Donna | Zero Hora
Patrícia Lima

“Valesca Popozuda é uma mulher objeto. Mas é uma mulher objeto de estudo.” Foi com essa frase que Regina Casé apresentou a funkeira, convidada do programa Esquenta, exibido pela Rede Globo nas tardes de domingo. Na ocasião, além de cantar, Valesca comentou sobre seu recente ingresso no universo acadêmico. Ao seu lado estava a estudante Mariana Gomes, autora do estudo “My Pussy é o Poder”, que desenvolve no curso de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Mas afinal, perguntaria um desavisado, o que faz uma funkeira que já encabeçou um grupo chamado Gaiola das Popozudas na academia formal, ladeada pelos teóricos da sociologia e pelas vozes mais tradicionais do pensamento feminista? Resposta: faz parte de um movimento novo, que não começou ontem, mas somente agora ganha visibilidade e alcance na indústria cultural massiva brasileira. Chame-o de novo feminismo, de feminismo pop ou de girl power, não importa. O fenômeno que ganhou o mundo na voz e nos gestos da americana Beyoncé, a Queen B, domina o ambiente midiático, em terras brazucas, por meio do beijinho no ombro de Valesca Popozuda.

Abre-se aqui um grande parêntese e a fita retrocede para 1949, muito antes de o mundo saber que popozudas poderiam existir dentro de gaiolas. Uma filósofa francesa publica um livro que começou a devastar as regras machistas e paternalistas que dominavam o mundo ocidental. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (1908-1986), é uma análise do papel da mulher na sociedade. Em resumo, Simone demonstra que ser mulher não é fruto da combinação pura e simples de biologia e instintos. É, antes disso, uma construção social, baseada no conceito que chama de “invisibilidade histórica”. Rejeitando a noção de que a mulher seria de “natureza inferior”, ela afirma que a tomada de consciência da sua própria autonomia e a possibilidade de independência financeira seriam a saída para que a mulher pudesse ter absoluto controle sobre seu corpo e sua vida.

As ideias de Simone foram uma revolução. Tanto que, a partir delas, formou-se o conceito de feminismo que atravessou as décadas seguintes.

Nos anos 1970, o movimento se consolidava nas universidades e ambientes em que a intelectualidade se reunia – e também aqui no Brasil. Na década seguinte, a cultura pop invadia o mundo com a Material Girl, de Madonna, enquanto a mulher real conquistava o mercado de trabalho, competindo com os homens – ainda que ganhando menos e trabalhando mais. O curso da história demonstrou que a presença feminina no mercado era definitiva e que sua liderança na família poderia substituir a do homem, sem prejuízo da prole. No livro Feminismo e Política, publicado recentemente pela editora Boitempo, os autores Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli comentam que as questões de gênero ainda precisam ser discutidas, pois nem tudo se resolveu com o ingresso da mulher na competição pelo capital. “O sucesso profissional de algumas mulheres não impede que a maioria continue em condições nas quais a pobreza, a violência e a dupla jornada de trabalho, demarcada por recursos e oportunidades escassas, são a realidade”, afirmam eles no artigo que fecha o livro.

É precisamente neste cenário que ressurge o feminismo – reinventado, diferente, estranho, até. Mas, ainda assim, feminismo. Por meio das redes sociais, mulheres relatam as violências a que ainda são submetidas. No ano passado, a campanha Chega de Fiu-Fiu denunciou, com um aplicativo colaborativo, os locais do Brasil em que elas sofrem mais constrangimentos em espaços públicos. Depois de uma pesquisa que revelou que 26% dos brasileiros acreditam que uma mulher usando roupas provocantes merece ser estuprada, uma ativista criou o movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada. Nada complexo, mas de enorme repercussão: normalmente fazendo topless, mulheres tiravam selfies segurando o cartaz com a frase da campanha. A própria Valesca Popozuda fez um ensaio inteiro para aderir ao movimento.

— Esses movimentos servem, normalmente, como um primeiro contato das mulheres com o feminismo — comenta a ativista Maria Fernanda Salaberry, líder do movimento Marcha das Vadias, em Porto Alegre.

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Segundo ela, a própria Marcha é uma espécie de iniciação. Por isso, não tem pauta específica, mas um caráter fortemente alegórico, para chamar a atenção da sociedade e das mulheres.

— Depois disso, é natural que elas busquem mais informação e, quem sabe, se insiram nos debates mais sérios e complexos sobre todas as questões relevantes do gênero, como o corpo e o aborto — pontua Maria Fernanda.

Avança a fita para os nossos dias. Valesca, mulher de origem pobre, personifica o tal empoderamento das mulheres e torna-se símbolo feminista. Mas pode alguém que projeta a si mesma como um objeto sexual (a começar pelo nome artístico) ser ícone de um movimento que, a rigor, a criticaria justamente por isso? Em tempos em que a internet enterrou a invisibilidade histórica detectada por Simone de Beauvoir, parece que sim. Junto com a figura dela, aparece toda a chamada “cultura favelada”, com a ascensão de grupos culturais até então relegados.

E, afinal, a academia, ambiente formal de construção de conhecimento, percebe sua existência e, principalmente, sua influência. Daí surge um mestrado como o de Mariana, que busca complexificar o conceito de feminismo e entender como as mulheres funkeiras demonstram sua liberdade sexual por meio das músicas, tudo isso permeado pela discussão da cultura popular – segundo descreveu a própria Mariana. A estudante ainda não defendeu sua dissertação, mas mantém um blog em que discute as questões de gênero e de classe. E o coral da USP interpreta Beijinho no Ombro em uma apresentação. E a cantora assina uma coluna no site Extra. E um professor a chama de “pensadora contemporânea” e usa um trecho de sua música em uma prova.

Mas e a própria Valesca, o que diz?

— Feminismo é a mulher saber os direitos dela, se portar dentro deles e não ter medo de ser mulher, de gritar eu sou mulher, seja de qualquer forma. Ela pode fazer o que quiser, sem ter que dar satisfação.

Assim como marchar com as vadias ou fazer selfie com cartaz, ouvir e dançar até o chão parece ser uma porta de entrada para o pensamento feminista complexo, que problematiza as questões e busca fazer avançar o debate sobre o gênero. E quem não quiser se aprofundar e mergulhar mais a fundo no âmago da coisa? Tudo bem. É só mandar um beijinho no ombro e continuar sendo feminista ao seu modo.