Uma singularidade plural

24.04.2015

Espaço de Cultura Socialista
Marcos A. Rossi

Tenho inúmeras e colossais dificuldades para pensar no singular. Há em mim uma multiplicidade de experiências, vidas, encontros e encantamentos. Mesmo quando me predisponho a levar em consideração somente a mim mesmo, erro feio, durmo mal, sinto-me menor. A questão não é de altruísmo. Acredito que seja algo inerente a perceber que, no mundo, somos um mutirão incessante de trocas, materiais e simbólicas, sem as quais nada nem ninguém teria valor algum.

Doem-me de forma aguda e insistente a palavra sem nexo, a crítica descabida, a demonstração fácil da pérfida ignorância. Todas essas agressivas formas de ser (e viver) ganharam explosiva ampliação com o mundo sem fronteiras da internet. Sem mediações nem critérios éticos de exploração do próprio pensamento, indivíduos e organizações elegeram como suprassumo da liberdade o mais insultante apelo de horror contra a antiga e já esquecida massa cinzenta. Concordo com Mauro Iasi: a direita e o conservadorismo que hoje ascendem violentamente nos espaços públicos (pouco públicos e nada aconchegantes) não são novos; estão aí há tempo imemorial - antes, envergonhados; agora, por motivos tão alienígenas quanto suas cosmovisões, faceiros, constrangedores e a conquistar os incautos que não leem, não pensam, têm ódio da história e da reles insignificância, apesar de se acharem tudo de bom e do melhor.

Parte desses zumbis desavergonhados (que não se constrangem nem diante do espelho da vida) inverte e deforma categorias e conceitos, segue inadvertidamente gurus ignorantes, perde de vista o fascismo como um perfil, algo muito mais nocivo e doloroso que sua realização histórica sob proteção estatal na era da guerra total que abriu e atravessou o século XX. Para esses neófitos no universo da inteligência terceirizada, Leonardo Padura, por exemplo, autor cubano do célebre O homem que amava os cachorros, publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, aparece agora como um crítico impiedoso do socialismo e da experiência histórica inspirada na Revolução Russa de 1917. Padura, que vive em Cuba e luta por seu país em campo, no jogo, sem fugir para alpes ou refúgios além-mar, é um pensador generoso, de esquerda, que retrata em seu livro obrigatório, de modo condoído, as lutas e as crenças equivocadas de grande parte dos socialistas do século XX. Mas ele não pula a cerca, não abnega sua história, não rejeita os sonhos pelos quais tanto brigou. O que ele faz em seu livro é algo raro hoje em dia: autocrítica. Por ser irracionalista e se julgar o último refrigerante com gás da senda moral, a direita não entende Padura, não consegue ler seu livro, mente e ainda faz jogo de cena na imprensa e na batalha das ideias.

Por ser plural no pensamento e na ação, procuro me abster de mentiras e autoenganos. Corto na pele quando me flagro em alguma pequena viela de incoerência. Ao mesmo tempo, insurjo-me contra minhas intenções ao captar, ainda que de forma frágil, alguma tentativa de manipular quereres, distorcer fatos, eventos, biografias em movimento.

Minha singularidade plural (não, isso não é um paradoxo!) me põe no mundo para aprender com os percursos e percalços da história. O único requisito para esse aprendizado exigido diariamente é, como poetizou Cazuza, "olhar o mundo com a coragem do cego, entender as palavras com a atenção do surdo e falar com a mão como fazem os mudos."