Capital do livro

11.06.2015

Panorama | Jornal do Comércio
Rafael Gloria

A partir deste sábado, Canoas se transforma na capital gaúcha do livro. A 31ª edição da Feira do Livro da cidade vai contar com uma programação variada, composta por trinta bancas para comércio de publicações. As atividades estão agrupadas na Praça da Bandeira, com visitação até o dia 27 de junho. Com o slogan “26 Letras e Infinitas Histórias. Literatura é Inovação”, a feira homenageia o escritor Luis Fernando Verissimo, além de trazer nomes destacados da literatura brasileira, como Frei Betto, Ruy Castro, Alice Ruiz, Estrela Leminski, Luciana Sandroni e Luisa Geisler.

Essa edição também marca um momento de reflexão sobre a divulgação literária e a formação de leitores. Para Eduardo Paim, secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Cultura de Canoas, o evento já vem se consolidando como um dos maiores da área da literatura no Rio Grande do Sul. “Nossa feira recebe mais do que 300 mil visitantes, com agendamento de 30 mil estudantes. Serão 165 atividades com 52 lançamentos, sendo 42 escritores canoenses, 38 regionais e oito nacionais”, afirma. Mais informações e a programação completa da feira podem ser conferidas no site www.canoas. rs.gov.br.

Um dos autores em destaque é o cubano Leonardo Padura, que depois participa da Festa Literária de Paraty. Seu último livro, O homem que amava cachorros, lançado pela editora Boitempo, reconta a trajetória do intelectual marxista Trótski, rival de Lenin. Ontem, Padura foi anunciado o vencedor do Prêmio Princesa das Astúrias das Letras (ex-Príncipe das Astúrias) de 2015.

Qual a importância das feiras literárias?

Há feiras focadas na área comercial e outras mais preocupadas com a parte cultural. Eu, como autor, prefiro participar das que cuidem dos interesses dos escritores e dos leitores e na promoção da leitura e do livro.
No mundo de hoje, em que a divulgação do livro e a presença na mídia é tão necessária para atingir o público, a necessidade das feiras cresceu ainda mais. Qualquer cidade do mundo que se respeite tem a sua e, embora não goste muito da atmosfera desses eventos, eu procuro atender todos os convites, porque reconheço a sua importância.

Como é ser um escritor em Cuba? Mudou alguma coisa com essa maior aproximação com os Estados Unidos?

Ser um escritor em Cuba é complicado e permanecerá assim por um tempo, aconteça o que acontecer na relação com os Estados Unidos. O escritor cubano trabalha em um país onde as editoras são todas propriedades do Estado, em que há uma crise permanente por falta de papel, e não há um mercado literário. É, também, um país bastante singular, e que cria o perigo de que o escritor observe somente o que o rodeia, e acabe produzindo apenas uma literatura local. Talvez seja por isso que os escritores cubanos mais jovens muitas vezes não pareçam cubanos e tentam se afastar do seu contexto para poder tentar se expressar com mais liberdade.

Você também trabalhou como jornalista. Qual é a influência dessa experiência em seu trabalho como escritor de ficção?

Sempre digo que o jornalismo mudou a minha perspectiva e meu potencial como escritor. Trabalhei em um diário vespertino escrevendo longas reportagens investigativas, o que me permitiu amadurecer como escritor. Fiquei neste periódico entre 1983 e 1989, só escrevi um livro de ficção. Mas quando voltei a escrever livros, em 1990, comecei a série com o meu personagem mais famoso, o detetive Mario Conde. A partir daí, me tornei mais consciente das minhas capacidades como escritor e da minha visão de mundo. Foi uma evolução pessoal, social e estética que começou lá naquele meu trabalho jornalístico da década de 1980.

Em O homem que amava os cachorros é recontada uma parte importante da história mundial. Como foi a produção? E a recepção do públi- co de fora de Cuba é muito diferente dos que mora em Cuba?

Escrevê-lo foi um desafio. Levou cinco anos da minha vida, pois o trabalho de pesquisa e de escrita foram muito complexos. Mas eu estou muito satisfeito com o que consegui do livro, tanto em termos de público quanto de crítica. O romance tem sido recebido fora de Cuba de uma maneira diferente do que é recebido em Cuba por duas razões: Ainda que seja uma história universal, é, sobretudo, uma história vista especialmente a partir de uma perspectiva cubana, e isso prova reações mais viscerais nos leitores. E, também, porque, sendo tão cubana, uma parte dessa história (tudo que tem a ver com Trótski e Mercader) era algo desconhecido para os leitores cubanos. Por isso, muitas pessoas que leram o livro me agradecem por tê-lo escrito, pois descobrem coisas de suas origens que não conheciam.