"Aproximação com os EUA vai mudar a sociedade cubana"

13.06.2015

Com a Palavra | Zero Hora
Carlos André Moreira

Nascido e criado na Havana alinhada com a política oficial soviética, o escritor e jornalista cubano Leonardo Padura, 60 anos, teve a curiosidade despertada por uma ausência. Na Cuba de sua juventude, uma névoa de silêncio borrava a figura do revolucionário russo Leon Trotsky (1879 – 1940), caído em desgraça e perseguido pelo ex-companheiro Joseph Stálin. Décadas mais tarde, Padura fez de Trotsky o personagem central de seu romance de maior sucesso,  O homem que amava os cachorros, publicado no Brasil pela Boitempo. A obra acompanha as trajetórias paralelas de Trotsky e do espanhol Ramón Mercader, o homem que viria a matá-lo a serviço de Stálin, em 1940, no México.

Padura foi agraciado na última semana com o Prêmio Princesa de Astúrias, reconhecimento artístico mais importante da Espanha. Na justificativa, o júri argumentou que “sua obra é uma aventura grandiosa do diálogo e da liberdade”. O escritor estará em breve no Brasil. Ao lado de Frei Betto, Padura participa de um encontro com leitores na 31ª Feira do Livro de Canoas, no dia 26 de junho, às 20h30min, no Teatro Sesc Canoas (Rua Guilherme Schell, 5.340), e também está confirmado na programação da Flip, em Paraty, no dia 5 de julho. Por telefone, de Havana, Padura falou sobre sua ficção e sobre as perspectivas para Cuba depois da recente reaproximação com os Estados Unidos.

O senhor é publicado no Brasil há anos, mas alcançou grande ressonância com O homem que amava os cachorros, lançado no país em 2013. Até então, o senhor era conhecido basicamente como autor policial. A que o senhor atribui essa repercussão?

Tenho um velho amigo, um editor italiano, que me disse que o mercado do livro é o mais misterioso de todos. Que nunca se pode fazer uma previsão do que vai ocorrer com um livro. Às vezes, se fazem apostas de que um livro vai funcionar muito bem e, no final, não acontece nada. Creio que com este romance, O homem que amava os cachorros, talvez o que ocorreu foi que o assunto de que trata, a história do assassinato de Trotsky desde uma perspectiva cubana, e a forma como está escrito, que, sem ser uma novela policial, tem uma estrutura que permite que o livro seja lido assim em alguns momentos, foram dois elementos que se combinaram para que o livro funcionasse muito bem nos países em que vem sendo publicado. Penso que é um romance que, apesar de tratar de problemas muito sérios da História do século 20, pode ser lido sem maiores dificuldades. Um jornalista espanhol me disse, há poucos dias, que as dificuldades do livro devem ter ocorrido durante a escrita, e que com essas dificuldades resolvidas, não há dificuldades para o leitor.

O senhor crê que Trotsky ainda fascine os leitores por ser uma figura arquetípica de um rebelde dentro da própria revolução?

Acho que sim. Há vários elementos em sua personalidade que criaram essa fascinação. Primeiro, acho que o mais importante de tudo é que Trotsky foi o derrotado, ou aparentemente derrotado, na confrontação com Stálin. E as pessoas têm um pouco de solidariedade com os que perdem. Mas neste caso era muito fácil ter solidariedade com o perdedor, porque há muitos que não têm nenhuma simpatia pelo vencedor daquele momento, Stálin. Como Trotsky foi também, de alguma maneira, quem encarnou a luta contra o stalinismo, foi o primeiro a denunciar a essência do regime soviético, com repercussão internacional. E isso também é um elemento importante. Creio que Trotsky de fato foi, até o dia de sua morte, um rebelde, um revolucionário, o que também explica por que seu personagem continuou fascinando por tantos anos.

E como o senhor chegou a esse tema?

Eu me interessei em escrever esse romance há relativamente pouco tempo. Minha curiosidade a respeito de Trotsky vem de muitos anos, mas não pensava que ia escrever um livro sobre ele. Meu interesse por Trotsky tinha a ver, acima de tudo, com o grande desconhecimento que tínhamos em Cuba sobre sua figura, sua história, sobre qual havia sido seu destino. Em Cuba, se aplicou, com respeito a Trotsky, uma política semelhante à que existia na União Soviética: não se falava dele, não se publicava nada dele, não se conhecia sua obra nem sua personalidade. E desde a época em que era estudante universitário, nos anos 1970, comecei a sentir a curiosidade por saber quem era esse homem tão terrível de quem não se podia saber nada. No final dos anos 1980, mais especificamente em 1989, estive no México pela primeira vez e pedi a um amigo que me levasse para visitar a casa de Trotsky em Coyoacán. Nesse lugar, senti uma comoção muito forte. Aquela casa parece quase uma prisão em que Trotsky se autoencerrou, e mesmo ali o braço de Stálin o alcançou, para assassiná-lo em um momento em que Trotsky não tinha nenhum poder real, era um homem que estava completamente só, praticamente sem seguidores. Foi o desconhecimento inicial de sua figura que me despertou o desejo de saber mais sobre sua história – e, mais tarde, o interesse em escrever um romance com ele como personagem.

Seu romance aborda um personagem que, como o senhor mesmo comentou, foi silenciado por muitos anos em Cuba. O senhor conseguiu publicar o livro sem problemas? Houve algum processo oficial de censura?

Em Cuba, as editoras que publicam livros, bem como os meios de comunicação, a imprensa e a televisão, pertencem ao Estado. E se veicula o que os diferentes diretores dessas editoras, desses periódicos, podem publicar, de acordo com a política oficial. A política oficial, entretanto, ainda que mantenha alguns setores em que há zonas de silêncio e restrição, vem abrindo muito mais o panorama do que se pode dizer, do que se pode publicar. E meu romance, ou meus romances, em geral, todos foram publicados em Cuba sem que se mude neles nenhuma palavra. A partir de 1997, venho publicando as primeiras edições em língua espanhola de meus livros na Espanha, em uma editora de Barcelona chamada Tusquets. E logo depois, por uma permissão especial da editora espanhola, republicamos a edição aqui em Cuba, porque seria impossível importar esse livro para Cuba, porque não haveria como vendê-lo. Na Espanha, um romance como O homem que amava os cachorros custa 22 euros, e esse é o salário mensal de muitas pessoas em Cuba. Então é preciso fazer edições cubanas baratas. Esse romance foi reimpresso aqui em Cuba, fez já duas edições, de poucos exemplares, três ou quatro mil exemplares, que é insuficiente para a demanda que têm meus livros no mercado cubano. Mas, para mim, o importante é que seja publicado em Cuba, o romance até recebeu um prêmio por aqui. E isso evita que o livro venha a ser algo misterioso, a que as pessoas venham a ter acesso por caminhos muito complicados.

Ou seja, nos próprios anos 1970, em que se passa boa parte de sua história, esse romance não teria sido publicado em Cuba.

Não, não, eu diria que nos anos 1970 seria impossível que a mim ocorresse escrever esse romance ou algo parecido. Com as condições mentais que atravessavam os escritores cubanos naquele momento, era impossível que lhes ocorresse, vivendo em Cuba, algo semelhante.

O senhor ainda vive em Cuba. Como tem acompanhado essa aproximação histórica que se anunciou, pela primeira vez em décadas, da ilha com os Estados Unidos, sinalizando que os dois governos, se não vão se tornar aliados de uma hora para outra, já admitem a possibilidade de dialogar?

O que ocorreu é que foram anunciadas as conversações para restabelecer as relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. E é um processo que já começou. Do embargo, contudo, ainda não se falou, porque ele é mantido por uma lei do Congresso norte-americano e, portanto, seria o Congresso que teria de revogá-la. Mas seria muito importante o restabelecimento da relação diplomática entre os dois países. Creio que é fundamental tudo o que de alguma forma ajude a diminuir a tensão entre Cuba e os Estados Unidos, para que seja mais fácil que os cubanos que vivem na ilha e os que vivem nos EUA possam restabelecer suas relações, visitar-se, os americanos viajarem a Cuba, intercâmbios culturais, desportivos. Hoje mesmo (no último dia 2) está ocorrendo algo histórico: o clube de futebol Cosmos, de Nova York, está jogando uma partida amistosa aqui em Havana. E entre as personalidades que vieram está ninguém menos que Pelé, que é presidente honorário do clube. Quer dizer: todas essas coisas que estão ocorrendo são benéficas para Cuba e para os Estados Unidos também. Esperamos que as relações se restabeleçam o mais cedo possível. E que em algum momento, no futuro, se chegue ao fim do embargo.

Essa mudança pode afetar a política socialista adotada em Cuba?

Por agora, parece que não, que politicamente vai se manter a mesma estrutura, que as mudanças vão ser fundamentalmente, de alguma forma, no nível econômico e, em muitos sentidos, no nível social. Uma aproximação com os Estados Unidos vai produzir mudanças na sociedade cubana, ainda que politicamente se vá manter a mesma estrutura.

O senhor aborda o preconceito do regime castrista contra os homossexuais na figura do irmão do protagonista de O homem que amava os cachorros. Como está a situação dos homossexuais hoje no país?

Na parte da marginalização ou repressão aos homossexuais, isso mudou radicalmente. No nível familiar, na família dos indivíduos, pode ainda haver atitudes que rechacem o homossexual, mas no nível social ocorreu o que houve em boa parte do mundo ocidental: foi preciso aceitar e assimilar a presença dos homossexuais na sociedade cubana e reconhecer seus direitos. Em Cuba, há todo um movimento de defesa LGBT. Inclusive, como resultado de todo esse conflito, há uma grande quantidade de material artístico, de literatura, de cinema, que tem como protagonistas homossexuais que estão de alguma maneira em conflito com a sociedade, mas que fazem uma reflexão sobre esse conflito. Nesse sentido, a sociedade cubana mudou bastante.

O governo do Brasil vem enfrentando pesadas críticas por seu envolvimento em projetos com o governo cubano, como o investimento no porto de Mariel. Para os cubanos, o que significa essa parceria com o Brasil?

Penso que tem sido muito importante para Cuba ter uma relação econômica com Brasil que pode crescer nos próximos anos, independentemente do governo. Creio que os empresários brasileiros estão interessados em investir em Cuba e que o problema fundamental para que isso ainda não tenha acontecido seja o embargo. Mas se o embargo desaparecer, ou se flexibilizar, muitos empresários brasileiros se interessarão em investir em Cuba. Há projetos que têm a ver com a relação entre os governos, como no caso de Mariel, em que houve um financiamento importante por parte do Brasil (via BNDES). Essa é uma obra que para o país será muito importante, por acelerar o desenvolvimento da economia local. Economicamente, o grande problema de Cuba é que não funciona a estrutura existente, e por esse motivo estão sendo feitas mudanças na estrutura e no pensamento econômico do país.

Há dois anos, o senhor publicou, na Folha de S. Paulo, um artigo no qual comentava que, em breve, Cuba não conseguiria manter o Estado de bem-estar social pleno. De lá para cá, algo mudou nesse quadro?

Creio que mais ou menos é a mesma realidade econômica que encontramos agora. Estão sendo feitas mudanças tratando de que economicamente o país funcione melhor, que haja mais controle econômico para evitar a corrupção administrativa, mas no fim é muito complicado fazer funcionar um sistema econômico sem uma mudança estrutural. E essa mudança não foi feita. Não sabemos se o governo cubano tem intenção de fazer mudanças profundas na estrutura econômica. Tudo parece indicar que não. O que deve acontecer é que esses problemas devem se acentuar.

O senhor falou da corrupção administrativa, que é, de fato, um problema crônico dos países na faixa do antigo Terceiro Mundo, termo que o senhor usou naquele artigo. O senhor é otimista com relação a uma mudança no futuro?

Tudo depende de como funciona uma economia e o controle que o Estado será capaz de ter sobre os comportamentos que não são os legais quanto ao manejo da economia. Oxalá, em um mundo perfeito, pudéssemos viver sem corrupção. A corrupção leva uma quantidade enorme de dinheiro que poderia ajudar as pessoas a viver melhor.

A cubana Yoani Sánchez se tornou uma voz internacionalmente conhecida denunciando o caráter ditatorial do governo cubano. Ao mesmo tempo, ela é atacada pelos defensores do regime. Como o senhor se alinha politicamente nesse debate? Qual sua visão política sobre Cuba?

Eu trato de que a política não influa em minha posição como escritor e como pessoa. E lutei muito para que a política não se converta em um tema da minha literatura. E é algo que eu prefiro não discutir, porque necessita de muitos matizes. Eu escrevi um longo artigo sobre essa relação dos escritores cubanos com a política, no qual digo que gostaria de ser como o escritor norte-americano Paul Auster, que, quando é entrevistado, só perguntam a ele a respeito das coisas que ele gosta de falar: beisebol, literatura e cinema. E eu gostaria de ser como ele, que me perguntassem sobre beisebol, literatura e cinema, e não sobre política.

Para que time de beisebol o senhor torce?

Para o time aqui da capital, Havana, que se chama Industriales, que é o herdeiro de uma velha equipe da Liga Profissional Cubana que se chamava Almendares (que durou até 1961, quando a liga profissional foi extinta depois da vitória de Fidel Castro e substituída por um novo sistema de esporte amador). Usam a cor azul, e meu pai era torcedor fanático do Almendares. E eu, toda minha vida, tenho sido torcedor do Industriales.

E qual o último filme que o senhor viu que o impressionou?

Eu vejo muitos filmes, e ultimamente o cinema me satisfaz pouco. Gosto mais de algumas séries de televisão que se estão fazendo com muita qualidade. Dos últimos filmes que vi, um de que gostei muito foi Birdman, de Alejandro Gonzáles Iñárritu, que ganhou o Oscar. Acho que é um grande filme.