Cidade pra quem? Entrevista com Ivana Jinkings, fundadora da Boitempo

17.06.2015

Carta Maior
da Redação

O presente e o futuro das cidades como palco de disputas políticas, ideológicas e sociais esteve no centro dos debates na capital paulista, na semana que passou. A Boitempo Editorial e o Sesc São Paulo realizaram entre 9 e 12 de junho o Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, que foi assistido por cerca de 17 mil pessoas presencialmente e pela transmissão online gratuita.

O evento reuniu mais de 40 conferencistas – entre eles David Harvey, Domenico Losurdo, Moishe Postone, Ermínia Maricato, Jean Wyllys, Raquel Rolnik, Marcio Pochmann, Maria Rita Kehl, Guilherme Boulos, Ferréz e Fernando Haddad – para discutir o presente e o futuro das cidades como palco de disputas políticas, ideológicas e sociais.

Estudos apontam que cerca de metade da população mundial habita cidades e, no entanto, o boom de urbanização não tem se traduzido em maior qualidade de vida para a população; pelo contrário, a vida nas cidades está cada vez mais difícil. Foi nesse contexto que pensadores e ativistas exploraram alternativas, discutiram questões como os efeitos do neoliberalismo nas cidades, as insurgências urbanas na história, a urbanização militarizada, os megaeventos esportivos, desenvolvimento urbano e meio ambiente, a mobilidade e as novas configurações das lutas de classe.

Nesta entrevista à Carta Maior, Ivana Jinkings, fundadora da Boitempo e uma das organizadoras do evento, faz um balanço desses dias e do que permanece de reflexão em relação às cidades, à questão urbana e seu papel nas transformações sociais.

A Boitempo organiza com frequência seminários, debates e cursos de porte com grande adesão dos leitores, algo pouco comum no meio editorial. Qual a razão e a importância desses eventos em sua trajetória?
A Boitempo é uma editora comprometida não apenas com a qualidade dos textos que publica, mas também com o desenvolvimento da cultura e do pensamento crítico. Acredito que os eventos que organizamos cumprem papel importante na formação de uma consciência crítica, ao propiciar o debate de ideias.

Trouxemos ao Brasil obras inéditas de autores como István Meszáros, cujo notável Para além do capital marcou o centésimo título lançado pela editora, Slavoj %u07Di%u07Eek, David Harvey, Perry Anderson, Ellen Wood, Michael Löwy, Daniel Bensaid, Leonardo Padura, Fredric Jameson, Edward Said, Susan George, Terry Eagleton, Giorgio Agamben, Wendy Goldman, Franco Moretti, Gérard Duménil, Mike Davis, François Chesnais, Domenico Losurdo, Tariq Ali, muitos dos quais vieram ao país para o lançamento dos seus livros, permitindo assim a ampliação do debate local. Também promovemos em cidades as mais variadas encontros com intelectuais brasileiros como Francisco de Oliveira, Ricardo Antunes, Maria Rita Kehl, Ruy Braga, Alysson Mascaro, Ermínia Maricato, Christian Dunker, Luiz Bernardo Pericás, Raquel Rolnik, Emir Sader, Paulo Arantes, Marilena Chaui, Antonio Carlos Mazzeo, Roberto Schwarz, Vladimir Safatle, Carlos Nelson Coutinho, Jacob Gorender e Leandro Konder, entre muitos outros.

Em 2004, organizamos o seminário Reflexões sobre o Colapso, na USP. Um ano depois foi a vez de As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: a Obra Indisciplinada de Michael Löwy, alcançando seis cidades brasileiras; em 2009, promovemos o colóquio István Mészáros e os Desafios do Tempo Histórico em oito universidades do país; em 2011, numa parceria com o Sesc e o ITS Brasil, organizamos o projeto Revoluções – cursos, filmes, conferências presenciais e videoconferências –, reunindo %u07Di%u07Eek, Alexander Kluge, Eduardo Gruner, Michael Löwy, Marilena Chauí, Olgária Matos, Bernard Stiegler, Costas Douzinas. Em 2013, Marx, a Criação Destruidora contou com a participação de Harvey, %u07Di%u07Eek, Michael Heinrich, Chico de Oliveira, José Paulo Netto, Virgínia Fontes, Jorge Grespan, Roberto Schwarz, Antonio Rago, Marcio Pochmann e mais pensadores essenciais à compreensão de nosso tempo.

E agora este Seminário Internacional Cidades Rebeldes – nome inspirado na coletânea por nós publicada em 2013 –, que reuniu 45 participantes, entre alguns já citados e outros novos na casa, como Moishe Postone, Guilherme Boulos, Jean Wyllys, Jessé Souza, Tales Ab’Sáber, Guilherme Wisnik. Concretiza-se no ano em que a Boitempo completa duas décadas de uma trajetória em que a seriedade no tratamento da cultura e do livro são a mais fiel tradução da sua existência.

O que motivou a escolha do tema e a forma como foi abordado? O formato seminário buscou contemplar um público específico?
Nossa ideia era promover discussões em torno das cidades e seu papel nas dinâmicas de transformações sociais no mundo. Abordar as metrópoles como palco de conflitos e enfrentar, por meio de visões e enfoques diversos, o desenvolvimento insustentável, os efeitos do neoliberalismo, a urbanização militarizada, a especulação imobiliária. Entender o significado das rebeliões nas ruas e as novas configurações das lutas de classes. Cientes de que a desigualdade é o motor maior da segregação urbana, propusemos aos conferencistas um esforço coletivo em busca de formas, soluções, modelos de organização do espaço público – sejam eles realizáveis ou “utópicos”.

Nossos leitores estão principalmente nas universidades, mas empenhamos esforços em fazer o Cidades Rebeldes em um espaço que tornasse o evento acessível também a outros públicos, para além dos muros da academia.

Nesse sentido, a maioria dos autores estrangeiros que trouxemos ao Brasil já foi levada à Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST; na vinda anterior de Harvey ao Brasil – meses atrás – convidamos um representante do MPL para o debate que ocorreu no Centro Cultural São Paulo e no ano passado Harvey esteve também no Ocupe Estelita, em Recife.
Quanto ao formato, apostamos desta vez numa ação concentrada: foram quatro dias intensos, com aulas introdutórias à obra de David Harvey (por Erminia Maricato, Leda Paulani, Marcio Pochmann, Mariana Fix e Raquel Rolnik) pela manhã e três mesas de debates e conferências das 14 às 22 horas.

A parceria com o Sesc tem a ver com a escolha do local?
Sim, mas não apenas. Temos duas coedições e uma longa parceria com o Sesc, que tem à frente um homem aberto como Danilo Santos de Miranda e uma eficiência rara na produção de eventos (basta ver a excelência com que as mesas foram gravadas, transmitidas, traduzidas). Nenhuma universidade paulistana possui um auditório com capacidade para mais de mil pessoas, como o Teatro Paulo Autran, e há reduzidos equipamentos públicos com essa abrangência. Além do mais, a unidade Pinheiros fica do lado de uma estação de metrô e com o apoio do Sesc pudemos contar com transmissão online de qualidade (bastante cara) e todos os vídeos, inclusive os do curso, serão disponibilizados gratuitamente na internet.

O evento contou com convidados de opiniões bastante diversas. Como foi o processo de escolha dos debatedores? O que se buscou contemplar?
Escolhemos os participantes entre personalidades públicas, acadêmicos, representantes de movimentos sociais, escritores, jornalistas, artistas. Buscamos propiciar a troca de ideias, o pluralismo, aproximando debatedores de áreas diversas (urbanistas com escritores, sociólogos com psicanalistas, engenheiros com geógrafos), que pensam sobre os mesmos temas sob perspectivas variadas e que, no mais das vezes, não interagem, dada a especialização e “departamentalização” dos espaços de pensamento entre nós. A partir principalmente dos mais identificados com nosso catálogo (claro!), mas bastante além dele.

Essa é, aliás, uma preocupação que permeia também nossas publicações, que remam contra o empobrecimento do debate, a partir do qual acreditamos ser possível crescer, amadurecer, formar opinião. Tivemos pela primeira vez mesas coordenadas por jornalistas – de autores de livros e/ou textos de capa da editora, como Flávio Aguiar, Leonardo Sakamoto e Sergio Amadeu, a parceiros em outras empreitadas e profissionais da imprensa cujo trabalho respeitamos –, que deram ao evento uma dinâmica mais ágil e, algumas vezes, até divertida.

Foi difícil conciliar as agendas e opiniões de tantos participantes e apoiadores?
Não exatamente, a programação final foi resultado de um saudável consenso. Mesmo quando, num caso ou outro, houve discordância quanto a um tema ou convidado foi respeitada a opinião da maioria. Assim se constroem projetos coletivos, ninguém tem o monopólio do que é ou deixa de ser de esquerda, de quem pode ou não falar sobre este ou aquele tema. Qualquer tentativa de impor o silêncio seria inaceitável e abriria um enorme e perigoso precedente nas esquerdas.

Os ingressos à disposição na internet e no Sesc acabaram em poucas horas após a abertura das vendas. Como a editora sentiu a recepção do público ao evento?
Sabíamos que haveria um amplo público interessado nos debates, mas fomos, de fato, surpreendidos pela rapidez com que os ingressos se esgotaram. É prova cabal da atualidade e pertinência da questão urbana como ferramenta de estudo e transformação da realidade – e de Harvey como referência inescapável para pensar as crises do capitalismo e projetos de transformação. 

Além do mais, o valor cobrado era praticamente simbólico – os eventos da Boitempo são, via de regra, gratuitos. No caso deste, especificamente, estabelecer um valor era pré-requisito do parceiro. Respeitamos isso e procuramos estabelecer preços bastante acessíveis para os quatro dias de evento. O Sesc usou o valor arrecado na bilheteria para cobrir parte dos gastos com a transmissão online (uma forma de democratizar o acesso aos debates) e cerca de 2/3 dos ingressos foram vendidos na condição de meia entrada: cada mesa do seminário custava R$ 2,80, o curso completo, R$ 25,00 pelos quatro dias, incluindo apostila, bloco de notas, sacola e caneta, num total de R$ 6,25 cada aula. A maioria das pessoas demonstrou interesse, o teatro esteve cheio durante os quatro dias.

Você acha que o público leitor carece de eventos organizados como este?
Acho sim. Muitas pessoas vieram de lugares como Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro e várias cidades do estado de São Paulo especialmente para o evento. Sabemos de outras iniciativas sobre o tema e esperamos que muitas mais sejam organizadas, pois, como se viu, as pessoas estão buscando entender o que está acontecendo aqui e no mundo, querem discutir, formar grupos.

Qual o balanço desses quatro dias de encontros? As expectativas foram alcançadas? Quais foram os destaques e o que poderia ter sido diferente?
Plenamente. Mais de 17 mil pessoas acompanharam o nosso seminário, com uma repercussão inédita inclusive na história do Sesc. Muita gente de várias partes do país se conheceu ou se encontrou durante o seminário, formaram-se grupos de discussão, os debatedores adoraram a experiência. Temos de ocupar todos os espaços, nos eventos de periferia, de movimentos sociais (nossas redes sociais estão à disposição para divulgá-los), nos organizados em universidades e em iniciativas como essa nossa, que não tem a pretensão de ser a melhor, a mais importante e menos ainda a única. Não fizemos ainda um balanço final, pois o trabalho foi intenso e agora temos livros para editar e mais eventos em gestação. Em breve teremos uma reunião de avaliação e levaremos em conta propostas e sugestões construtivas.

Você acha que este tipo de seminário pode ajudar na luta efetiva por mais justiça social?
Sim, tomamos a divulgação do pensamento crítico como parte importante da nossa atuação. Vivemos tempos difíceis, mas continuamos acreditando e apostando na possibilidade de mudar o mundo. Como dito na apresentação da apostila que distribuímos no curso, o direito à cidade se confunde com o direito à vida. Implica romper com a cultura da indiferença para construir um novo espaço urbano, mais igualitário e emergencialmente humanizado. Inspira-nos uma concepção de cidade produzida como obra humana coletiva, na qual os indivíduos sejam os protagonistas desse processo de transformação. Nossa cidade ideal é uma cidade socialista, na qual moradia, transporte, saúde e saneamento não sejam um negócio. Uma cidade de e para todos!