O cubano que amava as letras

29.06.2015

Diário de Canoas
Jeison Silva

Mais uma tarde cheia de palavras para o escritor cubano Leonardo Padura, 59. Depois de atender à reportagem do DC, entrevistas no hall do hotel com periodistas dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo – para citar alguns. O 2015 dele tem sido todo assim. Desde janeiro, viagens para Portugal, EUA, Grécia e Itália. Venceu um importante prêmio internacional, o Princesa das Astúrias (Espanha). Há duas semanas no Brasil, o jornalista e professor de Literatura Latino-Americana é a principal atração da Feira do Livro de Canoas nesta sexta-feira. Ele autografa na noite desta sexta-feira, na Praça da Bandeira, a partir das 21h30, o livro O homem que amava os cachorros.

O romance de fôlego tem 600 páginas e já foi traduzido em 21 línguas. É um dos 19 já publicados na carreira. A narrativa do maior sucesso dele mescla história e ficção, destrinchando os passos do revolucionário russo Leon Trótski e do assassino dele Ramón Mercader. Padura ainda estenderá um pouco mais a passagem dele pelo nosso país, pois participará da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho. Prepara-se ainda para lançar aqui Hereges, em setembro. Segundo ele, três novelas em uma, sobre a liberdade dos indivíduos.

Quem espera um intelectual cheio de cerimônias, está enganado. O primeiro contato de Padura com a reportagem é despreocupado, em frente ao hotel em que está hospedado - ao lado do Canoas Shopping. Abre um largo sorriso. Fuma seu cigarrinho tranquilamente e, em seguida, passeia por autores, pensamentos célebres, técnicas de escrita, rotina de trabalho e liberdade de pensamento na Havana de Fidel Castro. Não demonstra receio algum com a temida Era Digital e o suposto risco aos livros em papel. Para defender o ponto de vista, cita até o francês Gustave Flaubert (autor de Madame Bovary): “Flaubert dizia que a literatura deve chegar à alma das coisas. A forma como os escritores vão fazê-lo não é importante, o importante é chegar à alma.”

Como dar conta de um livro que tem 600 páginas?
O homem que amava os cachorross foi lançado em 2009, na Espanha. Foram cinco anos de trabalho. Os dois primeiros, só de investigação. Depois ia pesquisando e escrevendo. A motivação foi uma viagem, nos Anos 1980, ao México, à Casa de Leon Trótski. Fiquei impressionado e isso começou tudo. Sempre tive curiosidade como esse personagem era apontado como o inimigo da classe trabalhadora e até pouco conhecido. Quando soube que o assassino dele, Ramón Mercader, viveu em Cuba de 1974 a 1978 passei a me interessar ainda mais. Queria um livro que tivesse origem no meu país, um personagem que transmitisse a história sob essa perspectiva.

Quem são os mestres de Padura?
São muitos mestres, muitos escritores. Alguns pela linguagem, outros pela forma de contar e ainda os que influenciam pelas estruturas que constroem. Cito Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, J. D. Salinger, Julio Cortázar, Rubem Fonseca, Ernest Hemigway, entre outros. Meus 15 anos de jornalista também ajudaram em meu desenvolvimento. Escrevia longas reportagens para a edição de domingo. Nunca conheci meus ídolos. Sallinger dizia que é melhor ler um escritor que conhecê-lo.

Você se considera um escritor tardio...
Comecei a escrever já na universidade. Quem identificou em meus textos lago que poderia render frutos foi minha esposa Lucia, companheira desde 1978. Ela é a mais difícil de convencer. Ela faz críticas de todo o tipo é bem direta sobre se algo funciona ou não na trama. Quando comecei escrevia relatos curtos. Fui aprendendo que uma novela requer um tempo que o escritor não sabe o quanto vai ser, se dias ou cinco anos.

A internet afetará a relação com o leitor tradicional?
Está sendo produzidas mudanças culturais importantes nessa era digital. Temos uma comunicação rápida e imediata, que afeta a forma de ler textos. O escritor de novelas deve tratar de conservar a essência do que sempre foi o trabalho da escrita. A grande literatura sempre sera grande, como Dom Quixote.

Você escreve todo o dia?
Todos os dias de domingo a domingo. Levanto cedo, às 7h30. Escrevo por cinco horas, todos os dias. À tarde, leio um pouco sobre o que escrevo. Hemigway dizia que escritor é como um poço que se tira àgua. Não se pode tirar toda a àgua em um único dia. Tem que deixar àgua no fundo, para ela voltar a subir mais intensa. Escrever é dificil. Escrever bem é extremamente dificil. A vida real alimenta o escritor, mas a realidade tem uma dramaturgia própria. A realidade tem um espaço infinito, um texto precisa traduzi-la.

É difícil ser escritor em Cuba?
Condições sociais influem o trabalho de qualquer escritor. Um cubano que vive e publica textos não pode viver desse trabalho apenas. Precisa fazer outros trabalhos. Em Cuba, há condições sociais políticas específicas que pesam sobre os limites de um escritor. Estamos sempre em uma luta para romper esses limites. Não pode haver socialismo sem liberdade, é o que penso sobre Stalin.

Qual o futuro político de Cuba?
Cuba esta em um processo. Ainda não há resultados finais. O governo de Raul Castro fez algumas reformas econômicas pequenas. O país segue com a mesma estrutura, basicamente. O elemento novo são as conversações com os EUA. Depois disso, Cuba virou um lugar como Meca. Todos agora vão peregrinar. Não somos uma potência econômica. Cuba pode ser uma ponte entre a América Latina e a África. Uma nova utopia tem que ser criada.

Gostou de Canoas?
Mesmo com agenda na Flip, defendi muito vir. Meu amigo Frei Betto disse que eu não poderia deixar de vir. Achei muito bonita.

Confira aqui trecho da entrevista!