Leonardo Padura prepara novo romance enquanto cuida da adaptação de suas histórias para o cinema e a TV

27.06.2015

Cultura | O Globo
Flavio Ilha

Autor do best-seller O homem que amava os cachorros (editora Boitempo), o cubano Leonardo Padura terá seus quatro primeiros romances protagonizados pelo investigador Mario Conde levados ao cinema e à TV em 2016. De passagem pelo Rio Grande do Sul, aonde chegou anteontem para participar da Feira do Livro de Canoas, e às vésperas de seguir para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa na próxima quarta-feira, Padura conta que as adaptações estão sendo escritas por ele e por sua mulher, Lucia Lopez Coll. As filmagens serão em Havana, com direção do espanhol Félix Viscarret.

A produção está a cargo da Tornasol Films, responsável por “O segredo de seus olhos”, do argentino Juan José Campanella, que levou o Oscar de filme estrangeiro em 2010. Trata-se de um longa para o cinema e de quatro telefilmes, que terão como base os livros “Passado perfeito” (1991), “Ventos da quaresma” (1994), “Máscaras” (1997) e “Paisagem de outono” (1998).

O autor também confirmou que está negociando a cessão de direitos para o cinema de “O homem que amava os cachorros”. A produção, que deve começar a ser rodada dentro de um ano, será francesa e norte-americana. Desse roteiro, entretanto, ele não tomará parte.

— É uma história difícil de se contar — diz, em tom de piada, referindo-se ao livro que narra o fim de Leon Trotski e que lhe consumiu cinco anos de trabalho.

As adaptações aproveitam o “boom” em torno de Padura, vencedor do prêmio Princesa das Astúrias no início do mês pelo conjunto de sua obra. O autor reclama, porém, que a notoriedade alcançada sobretudo após “O homem...” tem deixado pouco tempo para escrever — ele anda viajando bastante para promover seus livros e participar de feiras.

— Elaborar roteiros é um trabalho criativo também, mas com uma estrutura diferente. A literatura é solitária. O filme não. Necessita do diálogo com diretores e produtores. E, na Europa e na América Latina, a lista de quem produz nunca baixa de 25 pessoas. Quem tem a última palavra na verdade são eles — brinca.

Padura, que lança em setembro no Brasil o romance “Hereges” (Boitempo), diz também que está começando a escrever um novo livro — os protagonistas são um casal homossexual envolvido num crime a ser investigado pelo detetive Mario Conde. O argumento, ele diz, surgiu de uma conversa com sua mulher sobre um amigo que eles nunca mais haviam visto. A história ficou na cabeça de Padura por três anos até voltar à tona num café:

— Eu estava muito preocupado porque não me vinham ideias para um novo romance, após um ano e meio elaborando roteiros. Ainda que tenha 11 novelas escritas, creio que sou um escritor de pouca imaginação. Mas as ideias, como se vê, surgem de maneiras distintas.

A trama verdadeira, passada em Miami com um famoso dentista que expatriou um jovem cubano por quem se apaixonou e depois foi roubado, será transportada para Cuba, onde o caso poderá ser investigado pelo personagem que garantiu a Padura leitores em todo o mundo. O livro representa uma pausa na produção recente do cubano, marcada por romances que exigiram exaustiva pesquisa histórica e muito tempo de produção. “Hereges”, por exemplo, abrange um período que vai do século XVII aos dias atuais.

Depois de Canoas, Padura segue para Paraty, onde divide a mesa “De frente para o crime”, domingo, dia 5, com Sophie Hannah, inglesa que ressuscitou o detetive Hercule Poirot, criado por Agatha Christie nos anos 1920. Admirador de Rubem Fonseca e do italiano Leonardo Sciascia, o escritor argumenta que crime e violência podem ser uma boa forma de se falar também de problemas sociais:

— Um thriller é um gênero com a mesma dignidade que qualquer outra forma de literatura. Mas isso depende, claro, de o escritor trabalhar seriamente com os elementos da literatura. O que é “Madame Bovary” se não um romance de amor? E “Crime e castigo”? Não é a história de um assassinato? Parece-me claro que o gênero depende do escritor.