Leonardo Padura: entre a política e os livros

25.06.2015

O Globo
Ancelmo Gois

O cubano Leonardo Padura, 59 anos, e o italiano Roberto Saviano, 35 anos, são as duas estrelas da Flip 2015, que começa quarta, em Paraty. Aqui, o autor do sucesso O homem que amava os cachorros (Boitempo Editorial) — livro recomendado por Dilma e FH, por exemplo —, fala do assédio que sofre, muitas vezes, da imprensa para falar de política, e não de literatura.

Como você, como intelectual e escritor, se sente tendo que, a toda hora, responder sobre a situação cubana no exterior, principalmente depois dos gestos de Obama de aproximação com Cuba? Isto o incomoda?

Isso não me incomoda, mas também não me dá nenhum prazer especial. Eu sou um escritor, vivo e observo a realidade cubana e trato de tirar dela o que me inspira, como um escritor... e como jornalista. E aí é onde as coisas se complicam, porque, como jornalista, eu devo ter opiniões sobre minha realidade, minha sociedade e eu gosto de expressá-las. O que acontece é que, às vezes, os jornalistas apenas me perguntam sobre política, esquecem-se ou não se importam que eu seja um escritor. É isso que me incomoda. Eu tenho sido entrevistado por jornalistas e me dado conta de que eles não leram um só dos meus livros! A única coisa que importa para eles é a questão política ou social de Cuba. Agora, depois de 17 de dezembro, as coisas ficaram piores, muito piores, porque todo mundo quer saber o que está acontecendo em Cuba desde então. E mais: querem saber o que vai acontecer no futuro. E eu não sou vidente, não. Por outro lado, há ignorância. Uma jornalista brasileira me perguntou, há alguns dias, como eram as coisas em Cuba agora que não existia o embargo! A pobre não tinha ideia de qualquer coisa: é que não há relações diplomáticas, e o embargo continua sendo uma lei norte-americana. De verdade, é muito estressante falar sempre do mesmo assunto.

Você prefere falar de seus livros, certo?

Claro. Gosto mais de falar dos meus livros, ajudar que eles fiquem conhecido e que, por meio dos livros e das entrevistas, os leitores conheçam algo mais sobre Cuba, coisas do meu país, da gente de lá, da sociedade, de assuntos que não tenham relação com a política. Além disso, o trabalho para promover o livro está cada vez mais importante, uma vez que o mercado está mais exigente, há mais livros e autores.


Em suas viagens sempre foi assim?

Sim. Cuba sempre foi vista por uma perspectiva política, tanto por aqueles que são a favor do sistema, como por aqueles que são contra. Uns e outros me perguntam sempre com base em seus preconceitos: para que eu, como escritor, confirme se Cuba é um paraíso ou um inferno, segundo o que eles pensam. Há muitos anos eu venho falando sobre isso e cada vez mais é menos agradável. Mas, felizmente, de vez em quando, aparece um jornalista que conhece literatura e faz boas perguntas.

Como você responde a quem pede um envolvimento político maior na Ilha?

Respondo com a maior paciência e elegância possíveis. Eu acho que é válido saber sobre a política e a sociedade cubanas, mas, como eu te disse, Cuba é mais do que política e do que os problemas sociais, embora ambos tenham enorme peso na vida de todos os cubanos.