Escritor cubano Leonrdo Padura aposta em humanismo em seus romances

28.06.2015

Jornal Metro
Amanda Queirós

Expoente do gênero policial, escritor cubano Leonardo Padura critica boom de literatura sueca, norueguesa e dinamarquesa e explica aposta em humanismo em seus romances. Prestes a lançar novo livro no país, autor é convidado da Flip, que abre nesta quarta-feira:

Ao lado da britânica Sophie Hannah, você falará na Flip, no domingo, sobre romance policial. Por que esse gênero voltou a fazer sucesso?

Os nórdicos revitalizaram o gênero a partir de um tipo de romance muito mais social do que uma literatura de mistério, criada a partir de um jogo inteligente. Mas há antecedentes disso, como Rubem Fonseca e o italiano Leonardo Sciascia (1921-1989). Posso dizer com honestidade que, salvo dois ou três desses, os demais são bem ruins. O que acontece é que essa literatura foi muito bem promovida, diferentemente do que acontece nos países latinos, onde parece que nenhum de nós consegue ser profetas de nossas próprias terras.

Você roteirizou o filme ‘Retorno à Ítaca’. O diretor, Laurent Cantet, elogiou o humanismo de sua literatura. O que o torna humanista?

É antes uma maneira de entender a vida que depois se leva à literatura. Trato de ter uma vida o mais normal possível. A educação que meus pais me deram tinha a ver com uma ética de comportamento voltada ao ser humano. Às vezes me incomoda muito que algumas pessoas me ataquem quando sou alguém que jamais atacou ninguém e tento fazer meu trabalho da melhor maneira possível. Pude trabalhar em harmonia quase perfeita com Cantet porque também acho que ele é um homem de grande humanismo.

O homem que amava os cachorros e Hereges (que sai em setembro também pela Boitempo) são romances históricos. De onde vem seu interesse por esse tipo de pesquisa?

Minha formação como jornalista me ajudou muito na hora de poder realizar esse trabalho, que foi muito intenso – especialmente em “O Homem que Amava Cachorros”, no qual tive que lidar com uma grande quantidade de informações recentes.

Os romances históricos são uma chance de fazê-lo refletir sobre o presente?

Sim, eles servem para isso. Em “La Novela de mi Vida”, que não foi publicado no Brasil, volto ao início dos séculos 19 e 20. É como se olhasse para um espelho e se esclarecessem algumas coisas permanentes e cíclicas na vida e na história cubana. Isso é importante, porque não podemos entender o presente ou crer que estamos vivendo algo novo sem perspectiva histórica.

Como você faz para não ser aprisionado pelo que é real e ater-se à ficção?

Isso é muito complicado. Primeiro faço uma grande investigação e a converto em uma cronologia. Em “O Homem que Amava Cachorros”, foram 800 páginas dela. Eram informações que me interessavam, comentadas por mim ou por historiadores. Na primeira versão, estava muito apegado à história. Era como uma coluna vertebral. A partir daí, reescrevi com muita mais liberdade. A ficção desempenha um papel importante porque tem mais a ver com a forma de pensar dos personagens do que com a forma como ela está descrita na história. Temos que contá-las por meio da ficção.