“A literatura cria a memória do futuro”, diz Padura na Flip

06.07.2015

Vida | Revista Época
Cristina Grillo

O escritor cubano Leonardo Padura, autor de O homem que amava cachorros, vem reclamando nos últimos meses que seus entrevistadores se interessam mais pela situação de seu país do que por sua literatura. Charme de artista. Não só ele sabe que as duas coisas estão intimamente ligadas como, em sua participação na Flip no inicio da tarde de domingo (5), ele próprio ressaltou essa ligação. “A literatura tem a função de criar no presente a memória do futuro e preservar a do passado”, disse. Dessa forma, explicou, Mario Conde, o detetive que criou e que está presente em oito de seus romances, só pode existir se instalado dentro do contexto social onde vive.

Em O homem que amava cachorros, seu romance de maior sucesso no Brasil, Padura usa uma pesquisa histórica de peso e um enorme talento como escritor para reconstituir o assassinato de León Trótski por Ramon Mercader, em 1940 no México. Na mesa da Flip que dividiu com a inglesa Sophie Hannah, o cubano contou ter ficado surpreso com a quantidade de vezes que foi parado nas ruas de Paraty por pessoas que o cumprimentavam e se apresentavam como ex-trotskistas.

Ao responder a uma pergunta do mediador da mesa, o jornalista João Gabriel de Lima, se fizera um livro para que as pessoas simpatizassem com Trótski, disse considerar seu livro mais anti-stalinista do que pró-trotskista. “Naquele momento histórico (em que Trótski foi assassinado) o vencedor é Stalin, mas a história tem o hábito de mudar as visões do mundo. Hoje é difícil encontrar alguém que se diga stalinista”, disse. Padura fez a plateia rir ao contar que um amigo lhe disse que, depois de ler o livro, o ex-presidente Lula teria dito que tinha se tornado trotskista de tanto que gostara do personagem no romance.

Sophie Hannah, autora de romances policiais como Vítima perfeita, contou sobre sua experiência de escrever um livro onde o personagem principal é Hercule Poirot, o detetive belga “assassinado" por sua criadora, Agatha Christie, depois de uma longa vida que durou cerca de 40 romances.  Hannah, que costuma ser descrita como a autora que “ressuscitou" Poirot, disse que não ousaria desfazer qualquer decisão literária de Christie, mas aproveitou uma brecha de tempo deixada pela criadora do detetive belga —um período em que Poirot “desaparece” de sua obra— para situar Os crimes do monograma.

Hannah contou que, sem consultá-la, seu agente sugeriu ao editor inglês responsável pela obra de Agatha Christie a volta de Poirot. Surpreendentemente, para ela, os herdeiros da romancista aceitaram a ideia. “Quando soube o que ele tinha feito, morri de vergonha. Foi como se tivesse ligado para o Tom Cruise e perguntado se ele queria casar comigo”, disse. O casamento saiu. Se foram felizes para sempre, ainda é cedo para saber.