Leonardo Padura brilha em mesa sobre romance policial e fala sobre como é fazer literatura em Cuba

05.07.2015

Cultura | O Globo
Leonardo Cazes

Na segunda mesa do último dia da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2015, o carismático autor cubano Leonardo Padura brilhou na mesa “De frente para o crime”, que contou também com a escritora inglesa Sophie Hannah e teve mediação do jornalista João Gabriel de Lima. Padura falou sobre o detetive Mario Conde, protagonista de seus romances policiais, sobre sua obra mais famosa no Brasil, O homem que amava os cachorros (Boitempo) – em que narra a saga de Leon Trotski, seu assassino Ramón Mercader e Iván, um jornalista que vive na Havana dos anos 2000 –, e como é produzir literatura na ilha.

O escritor cubano destacou que, a partir dos anos 1990, ficou mais fácil publicar no país apesar da sombra da censura continuar muito presente. Desde seu primeiro romance, Passado perfeito, de 1991, ele sempre pensa que dessa vez não será publicado, mas isso nunca aconteceu. Nas suas obras, são recorrentes as cenas em que um autor ou jornalista sofre com episódios de censura ou de perseguição por causa de seus trabalhos. Padura explicou que, ao escrever, procura fazer uma “memória do futuro e uma memória do passado”.

– Há uma série de acontecimentos da vida cotidiana em Cuba que parece que nunca ocorreram. Supera-se a situação, não se volta a falar disso, não se pede desculpas. O que faço na literatura é a memória do passado e do futuro no presente. A relação entre escritores e as instituições estão nesses dois casos. Nos anos 1970 e início dos anos 1980, uma série de escritores foram marginalizados por não se adequarem às normas de um realismo socialista que tentaram estabelecer. Isso melhorou nos anos 1980, mas a memória do que aconteceu ainda estava muito disseminada. Senti a necessidade de abordar esse tema no romance “Máscaras” – contou.

O cubano se disse impressionado com a quantidade de gente que o parou nas ruas de Paraty dizendo que era ex-trotskista. Padura soube por amigos que o ex-presidente Lula, ao ler “O homem que amava os cachorros”, teria dito que estava virando trotskista por gostar tanto do personagem. O escritor disse que procurou humanizar os personagens, incluindo o assassino Ramón Mercader e garantiu que não é trotskista, mas vê seu livro como “anti-stalinista”.

– Foi Stálin quem inventou o trotskismo para tirar seu adversário da luta pelo poder. A história de Trostki não pode ser escrita desligada de Stálin e do stalinismo. Esse romance é fundamentalmente anti-stalinista, mais do que um livro pró-trotskismo, até porque falo das atitudes muito duras de Trotski nos seus momentos de poder e glória revolucionários – disse Padura. – Não se pode confundir um romance com um livro de história, nem sequer uma biografia. O romance é uma obra de arte e uma de suas funções é criar emoção. Eu gosto de criar emoção, estabelecer uma cumplicidade com o leitor. Os personagens e seu caráter humano são fundamentais para isso. É minha preocupação com Mario Conde, com Trostki e Ramón Mercader.

Já a inglesa Sophie Hannah, autora de Vítima perfeita (Rocco), falou sobre a experiência de “ressuscitar” um dos principais detetives da história do romance policial, o Hercule Poirot de Agatha Christie. Sophie disse que preferiu não ressuscitá-lo propriamente, já que Agatha Christie decidiu matá-lo no último romance do qual foi protagonista. Ela construiu uma trama que se passa em 1929, durante um hiato dos romances de Poirot.

A história de como se tornou responsável por dar nova vida ao detetive também é bastante curiosa. Seu agente sugeriu ao editor inglês responsável pela obra de Agatha Christie que ela se encarregasse da missão sem consultá-la. No mesmo dia, os herdeiros da dama do romance policial comunicaram ao editor que acreditavam ser o momento certo do retorno de Poirot. Uma feliz coincidência.

- Eu pensei que Agatha o tinha matado, logo não poderia trazê-lo de volta. Ao mesmo tempo, seus livros continuam tão populares, adaptado para o cinema, que o personagem continuava vivo. Criei então uma história que se passa no início da vida de Poirot. Todos me falaram: “Você não vai querer lidar com os herdeiros”, mas minha relação com a família é maravilhosa – disse Sophie. – Quando meu agente me contou o que tinha feito, congelei e morri de vergonha. Foi como se meu agente tivesse ligado para o Tom Cruise perguntando se ele queria casar comigo.