Leonardo Padura elogia Cuba e EUA por reconhecer diferenças

03.07.2015

Cultura | Estado de S. Paulo
Ubiratan Brasil

A data ainda não foi definida, mas o escritor cubano Leonardo Padura garante que estará diante da embaixada americana em Havana, quando for hasteada a bandeira dos EUA, gesto que vai oficializar o retorno do país à ilha depois de várias décadas de relações cortadas. “Será um momento histórico e terá um caráter simbólico na reaproximação das duas nações”, disse o autor, na manhã desta quinta-feira, 2, durante entrevista coletiva, em Paraty, onde participa da Flip.

A condição de cubano o torna alvo constante de perguntas sobre a reaproximação de seu país com os Estados Unidos. Gentil, não se refuta a responder, mas avisa de antemão que não tem bola de cristal. “Não estive ao lado de Raúl Castro ou de Barack Obama para saber do que falaram”, brinca. “Mas, estou otimista com o andamento das negociações: melhor construir uma relação que, se não é cordial, ao menos é palpável.”

O escritor também é comumente instigado a comentar sobre a crise da esquerda nos atuais governos latino-americanos. Segundo ele, o problema é paradigmático. “Não se encontrou ainda alguém capaz de recriar uma utopia e precisamos de uma”, observa. “O mundo passa por um momento crítico (crise na Grécia, Exército Islâmico) e, pior, não temos um modelo que sirva como exemplo – China? Não acredito. Talvez precisamos da presença de um iluminado que encontre a solução. Ao mesmo tempo, é preciso tomar cuidado, pois a política envenena tudo que a cerca.”

Um dos mais importantes autores em língua espanhola, recente ganhador do Prêmio Princesa de Astúrias, Padura participa de uma mesa no domingo, dia 5, ao lado da inglesa Sophie Hannah, sobre literatura policial. Não é de estranhar, pois ele é autor de uma elogiada tetralogia, Quatro Estações, que narra as desventuras do melancólico tenente Mario Conde. O crime, no entanto, é o que menos interessa – Padura usa a instrumentação do romance policial para oferecer um retrato social de Cuba, artifício que, observa ele, torna a obra de Rubem Fonseca tão especial.

"Um dos livros que mais me marcou foi Agosto, em que Rubem consegue usar a trama policial para ressaltar o social, ou seja, a política desponta como elemento útil para a narrativa”, comenta ele, cuja obra oferece um retrato de Cuba que destoa da versão divulgada pelo governo. “Em 40 anos, quando compararem meus livros com as notícias dos órgãos oficiais, vão pensar que se tratam de dois países distintos.” Segundo Padura, o fato de publicar sua obra há 20 anos por uma editora espanhola evita qualquer intervenção cubana. “Assim, realizo meu trabalho de forma independente.”