O escritor e a ilha

07.07.2015

Revista da Travessa
Camilla Savoia

Leonardo Padura Fuentes é romancista, ensaísta, jornalista, autor de roteiros para cinema e pós-graduado em Literatura Hispano- Americana. Nesta entrevista, ele nos enriquece com a Cuba tão falada em seus livros.

Cuba, apesar de receber muitos turistas, ainda é muito enigmática para alguns. É um lugar que desperta curiosidade e considero importante que existam pessoas como você, que vivem e contam sobre Cuba. Você busca algo neste sentido ao escrever seus livros?

Sou um escritor cubano que vive em Cuba e que, basicamente, escreve sobre Cuba: sobre a Cuba do passado (tenho um romance que se desenvolve em sua maior parte no século XIX), sobre a Cuba de algumas décadas atrás (dos anos 1940 e 1950) e sobre a Cuba da Revolução até hoje. São romances nos quais trato de explicar a mim mesmo o que são os cubanos e o que continuam sendo, e para explicar essa essência humana tenho que me introduzir em seu contexto: a sociedade cubana. Sou um escritor do social e do humano, e a política, por exemplo, só entra nos meus livros como uma circunstância que afeta a sociedade e o indivíduo. Sendo assim, posso dizer também que minhas histórias tentam deixar uma crônica da vida cubana, e nessa crônica, obviamente, aparecem elementos que tipificam a realidade cubana: fatos, atitudes e situações que só podem acontecer em Cuba. Ao mesmo tempo, procuro não ser apenas um escritor local, mas conectar esses fatos, atitudes e situações a uma perspectiva universal.

Sua vontade de continuar em Cuba é também para falar sobre seu povo e seus costumes? Há união e solidariedade uns com os outros na sociedade cubana?

Minha decisão de continuar vivendo em Cuba é uma decisão natural de alguém que se sente muito conectado com sua cultura e com seu entorno, alguém que tem um forte sentimento de pertencimento. Por outro lado, claro que existe união e solidariedade em Cuba: se não houvesse, muita gente não teria resistido às carências desses anos. Muitos, muitos cubanos que vivem fora ajudam, e inclusive sustentam, a família que vive aqui. Os familiares se ajudam uns aos outros e é por isso que alguém que recebe uma aposentadoria de 300 pesos (12 dólares) pode seguir comendo e vivendo. As pessoas não jogam nada fora, sempre há alguém que precisa do que você não quer mais. Esses laços pessoais e familiares, à margem do Estado, são muito, muito importantes em Cuba.

Conte um pouco sobre a fase mais delicada de Cuba, nos anos 1970 a 2000, em que surgiu o falado “sonho cubano de sair da ilha”. O que fazia na época?

Não creio que exista um sonho cubano de deixar a ilha. Ainda que algumas (muitas) pessoas tenham sonhado com isso. O que houve foi uma necessidade econômica, política, social e pessoal de sair. Nos anos 1970 eu estudava, nos anos 1980 trabalhava como jornalista, e desde 1995 sou escritor profissional. Sigo vivendo e trabalhando aqui.

Como é o mercado editorial cubano atualmente? O que costuma ser publicado? O que as pessoas procuram ler mais?

O mercado editorial não existe em Cuba. Os livros aqui são publicados por razões culturais e políticas, e costumam ser subvencionados pelo Estado. Nos anos 1980 publicava-se muito, nos anos 1990 pouco, e agora se publica o que é possível, de acordo com a situação econômica, em tiragens que em geral não são grandes. Hoje se publicam, sobretudo, autores cubanos, e excepcionalmente estrangeiros.

As pessoas querem ler tudo, mas leem o que podem: um pouco do que se publica em Cuba e um pouco do que foi publicado fora e que, por alguma via, alguém trouxe para o país.

O que fala a imprensa cubana sobre literatura e arte? Por que seus livros e seus trabalhos por muitas vezes são mais falados fora de seu país?

A imprensa diária fala muito pouco. Não há um espaço grande para cultura nem para nada.Imagine: temos jornais de oito páginas. Mas existem algumas revistas culturais impressas e digitais, em que se fala de arte e cultura. Efetivamente dá impressão de que sou mais conhecido fora de Cuba do que em Cuba, mas não é assim: meus melhores leitores estão em Cuba, apesar de que nem sempre possam comprar meus livros (as tiragens são pequenas), de que eu quase nunca apareça na imprensa oficial nem na televisão, ou de que minhas conferências tenham pouco espaço na mídia. Mas as pessoas me procuram, me buscam e me leem, e essa é minha grande vitória e minha grande satisfação como escritor e como pessoa.

Cuba possui a imagem de um lugar pobre, mas não apresenta discrepâncias de desigualdades sociais tão alarmantes quanto o Brasil. E também possui a imagem de não ter assaltos, assassinatos, nem muitas formas de ataque ao outro. O que diz sobre este assunto?

Que você tem razão. Apesar da pobreza generalizada, das cidades deterioradas e sujas, Cuba não é um país violento, pelo menos em comparação à quantidade de pobreza. Talvez porque as pessoas prefiram resolver suas vidas, inventar a cada dia, roubar alguma coisa do trabalho e vender depois, em vez de assaltar alguém.

Quando fui a Havana, achei um lugar extremamente sensual. As pessoas são muito vaidosas e você consegue enxergar isso apenas como turista. Acredita que a sensualidade interfere na arte cubana?

A sensualidade é parte do espírito cubano e, portanto, de sua cultura. Talvez por isso sejamos todos um pouco barrocos. E as pessoas, em geral, um pouco hedonistas, dependendo dos recursos que detenham. O cubano se preocupa muito com a aparência, com parecer bem, e isso tem a ver com essa sensualidade que nos caracteriza. É o que acho, mas não sou sociólogo.

Pelo que li sobre você, a questão de representar alguém, alguma forma de política, não é o seu ponto. A ideia é observar, retratar e refletir. Sem julgamentos excessivos ou taxações. Afinal, considera Cuba um bom lugar para se viver um escritor?

É tão bom como quando você consegue escrever bem, e tão ruim como quando é hora de escrever e o resultado não é satisfatório. Em Cuba, como te disse, não há mercado editorial e, portanto, ninguém consegue viver de direitos autorais. Em Cuba não existe acesso normal à internet e isso também pode complicar o trabalho. Em Cuba, as editoras podem fazer uma leitura política dos textos, e isso pode implicar em censura. Mas o problema fundamental do escritor cubano é o mesmo que o dos escritores de qualquer lugar: encontrar uma boa ideia, uma boa história, e conseguir escrevê-la bem. Com todos os problemas que já mencionei, com o calor, a promiscuidade e os meus vários compromissos, Cuba é pra mim um bom lugar para escrever. Não, devo dizer melhor: é o lugar em que escrevo o melhor que sou capaz.

E o Brasil, já conheceu? Como vê o Brasil e seu povo? E da Flip, o que espera?

Estive em apenas uma ocasião, mas sempre tive muita simpatia pelo Brasil e muita afinidade cultural com seu cinema, sua literatura, sua música e seu futebol. E espero que eu me saia muito bem na Flip e que possa ganhar muitos outros leitores brasileiros.

Por que o foco na sociedade judaica em Hereges? O que chamou sua atenção?

O mistério que era e que continua sendo para mim o judaísmo, e a grande capacidade de resistência cultural de um povo que, sem terra, manteve sua identidade durante 2 mil anos apenas a partir de seus livros e de seus costumes. Os judeus sempre foram exóticos para mim, e ao mesmo tempo próximos, e isso me atraiu a pensar em um romance com personagens judeus de diferentes épocas e tendências.

Quais são os seus autores favoritos? Quais gêneros literários te provocam mais?

A lista dos meus autores favoritos é enorme, e os gêneros literários de que mais gosto são os bons romances, não importa se são policiais, sociais ou de ficção científica: os bons.

Por que falar sobre Trotski no livro O homem que amava cachorros (Boitempo)? O que te despertou conhecer a casa onde viveu e morreu Trotski, em Coyoacán, no México?

Porque acredito que através da história de Trotski e de seu assassinato nessa casa no México era possível olhar de uma forma muito especial e reveladora o que significou o stalinismo como política de Estado e como mentalidade responsável pelo fato de que a utopia do século XX se deformasse muito rapidamente e provocasse a derrota dos sonhos e das necessidades de tantos homens. E porque Trotski, assim como os judeus, era para mim um mistério, algo exótico. Os judeus porque em Cuba praticamente não existem. E Trotski porque em Cuba praticamente nunca existiu. Quais são seus próximos projetos? Comecei um romance novo; outra vez com o meu personagem Mario Conde. Estou bem próximo do personagem enquanto escrevo os roteiros de uma série que está sendo filmada, e pensei que era um bom momento para fazê-lo saltar no tempo. Em Hereges ele aparece em 2008, e agora vai aparecer em 2014, quando completa 60 anos, com tudo o que isso traz, em uma Cuba em trânsito a algo diferente que não sabemos bem o que é, e que ele tampouco sabe. Entre nós dois, procurando uma virgem negra catalã extraordinária do século XII que foi perdida em Cuba, vamos tratar de observar outra vez a realidade cubana e, se pudermos, explicá-la um pouco.