“Chegou a minha vez de ver cair outro muro de Berlim”

11.07.2015

El País
Camila Moraes

Cinco anos levou o escritor Leonardo Padura (Havana, 1955) para escrever O homem que amava os cachorros, romance que narra o fim do revolucionário russo Leon Trotski e é bastante crítico em relação ao regime socialista cubano. Muito menos tempo foi necessário para que o livro circulasse pelo mundo conquistando leitores, críticas positivas e prêmios. Inclusive em Cuba, onde o esperado era que despertasse não só desafetos como também sanções, porém – como um sinal de novos tempos – terminou bem acolhido.

O homem foi lançado primeiro na Espanha, em 2009, e logo depois traduzido a vários idiomas, do dinamarquês ao grego, passando pelo português. No Brasil, saiu no final de 2013 e já acumula 50.000 exemplares vendidos pela Boitempo, editora que publicará ainda este ano Hereges, novo romance de Padura, que participou da 13ª Festa Literária de Paraty. Na festa, ele falou ao lado da escritora britânica Sophie Hannah para uma plateia repleta de entusiastas da literatura policial, gênero em que ambos são especialistas, apesar de terem estilos diferentes.

Cada vez mais próximo do país, com que cultiva relações culturais desde os anos 80 e onde atua hoje como colunista da Folha de S.Paulo, Padura vive hoje um boom em torno de sua obra e por ela recebeu, em junho deste ano, o Prêmio Princesa de Asturias das Letras na Espanha.

Nas diversas colaborações que mantém com a imprensa, entre eles o EL PAÍS, o escritor não teme as opiniões políticas e as análises do contexto social em que vive. Sobre a atual fase de reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos, diz que não é capaz de prever o futuro, mas é otimista: “Chegou a minha vez de ver cair outro muro de Berlim”.

Como O homem que amava os cachorros foi recebido em Cuba?

Na primeira reedição do livro, em 2011, ele foi lançado em Cuba. Foi uma surpresa para mim, mas ele terminou inclusive ganhando um prêmio da crítica, e isso foi muito importante para que eu ganhasse depois o prêmio nacional de literatura. Claro que gerou opiniões diferentes, desde os que o satanizam até os que o bendizem, sobretudo nas reações escritas. Na rua, as pessoas, na maioria das vezes, me dizem algo muito gratificante: agradecem que eu tenha escrito esse livro, porque com ele, de alguma forma, entenderam coisas de suas próprias vidas que não tinham entendido até então.

Você disse uma vez que a realidade retratada nos seus livros é mais próxima à realidade de fato do que aquilo que podemos encontrar nos jornais cubanos. Por quê?

Acho que nós, escritores, temos em Cuba um maior espaço para poder adentrar algumas realidades e observá-las de uma perspectiva interior e crítica, dependendo do interesse do escritor e dos propósitos que tenha. Enquanto a imprensa está muito mais próxima das políticas oficiais, a literatura tem um espaço de liberdade muito maior – conquistado pouco a pouco, ao longo dos anos, com muita luta, discussões, acusações e até maquinações. Foi um processo que começou nos anos 80, muito lentamente, de maneira inconsciente, e que nos 90 se acelerou. Acho que hoje o estado da literatura cubana tem hoje um espectro muito mais aberto em relação ao reflexo da realidade do que a imprensa.

Você também disse, apesar de ter escrito 11 romances, que é um escritor de pouca imaginação. Como é possível?

É verdade. Custa muito trabalho para mim ter uma ideia para um romance e às vezes me desespero. Mas há sempre uma luz ao final do túnel. Estive escrevendo alguns roteiros nos últimos dois anos e ficava cada vez mais preocupado, porque não me ocorria nada para escrever um romance. Ou pensava em algo e descartava rapidamente. Mas é incrível, sempre me passa o mesmo: em algum ponto do cérebro me acende uma lâmpada. Isso aconteceu, e me lembrei da história real de um amigo meu e disse: “Mas isso é um romance!”. Mudando de lugar, mudando milhões de coisas, mas a ideia estava aí, e chega no momento que tem que chegar.

Sua literatura é encaixada no gênero policial, mas contém muitas críticas sociais.

Concebo meus livros como romances sociais. Não me importa quem matou quem. Começo a escrever meus “romances policiais”, bem entre aspas, por um assassinato e um morto – e eu não sei quem é o morto. Continuo escrevendo porque o que me interessa é construir uma atmosfera, um ambiente, uma história, e depois dar a ela a forma de uma novela policial. É um emprego utilitário dos recursos do gênero, mais que propriamente um romance policial. Isso em nome desse olhar social que é o que me interessa, em toda a minha literatura.

Que importância tem para você receber um prêmio como o Princesa de Asturias?

Fiquei surpreso com esse prêmio, porque de fato é um dos grandes prêmios entregues no mundo, especialmente para a literatura, mas que se estende a outras categorias, como esporte, ciência, comunicação e artes – que, este ano, premiará ninguém menos que Francis Ford Coppola. É muito satisfatório receber um prêmio que visibiliza meu trabalho, mas o assumo como um reconhecimento do meu trabalho nesses anos. Traz tranquilidade em muitos aspectos da vida, mas não resolve meu principal problema como escritor – que é escrever e escrever bem. Esse problema é seu com você mesmo e com o seu computador.

Retorno a Ítaca, que tem roteiro seu, está em cartaz atualmente no Brasil. É um filme autobiográfico, em algum aspecto?

O roteiro é meu com a colaboração do diretor Laurent Cantet e de Lucía López Coll, minha esposa. Está inspirado em um episódio de um dos meus romances, que se chama La novela de mi vida. Apesar de que toda a história se desenvolve em um sótão, a cenografia da Havana é muito importante para o filme. Especialmente um bairro central, que se chama Centro-Havana, a partir de onde se vê a parte moderna da cidade, a parte velha e mais deteriorada e, entre dois edifícios, se vê o Malecón e o mar. Essa estrutura é muito importante para um cubano, porque mostra a cidade como proteção, como meio envolvente, e o mar como princípio e fim da cidade e dos sonhos. Das possibilidades, das frustrações, das esperanças... O Malecón é a última fronteira da Havana e de Cuba, em seu imaginário. Um pouco como Virgílio Pinheiro dizia, em um dos versos mais citados da literatura cubana, da “maldita circunstância da água por todos os lados”.

Mesmo trabalhando tanto, você colabora ativamente com a imprensa.

Sim. Mas em dado momento vi que era muito o tempo que dedicava a isso e tive que desistir de algumas colaborações. Acho que está bem assim, porque atualmente tenho espaços diferentes, com características diferentes, que me permitem fazer diferentes tipos de jornalismo.

Que importância tem manter sua palavra viva nos jornais?

Tem muita importância. Porque na literatura você não pode dizer tudo. Você não pode nem explicar as coisas. O jornalismo funciona como um complemento a uma expressão fundamental para mim, mas que nunca é completa. Com a literatura, não dá para seguir o ritmo dos acontecimentos. Alguém me dizia: “No seu novo romance, você vai falar de que as coisas mudaram em Cuba, com as relações com os Estados Unidos?”. Primeiro, não mudou nada, respondo. Depois, não tem sentido colocar um romance para correr atrás dos acontecimentos. O jornalismo, sim, permite isso: falar do que você está vivendo e está sentido. Tenho a sorte, além de tudo, de fazer um jornalismo de autor, não de redação. Sei o que é isso: no dia em que menos vontade tem, mandam você entrevistar o Padura.

Como começa sua relação com o Brasil, que hoje parece ser tão intensa?

Minha relação cultural com o Brasil é muito velha. Os anos 80, quando saímos da universidade, foram uma época muito bonita do cinema e da música brasileira. Nos festivais de cinema de Havana, o Brasil arrasava. E iam a Cuba com frequência músicos brasileiros como o Chico Buarque, a Maria Bethânia e outros. Isso intensificou uma relação que também era literária, porque havia autores brasileiros que me interessavam – os clássicos, de gerações anteriores, como Jorge Amado, ou mais contemporâneos, como Rubem Fonseca. A partir do final dos anos 90, começo uma relação editorial, com a publicação de livros meus.

Você é muito procurado para falar sobre Cuba. Como você vê a reaproximação entre seu país e os Estados Unidos?

Tem que ser algo positivo. Tantos anos de tensão, enfrentamento, agressões verbais e incluso físicas entre Cuba e os Estados Unidos era algo que parecia uma maldição. Parecia que não ia terminar nunca. Por isso, no dia 17 de dezembro, quando anunciaram que as conversas iam ser retomadas, minha esposa começou a chorar, eu soltei um grito... Acho que é melhor que dois países estejam em um sistema de distensão que de enfrentamento. E não estamos falando de um país qualquer, mas dos Estados Unidos. E a nós acontece o mesmo que com o México: “Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. É um país com o qual temos uma relação histórica e cultural traumática e rica. E se isso pode impactar nas condições e na qualidade de vida dos cubanos, pois bem-vindo seja. Lembro que minha mãe, quando caiu o muro de Berlim, tinha quase a mesma idade que tenho agora. Ela disse: “Não pensei que, na vida, eu veria isso acontecendo. Eu pensei que o muro de Berlim era para sempre”. E agora chegou a minha vez de ver esse cair outro muro de Berlim, que pensamos que não cairia nunca.

Nesses anos todos, você e sua esposa nunca pensaram em sair de Cuba?

Nos anos 90, pensaram em sair de Cuba até o carrapatos. O cachorros estavam fracos demais. Mas não, nunca o propusemos como uma possibilidade real. A verdade é que para realizar o trabalho que realizamos precisamos estar em Cuba, com a família, na casa que construímos com tanto esforço, com a sensação de pertencimento cultural. Sou um escritor cubano e vivo da realidade cubana como escritor.

A presidenta Dilma Rousseff leu e recomendou publicamente O homem que amava os cachorros. O que isso significou para você?

Fiquei lisonjeado, claro. Ela o recomendou ao Lula também e, por conta disso, encontrei com ele em São Paulo há alguns dias. Fui recebido no Instituto Lula como uma estrela de cinema... Um amigo me perguntou: “Mas como você conseguiu se encontrar com o Lula?”. Eu lhe disse que, se fosse brasileiro, talvez não conseguisse, mas o fato é que fiquei feliz. Simpatizo com ele por sua história de vida e por tudo o que fez pelo país.