Cuba em branco e preto

14.07.2015

Folha de S.Paulo
Leonardo Padura

Acabo de realizar uma viagem de promoção literária pelo Brasil. Subindo da feira de Canoas, no Rio Grande do Sul, cheguei ao Rio de Janeiro, com paradas em São Paulo e na impressionante Flip, na não menos impressionante cidade de Paraty.

Foi um percurso intenso, pleno de satisfações humanas e literárias, que teve como marcas mais notáveis um encontro pessoal com o presidente Lula na sede do instituto que ele dirige em São Paulo; um jantar e muita conversa no Rio com o admirado Chico Buarque de Hollanda; e a agradável comprovação de que no Brasil eu talvez seja mais conhecido do que em Havana, quando em diversos lugares, não especialmente literários – aeroportos, restaurantes e o calçadão de Ipanema–, alguém me abordava e perguntava se eu era o autor de O homem que amava os cachorros.

A parte mais amável do trabalho, como sempre, foram os encontros com os leitores, esses seres fantasmagóricos para os quais um autor escreve sem deles nada saber e que se materializam, com rostos e vozes humanas próprios, em auditórios e sessões de autógrafos. A parte mais árdua, como sempre, é a promoção do trabalho na imprensa por meio de entrevistas, que nesta ocasião passaram das duas dezenas em apenas dez dias.

O fato de ser um cubano que, além disso, se dedica a escrever livros e crônicas é uma marca indelével que me persegue exatamente nessa parte do trabalho promocional. Para a imprensa –e presumo também que para o leitor brasileiro–, Cuba e suas questões políticas são um tema de eterno interesse, muito mais atraente, ao que parece, do que minhas preocupações estéticas e meus afãs literários na criação de histórias e personagens.

E o mais complexo é que cada entrevistador, antes de me perguntar, já tem juízo formado sobre a realidade e a vida cubanas e a única coisa que desejaria é que alguém chegado da ilha confirmasse seus conceitos (para não dizer preconceitos, ainda que de fato sejam –pois, como a palavra mesma diz, trata-se de conceitos prévios, já assumidos).

A atual conjuntura cubana, depois da virada histórica do 17 de dezembro de 2014 (quando os presidentes Raúl Castro e Barack Obama anunciaram a intenção de iniciar um processo para o restabelecimento de relações diplomáticas entre Havana e Washington), disparou esse interesse histórico por Cuba. Mas a nova situação recebeu um impulso adicional quando, em meio à minha viagem, foi confirmada a abertura de embaixadas já a partir de 20 de julho.

As perguntas sobre o que se passou em Cuba desde o anúncio do 17-D e, especialmente, sobre o que acontecerá no futuro mediato e imediato choveram sobre mim com e sem lógica: pois, se há algo que posso dizer sobre o que ocorreu (e eu o disse), dificilmente posso lançar qualquer suposição sobre o que ainda não ocorreu.

O tema da atualidade de Cuba e de seu processo social e político costuma se complicar quando os preconceitos não têm matizes; ou seja, quando se vê Cuba em branco ou preto. Mas ele se torna ainda mais arrevesado quando, no extremo do espectro cromático em que se coloca o interessado, está incluído o que se supõe seja conhecimento ou experiência pessoal sobre uma realidade com a qual a pessoa teve apenas um contato esporádico e não cotidiano, sustentado, ademais, de uma perspectiva política já formada e do ângulo equívoco propiciado pelo fato de ter visitado a ilha... mas sem nunca ter nela vivido.

Ao longo de meus anos como escritor e jornalista, sempre segui um princípio com relação a minhas opiniões sobre as realidades sociais e políticas de outros países. Foi o de reservar essas opiniões pessoais (que certamente tenho) sem expressá-las em público, porque elas seriam apenas as impressões de alguém que entra tangencialmente em um contexto sem dominar todos os seus matizes, uma condição que é adquirida através da convivência íntima com uma realidade ou com um conhecimento muito específico dela.

Mas Cuba costuma gerar paixões demais. Ao que parece, todos querem referendá-las, e para eles é melhor se puderem contar com a voz de um escritor cubano capaz de lhes oferecer a imagem satânica ou paradisíaca previamente formada. E assim podem esquecer que um escritor é exatamente isso, um escritor, e não um especialista em relações internacionais, em economia, em sociologia... ou até um profeta –e ainda menos em sua terra, como se costuma dizer desde os tempos bíblicos.

Como disse certa vez Eduardo Galeano, "Cuba dói". A alguns na parte esquerda do peito, a alguns na direita, mas dói. E, com essa carga dolorosa, o escritor que nasceu em Cuba e, para culminar, continua vivendo e escrevendo em Cuba deve assumir a parte mais complexa de seu trabalho... sem dúvida um país no qual, como todos os artistas, o escritor sofre as dúvidas da criação, que são muito mais universais e eternas que as mutáveis questões políticas, tão propícias aos preconceitos.