Padura e os assaltantes do céu

31.07.2015

Valor Econômico
Amir Labaki

Padura e os assaltantes do céu
 

Quando no começo da década deparei com a primeira referência a um romance cubano sobre o assassinato de  Leon Trotski (1879-1940) no México pelo catalão Ramón Mercader (1913-1978), lembrei imediatamente de um notável documentário espanhol sobre o mesmo tema que tive o privilégio de assistir no final dos anos 1990. A recente visita ao Brasil de Leonardo Padura impeliu-me finalmente a ler O homem que amava os cachorros (Boitempo, 592 págs) e, confirmando minha tese, eis abrindo a lista de agradecimentos os diretores espanhóis de Assaltar os céus (1996), Javier Rioyo e José Luis López-Linares.

Não tive a oportunidade de perguntar a Padura em que momento de sua extensa pesquisa, na dúzia de anos que se dedicou a preparar o romance, tomou contato com o filme de Rioyo e López-Linares. Por certo, como sinaliza a honrosa referência citada, serviu-lhe de fonte essencial para uma das três linhas narrativas em que se desenvolve o livro, exatamente aquela que recupera a trajetória de Mercader de filho da burguesia abastada de Barcelona a sicário stalinista agonizante, em meados dos anos 1970, na Cuba de Fidel.

Os dois outros enredos tratam do longo exílio (1928-1940) a que Trotski foi condenado por Stalin -inicialmente na república soviética do Casaquistão, a seguir na Turquia, França e Noruega até a parada final no México-, e do decisivo encontro com Mercader, na Havana da metade dos anos 1970, que retira da aposentadoria como escritor o fictício Iván Cárdenas Maturelli, indisfarçável alter-ego de Padura.

O Homem Que Amava os Cachorros funda-se assim em dois terços de narrativa documental e um terço de autoficção, ou ficção embebida em traços autobiográficos. Iván não é Padura, este jamais encontrou Mercader, mas Iván é forjado a partir do testemunho deste seu quase contemporâneo sobre cerca de trinta duríssimos anos de voluntária permanência em Cuba.

Generosamente, Padura identifica as principais fontes de árdua pesquisa que alimentam a construção narrativa de Iván. Para a reconstituição da vida de Trotski, um personagem estigmatizado pelo regime fidelista mesmo até as vésperas da “glasnost” soviética, a referência principal é a clássica trilogia biográfica publicada entre 1954 e 1963 pioneiramente por Isaac Deutscher.

Quanto à reconstrução da misteriosa vida de Mercader, que assumiu os nomes de guerra Jacques Mornard e Frank Jacson durante a missão homicida entre 1938 e 1940 e Jaime López na Cuba dos 70, a obra essencial foi a pioneira biografia publicada na Espanha em 1990 por seu irmão caçula, Luis Mercader (1923-1998), Ramón Mercader, Mi Hermano: Cincuenta Años Después (Meu Irmão: Cinquenta Anos Depois), da qual não encontrei referência de edição brasileira. É mais que provável que o livro de Luis tenha sido a base sobre a qual se erigiu, pouco mais de meia década após sua publicação, também o roteiro de Javier Rioyo para Assaltar Os Céus, no qual o mano de Rámon aparece como um dos principais entrevistados.

Luis Mercader é apenas um dos vários personagens reais de maior ou menor expressão no romance que temos o privilégio de ver e ouvir em depoimentos ao filme. Aqueles que mais se fixaram em minha memória são Laura, uma das três filhas adotivas de Ramón; seu advogado mexicano Eduardo Ceniceros; a francesa Maria Crapeau, amiga da trotsquista americana (Sylvia Ageloff) cuja sedução por um Mercader sob disfarce facultou a ele o acesso a Trotski; Mark Sharon, um dos guarda-costas americanos do ex-líder soviético que capturou seu assassino momentos após o ataque fatal; e Esteban “Seva” Volkov, o neto de Trotski que morava com os avós na trágica fortaleza improvisada em Coyoacan. O impacto destes reencontros não é dos motivos menores para que apenas depois da leitura do livro se assista ao filme no Youtube.

Um dos mais célebres entrevistados de Assaltar Os Céus, o escritor cubano dissidente Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), dedicou em 1967 uma das partes de seu romance máximo, Três Tristes Tigres, a descrever o assassinato de Trostski em breves paródias dos estilos de colegas compatriotas como Alejo Carpentier, Lezama Lima, Nicolás Guillén e Virgilio Piñera. Quase meio século depois, Leonardo Padura encarou o desafio a sério, como uma espécie de Tólstoi de três náufragos da utopia socialista.

É para poucos libertar Trotski da casaca de ferro, temperar de compaixão um retrato do vil Mercader e criar em Iván uma espécie de sobrinho escrevinhador do Sérgio de Memórias do Subdesenvolvimento (1968). Ao fazer um balanço amargo do revolucionarismo socialista do século 20, O Homem Que Amava os Cachorros ilumina também o futuro ao afirmar a vitalidade presente do romance.