Favela de luxo é que é negócio...

14.06.2015

Diário do Nordeste
Gervásio de Paula

Só ligo o aparelho de TV quando tem jogo.

Os noticiários - local, regional, nacional e internacional -, eu acompanho pela internet e no radinho de pilha Sony - AM/FM. BBC, CBN, CNN e etc. Jornal só leio as crônicas sociais.

Deito-me às 20 horas para dormir.

Moro numa favela de luxo de 32 apartamentos, na rua Marcondes Pereira. Por pouca sorte, ou muita, uma mulher - com carteira tirada pelo cartão de crédito - atropelou-me na esquina da rua Tomás Acioli com avenida Rui Barbosa. Quase o carro subiu a calçada, ao fechar a curva.

Não foi nada: fui socorrido na emergência do hospital do plano de saúde. Tiraram o raio X do joelho esquerdo e o médico disse que não tinha nada onde o automóvel que me jogou no chão bateu. Ficaram uns beliscou, quando andava muito.

Tempos depois fui à clínica do ortopedista Roberto Bruno. Ele disse que o joelho estava partido. Não sabia como eu conseguia andar sem bengala ou joelheira apropriada. Tinha de operar, mas apareceu-me uma leucemia no meio da história. Adiada a cirurgia.

Um ano depois, soube que o médico que me atendeu, filho do município de Milagres, havia morrido. Não sei do paradeiro da atropeladora.

Como dizia, por pouca ou muita sorte, moro no terceiro andar. De joelho quebrado, tenho de descer e subir todo dia, seis lances de escadas, me amparando nas paredes. O apartamento é próprio. Não tenho jeito de vendê-lo e comprar outro com elevador.

Sim... Vou me deitar cedo para dormir. Quando fecho os olhos, um casal que cria cinco cachorrinhos de estimação, no seu apartamento, ouve o disparar de latidos, uníssonos, dos animais. Acabou meu sono. Demorado uns três minutos, eles calam. Parece que estavam com muita fome.

Volto a tentar dormir. Com o silêncio dos bichinhos. De repente um morador buzina, insistentemente, para o porteiro descer da guarita do prédio e abrir o portão que enguiçara. São 21 horas.

Viro-me na cama. Procuro melhor posição. Estava quase dormindo. Entra um carro acelerando repetidas vezes, como se estivesse enraivecido pela demora da abertura do portão. São 21h30.

Levanto-me. Tomo um suco de maracujá. Se tivesse carro, iria a um bar que não fechasse durante 24 horas, na Beira Mar, esperar a acalentadora madrugada. Depois, voltava para casa.

Começa a chuva. Favela de luxo é assim. Tem duas goteiras enormes. Boto dois baldes para aparar a água. A coberta do apartamento é de telha do cancerígeno amianto.

Por morar sozinho, o único que contraiu leucemia desse amianto escorregando pelas goteiras, fui eu. As goteiras só podem ser consertadas, com as infiltrações que, também existem nas paredes, depois de corrigir os defeitos nas calhas e nos canos de cima do telhado.

E a síndica? Quem? A síndica. Ah, a síndica.

Há cinco anos que essas goteiras e essas infiltrações em quase todos os apartamentos surgem quando chove como aconteceu em abril recente.

Torna-se, urgente!, necessário a presença dos órgãos de saúde pública, nacionais e internacionais, para evitar a ampliação de câncer no condomínio e em casas populares no entorno e nos bairros suburbanos da cidade, com habitações cobertas com amianto.

Há poucos anos, segundo revelou a própria síndica da favela de luxo onde moro, ocorreu um surto de câncer em Minas Gerais. O governador de então - parece-me que Aécio Neves - apelou para organizações internacionais de saúde. Fizeram pesquisas e constataram que era o amianto que cobria as casas populares.

O governador mandou, de imediato, substituir todos os telhados de amianto por telha de argila e comuns. Acabou-se o surto canceroso. Mas ficaram sérias sequelas

Nos Estados Unidos, é proibido o uso de amianto. Quem usar terá alta multa e se reincidir terá cadeia.

Como disse. Não tenho dinheiro para ir de táxi à Beira-Mar. Peguei um livro - "O homem que amava os cachorros" - eram 24 horas. A obra é de Leonardo Padura, romance que me foi doado pelo vereador João Alfredo (PSOL).

Comecei a ler sem me cansar. Não parei mais de tão gostoso. Sem tomar conhecimento do que acontecia em torno de mim. Li as 589 páginas.

Essa, sim, é a grande vantagem de morar em favela de luxo.

Livro

O homem que amava os cachorros
Leonardo Padura

Tradução: Helena Pitta
Boitempo
2015, 589 páginas
R$ 69

Gervásio de Paula*
Especial para o Caderno 3

*O autor é jornalista e cronista