Lançado o livro dois de O Capital

16.11.2015

Revista Sociologia
Lejeune Mirhan

Com tradução realizada diretamente do alemão por Rubens Enderle, chega às livrarias brasileiras o segundo livro da obra-prima de Karl Marx

Nunca foi fácil para estudioso algum de Marx resenhar uma das suas obras. Ainda mais em se tratando desta, O capital, Livro II, que agora a prestigiosa Editora Boitempo nos brinda. Para falarmos, ainda que de forma resumida, dessa monumental obra (já resenhamos o Volume I e aguardamos a publicação do Volume III para este ano de 2015).
 
Em primeiro lugar, sobre o tradutor. Trata-se do professor Rubens Enderle e dele precisamos falar um pouco. Graduou- se em Filosofia pela UFMG, universidade onde também fez mestrado. Ingressou no doutorado na Unicamp em 2007, mas depois disso atuou no projeto MEGA-2 na Alemanha até 2010. Optou em transferir seu doutorado para a Universidade de Munique, onde pesquisa a obra do filósofo Eric Voegelin. Vive hoje em Münster, na Alemanha. Pela Boitempo traduziu diversas obras de Marx.
 
Em segundo lugar, temos que falar da edição brasileira, das suas características. As "orelhas" do livro foram escritas pelo colega sociólogo e professor da Unicamp, dr. Ricardo Antunes. É claro que ele faz menções extremamente positivas a essa edição, tentando resumir a essência do livro, qual seja, a circulação de capital. Antunes tem vasta obra referente à Sociologia do Trabalho em que adota uma concepção marxista de análise.
 
A Editora Boitempo hoje, podemos dizer assim, é a maior publicadora da obra de Marx e Engels no Brasil. Tem prestado imenso serviço não só aos marxistas, mas aos pesquisadores sobre o pensamento econômico. Mais do que nunca, a nosso ver, as ideias de Marx, que alguns dizem que são "boas, mas valem para o século XIX" (sic), estão mais vivas e válidas como nunca. Ao todo, no catálogo da editora constam 18 obras de Marx e Engels. Todas traduzidas diretamente do alemão. Isso sem falar de autores que desenvolvem o pensamento marxista, como David Harvey, Domenico Losurdo, ou ainda autores que se apoiam na teoria marxista, como Zizek, Lowy, Benjamin, Wallerstein entre outros.
 
Há um esclarecimento fundamental aos leitores atentos: são cinco tipos de notas de rodapés explicativas, fora as que são usadas o "*". São elas: nota do próprio Marx (K.M.); notas do Engels (organizador do livro, F.E.); nota da edição alemã (N.E.A); nota do MEGA (Marx-Engels- Gesamtausgabe) e, claro, do próprio tradutor (N.T.).
 
No Brasil tínhamos, antes desta edição, duas traduções diretas do alemão. Uma publicada pela Abril, coleção "Os Pensadores", da qual participou da coordenação o prof. Paul Singer, e não é O capital por inteiro, mas parte dele. A segunda, completa, da Editora Civilização Brasileira, comprada posteriormente pela Record, de Reginaldo Sant'Anna, editada por Ênio Silveira, com os quatro livros e nove volumes. Tenho ambas, ainda que tenha lido apenas a da Civilização.
 
A riqueza da nova tradução
Quais então as grandes novidades desta tradução direta do alemão? A primeira e mais fundamental, no meu modo de ver, é que o antigo conceito que usávamos de "mais-valia", que significava a acumulação de riqueza a partir do trabalho não remunerado aos trabalhadores, passa agora a denominar-se "mais-valor". Isso diz tudo. O que o trabalhador produz mesmo é um valor a maior, que enriquece o proprietário dos meios de produção. Comentei isso em detalhes na resenha do Livro I.
 
A segunda é que ela é uma tradução do projeto MEGA-2, que reúne e detém centenas de milhares de manuscritos originais de Marx e Engels e para esse livro foram consultadas ao todo quatro mil páginas! Outro aspecto é que essa tradução é da segunda edição alemã editada por Friedrich Engels e publicada em 15 de julho de 1893, dez anos após a morte de Marx, seu amigo de 39 anos e dois anos antes da morte do próprio Engels. Ele publicaria posteriormente o Livro III.
 
Quais então as grandes novidades desta tradução direta do alemão? A primeira e mais fundamental, no meu modo de ver, é que o antigo conceito que usávamos de "mais-valia" passa agora a denominar-se "mais-valor"
 
No entanto, o fator decisivo para ela tornar-se excepcional é exatamente colocar em negrito todas as mexidas, arrumações, alterações e acréscimos feitos por Engels. Aliás, ninguém além de Engels teria condições intelectuais de proceder a essa arrumação de tudo que Marx produziu no projeto de escrever a obra de sua vida. Mas a edição vai além: pequenas supressões de Engels são citadas em rodapé, e duas grandes aparecem como anexas ao livro. Edição nenhuma, afora da MEGA, procede dessa forma.
 
Engels, em seu longo prefácio, menciona todo esse esforço. Diz o que fez e como foi possível fazê-lo. Ele menciona dificuldades de várias ordens, em especial manuscritos prontos para serem publicados e organizados por Marx em vida, mas cujas anotações dele próprio feitas posteriormente tornaram obsoletas (Manuscrito IV), ou termos técnicos em francês e inglês e em várias passagens, páginas inteiras escritas em inglês. Como diz Engels, as ideias "pousavam no papel da forma como iam se desenvolvendo no cérebro do autor". Por fim, a caligrafia. Engels menciona "a notória caligrafia, que às vezes nem o próprio autor lograva decifrar".
 
Por fim, a confissão da fidelidade de Engels aos originais. As alterações foram as menores possíveis, modificando estilos (Marx escrevia de forma coloquial), ainda assim onde o próprio Marx, seguramente, as teria feito.
 
Essa edição tem um prefácio de Michael Heinrich, cientista político e ex- -professor de universidades, como a de Viena e Berlim, e um ativo participante do projeto MEGA-2, que tem como objetivo publicar toda a obra de Marx e Engels no mundo. No entanto, o que chama atenção é a Introdução da edição alemã, de autoria coletiva dos editores do Volume MEGA-2 II/13.
 
A obra O capital é o projeto da vida de Marx, da qual ele passou praticamente todo o seu tempo estudando. Só publicou em vida, em 1867, o Livro I. Não conseguiu publicar os Volumes II e III. Mas deixou um projeto estruturado da obra como um todo. E, o mais importante, seus escritos (manuscritos) foram feitos em diferentes etapas da sua vida e a própria ordem dos três Livros d'O capital não tem nada a ver com o tempo em que foram escritos por Marx. Na página 73, há uma elucidativa tabela que nos mostra exatamente isso. Os livros d'O capital foram datados por Marx ou por Engels, mas o projeto MEGA-2 tem outras datas estimativas, com pequenas variações.
 
Uma declaração da filha de Marx, Eleanor, de que ele teria dito sobre seus escritos "Engels deveria fazer algo com eles" serviu para Engels agarrar essa imensa tarefa intelectual de arrumar tais escritos, mas garantindo que seria uma obra do autor e não do editor.
 
No Livro I, Marx trata do processo de "produção e acumulação" do capital. Mas não há como falar em produção sem falar em consumo que depende da circulação do capital/mercadoria. Aliás, já sabíamos, desde o volume anterior, que a realização do mais-valor só se consuma efetivamente quando a mercadoria é adquirida por um consumidor.
 
Assim, neste Livro II Marx trata exatamente de como o capital circula, ou seja, tempos de circulação desse capital, de forma que quanto mais rápido a mercadoria circula e é vendida tanto mais rápido o mais-valor é apropriado pelo capitalista. Se esse tempo for o mínimo possível, a capitalização é quase imediata. Podemos ver isso hoje em escalas jamais imaginadas por Marx e Engels, como é o caso do comércio eletrônico por páginas de lojas virtuais na internet. Na verdade, os capitalistas de hoje podem receber antes de a mercadoria ser entregue ao consumidor.
 
Conhecemos a famosa fórmula que Marx utiliza. Tão conhecida quanto a fórmula de Einstein E=MC². Marx apresenta a sua: D - M - D', ou seja: um dinheiro/ capital produz com TRABALHO uma mercadoria, que por sua vez, quando vendida, retorna na forma de MAIS DINHEIRO/ MAIS CAPITAL. Aliás, por isso sempre dissemos que o modelo neoliberal criou, na verdade, um novo tipo de capitalismo, que alguns autores preferem chamar de "cassino", especulativo que se rege pela fórmula: D - D', ou seja, o dinheiro se reproduz sem passar por nenhum sistema produtivo, sem gerar nenhum emprego, sem gerar mais-valor. Como Marx não está errado em sua teoria, esse modelo neoliberal de capitalismo financeiro tende a explodir como uma bolha.
 
Por fim, é importante registrar um comentário. Sempre se achou que as intervenções de Engels na edição do Livro II tivessem sido pequenas. Não foram. Não só porque se percebe pelas frases e trechos em negrito, mas pelo conteúdo, que nos é auxiliado pelos comentários da equipe de pesquisadores e do tradutor com muito brilhantismo. Existem acréscimos grandes em muitas passagens. Cabe aos marxistas avaliarem, estudarem se tais alterações podem ter modificado alguma ideia original desse gênio que a humanidade criou que foi Marx. De minha parte, à exceção eu comento abaixo, entendo que as intervenções de Engels - outro gênio - só fortalecem as ideias de Marx.
 
A estrutura da obra
Por certo Engels alterou a forma de apresentação originalmente proposta por Marx. Criou seções, depois capítulos e subcapítulos. Isso na verdade facilitou a compreensão da leitura, dentro de uma ordem lógica traçada originalmente pelo próprio Marx.
 
O livro apresenta três grandes seções, sendo a I intitulada As metamorfoses do capital e seu ciclo, a II intitula-se A rotação do capital, e a III levou o título A reprodução e a circulação do capital total. Cada uma dessas seções possui mais ou menos capítulos, totalizando 21 na obra toda. Alguns mais curtos, outros maiores, uns mais complexos, outros simples. A edição francesa inclusive - revisada e prefaciada pelo próprio Marx - amplia os capítulos exatamente para ser publicada em fascículos e ser mais acessível aos operários e trabalhadores em geral.
 
O didatismo do texto é excepcional. No entanto, dizer que qualquer pessoa poderia lê-los de forma a tudo entender não é verdade. Sempre disse a quem quer conhecer a obra de Marx que não se deve começar pelo Capital e deve-se ter um embasamento de ideias econômicas, pelo menos as clássicas.
 
De qualquer forma, há passagens interessantes que gostaria de registrar. Me chamou a atenção - e isso aparece no Livro I e outros livros de Marx - o trecho em que ele diz "... digamos que o período de trabalho necessário para a produção de uma locomotiva possa ser reduzido em termos absolutos mediante a utilização de novas máquinas-ferramentas" (grifos nossos). Vejam aqui a clareza de percepção do desenvolvimento das forças produtivas e em especial da tecnologia e dos meios para a sua produção, que se desenvolvem também, como se ele previsse a instituição de robôs nas linhas de montagens do futuro, ampliando a necessidade de mais capital fixo.
 
Os autores da edição alemã nos alertam para um conjunto de tabelas deixadas por Marx às quais Engels se debruçou. Ele selecionou várias delas, desconsiderou algumas, mas modificou outras. A polêmica aqui, segundo esses alemães, é que Engels teria se confundido em uma delas, não compreendendo a dimensão e a proposta de entrelaçamento de capital de que Marx fala (falamos da famosa Tabela IV, no Capítulo 15, página 372-4).
 
Engels confessa que a redação desse capítulo "apresentou não poucos problemas", exatamente porque as tabelas de Marx falam em quatro semanas de trabalho e circulação de capital de cinco semanas. Anos depois, em 1926, o líder comunista alemão Karl Kautsky, que publicou o Livro IV d'O capital (teorias da mais- -valia), vai comentar essas discrepâncias dessa forma: "Essa passagem inteira parece ter sido escrita em estado de extrema fadiga" (grifos nossos; p. 55). E nunca foi posteriormente corrigida. Mas isso em nada obscurece a monumental obra.
 
Por fim, queria registrar aqui uma última passagem (p. 477). Há quase 40 anos leio e estudo Marx, assumindo sempre a condição de sociólogo marxista (aliás, em várias passagens antes do texto principal é usada a palavra "marxiana", da qual discordo). No entanto, em vastos círculos que se proclamam marxistas, há uma imensa confusão sobre o significado do termo "trabalhador produtivo" e "improdutivo", que nada tem a ver com a quantidade de peças ou serviços que um trabalhador produz em determinada jornada.
 
A relação de produtivo é exatamente quem produz o mais-valor, ou seja, como seu trabalho enriquece o patrão, detentor dos meios de produção. Só para ficarmos em um pequeno exemplo. Quando uma costureira produz um vestido para si, não fez uma mercadoria, mas o fez para seu uso pessoal. Produziu, é claro, valor, mas valor de uso.
 
Se essa mesma costureira for empregada em uma fábrica de roupas - uma proletária, como diria Marx - e produzir dezenas de vestidos para venda por dia, ela produziu valores de troca, ou seja, mercadorias, cujo resultado da venda não fica com ela, mas com seu patrão. Ou seja, ela agregou valor ao produto e ficou apenas com uma pequena parte dele, que lhe é pago trinta dias depois na forma de salário (geralmente miserável). Fiquei feliz em ler nessa nova tradução o termo "classe de trabalhadores produtivos", usada por Marx.
 
Concluo aqui de forma simples. Recomendo com entusiasmo essa nova tradução. Coerente, amplamente explicativa, clara e concisa - não há páginas sem pelo menos uma nota ou asterisco do tradutor ou outras notas -, que menciona com precisão a fonte exata nos originais ou outras obras de Marx em que a referência foi encontrada. Apesar de a obra ter 766 páginas, o conteúdo central de três seções e 21 capítulos de Marx acaba ficando em 526 páginas. As outras são prefácios e anexos finais. De qualquer forma, como se diz para quem lê muito, um belo catatau. Sei que o preço é salgado para boa parte de professores e estudantes. Mas vale a pena a aquisição desse livro. E aguardemos ansiosos pelo Livro III. Boa leitura a todos.