Autor usa a ficção para retratar a violência e a corrupção na Amazônia

01.12.2015

Revista Fórum
Leonardo Fuhrmann
Poucos minutos antes do horário marcado para a entrevista, o escritor paraense Edyr Augusto liga para o repórter para avisar que já havia chegado ao café onde a conversa havia sido marcada, nas proximidades da Avenida Paulista. Ansioso, viciado em Coca-Cola e roedor de unhas assumido, ele começa a falar sobre os temas da entrevista antes mesmo da primeira pergunta. Ainda pouco conhecido do leitor brasileiro, Edyr tem seus livros publicados na Inglaterra, França e em países da América Latina.
 
O realismo de seus romances e novelas mostra uma Amazônia pouco idílica e distante da imagem folclórica em torno na região. Suas tramas retratam a corrupção da política, das elites e das polícias, a violência e a exploração sexual de crianças, com uma linguagem rápida e direta, em que os personagens despejam suas palavras quase aos atropelos, em diálogos nos quais os autores das frases não são identificados.
 
Jornalista, diretor teatral e dramaturgo, ele mora no Centro de Belém e diz que a inspiração para muitos de seus personagens saem da convivência com os moradores dessa parte da cidade. Mas, ao mesmo tempo que mostra as mazelas, o escritor demonstra seu carinho pela região ao valorizar expressões típicas do linguajar local e citar pontos interessantes das cidades da região, além de incluir nas histórias seu time do coração, o Clube do Remo. Leia a conversa na íntegra.
 
Edyr Augusto – O primeiro capítulo de Os Éguas veio de uma tentativa de escrever uma radionovela nos anos 1990. A ideia em si não foi para frente, mas me deixou o início desse texto. Pensei na narração do assassinato porque a modernização desse formato exigiria muitos sons, já desde aquela época era assim. Então pensei em alguém que era assassinado e havia várias mensagens em sua secretária eletrônica que poderiam indicar possibilidades de investigação. As radionovelas alcançaram grande sucesso no Pará em meados do século passado.
 
Tenho uma ligação grande com o jornalismo e rádio. Meu avô criou a primeira rádio da Amazônia. Meu pai também era jornalista. De cinco irmãos, quatro temos essa profissão. Eu redijo para rádio, jornal e propaganda, além de escrever para teatro. E, claro, sou um leitor compulsivo, leio te tudo, gosto. Essas experiência fez com que a concisão da minha escrita fosse se reduzindo ao máximo. E, em Os Éguas, eu comecei a exercitar isso. E, quando eu o lancei, fiquei com vontade de escrever outro dentro do mesmo estilo. Já tinha dois que eu havia começado a escrever para me divertir.
 
No meio disso tudo, eu tive vários problemas e larguei os projetos, até que li um dia no jornal sobre os jovens que transgrediam a lei na ilha do Mosqueiro, há 40 minutos de Belém. É uma ilha fluvial, um lugar idílico, que pela influência do mar, há até campeonato de surf. Nos anos 1960 e 1970, tinha uma turma de elite que ia para lá. E, nessa altura, já havia invasões, pessoas com um menor poder financeiro. E aí começaram os problemas de violência, assaltos já nos anos 1990. Li aquilo e fiquei interessado.
 
Comecei a escrever o livro como um exercício em primeira pessoa e, quando percebi, ele já tinha cinco ou seis capítulos. E aí chamei de Moscow, que era como a garotada chamava Mosqueira. E tive muita sorte quando saiu esse segundo livro, porque o Ronaldo Bressane, o Marcelino Freire, Marçal Aquino e o Luiz Ruffato pegaram esse livro, que lancei lá na Mercearia São Pedro (na Vila Madalena, São Paulo), e saíram dizendo que era bom. Isso foi maravilhoso, pois eles elogiram para a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil, que ainda existia naquela época.
 
Por isso, eu comecei a ficar conhecido. Mas eu moro longe desse eixo Rio-São Paulo e, depois de passar três meses, ninguém mais lembra. Porque eu não estava presente nas feiras do livro em Santos, São Paulo, Campinas, etc. E esse meio, que é o maior mercado editorial do Brasil, tem muita agitação também. Também tive a felicidade que a minha editora, a Ivana Jinkings, sempre me apoiou bastante, desde o primeiro livro. Ela é paraense, mas eu não me lembrava dela. A Ivana é um pouco mais jovem do que eu e o pai dela era um grande comunista e livreiro do Pará.
 
A livraria dele era uma referência e ele foi uma grande pessoa. E aí eu li uma notícia que a Boitempo havia ganho um Jabuti, em 1996 ou 97. E eu estava com Os Éguas pronto e sem ter como publicar. Aí mandei uma carta ou um e-mail, nem lembro se já usava isso na época. Ela me explicou que a editora era pequena, que publicava mais ensaios, fazia debates, mas ficou de ler o meu material. E só recentemente ela me contou que leu e gostou muito, mas que ficou na dúvida se havia criado uma afinidade por nós dois sermos do Pará e ela ter se visto muito naquele lugar ou se o livro era bom mesmo.
 
E aí ela teve de mandar para outras pessoas para que analisassem também. E ela veio me apoiando o tempo todo de lá para cá. Criava aquela expectativa de que o livro vai acontecer, o Nelson Oliveira escreveu o prefácio para um livro de contos meus, Um sol para cada um, que só faltou me colocar no céu. E aquela expectativa de agora vai. Bate na trave e não acontece nada. Aí, eu tenho o Casa de Caba lançado na Inglaterra e depois foi vendido para uma editora francesa. Eu sei que um ano depois, uma universidade chamada Jean Moulin, de Lyon, que anualmente escolhe quatro livros de algum país que tenham sido traduzidos para o francês para estudar durante três meses.
 
E, depois, professores e alunos dão suas opiniões sobre qual deles acham melhor. É algo absolutamente subjetivo, é claro, e eu ganhei inexplicavelmente de autores com muito mais fama e uma carreira mais desenvolvida. Foi muito surpreendente, porque eu sou lá do Pará. Aí, quando fui para o Salão do Livro de Paris, neste ano, eu fui depois para Lyon, onde fui recebido na porta pelo reitor e depois em um auditório cheio de gente. Aí você fica meio sem graça, porque começa a se preparar para responder perguntas. Pois, até então, eu escrevia e estava acabado.
 
Fórum – Como o sucesso na Europa impulsionou sua carreira literária aqui?
 
Edyr – E depois eu participei Quais du Polar, um prêmio específico de literatura noir com a presença do John Grisham e todos aqueles grandões lá. Depois lançaram também o Moscow com muito sucesso. E agora lançaram lá o Casa de Caba e já compraram os direitos do Pssica. Então, eu vou estar com quatro livros lançados lá na França. Isso é uma coisa muito bacana. E os dois primeiros, que são pequenos, foram lançados juntos em livro de bolso. Aí acontece algo que é muito de mercado no Brasil: o cara aqui de São Paulo diz “pô, o cara é premiado lá na França, eu vou ler essa merda para saber qual que é”.
 
Aí começa a acontecer uma bola de neve com esse Pssica, que até agora estou meio tonto. E, para você ter uma ideia de como é o Brasil, eu fui na Bienal do Livro lá do Recife com o Leonardo Padura (escritor cubano) e eu tive que dizer para os leitores que nós morávamos relativamente perto, mas eles não me conheciam. Você ganha uma receptividade maior de fora para dentro. Na semana passada, eu estava em Caiena, na Guiana Francesa, no Salão do Livro de lá, metade de falantes de língua portuguesa e outra metade francesa. Tinha gente do Haiti, da martinica e de lá. E ainda falavam dos livros passados, pois o Pssica ainda não saiu lá.
 
Fórum – E você havia retratado a exploração da prostituição infantil lá, né?
 
Edyr – E acontece mesmo. Eu conversei com um rapaz lá, que é paraense e mora em Caiena faz muito tempo, e ele me disse que fazia dez dias que havia conversado com uma escrava sexual lá. É algo que tem casos de fato. Eu estava para escrever esse Pssica fazia uns dois anos, com preguiça, mas aí veio a Ivana para me cobrar. Dizendo que estava na hora de lançar algo novo. E eu vinha colecionando recortes de jornal sobre os ratos d’água, piratas comuns na região amazônica, e também sobre essas meninas, que chamam lá de escravas brancas. Eu peguei aquele universo e comecei a colocar os personagens.
 
Um amigo meu chegou e me mostrou no celular uma menina transando com o namorado. Isso aconteceu na minha rua. A menina chegou no colégio e todo mundo ria dela. O pai deu-lhe uma surra. Pensei nessa situação como o começo da história. Dessa menina que, a partir de algo desagradável que acontece na vida dela, ela mergulha numa espiral descendente terrível. O angolano é um engenheiro de som que eu conheço. Ele fugiu da guerra, é branco e mora lá no Pará há muito tempo. E, ao mesmo tempo, eu havia localizado uma cidade, nem lembro qual era, em que havia uma venda em beira de rio atacada pelos ratos d’água.
 
E aconteceu aquilo tudo narrado no livro. O dono da venda atirou, matou um dos bandidos e eles levaram a mulher dele e a esquartejaram no meio do rio. Pensei: “caramba, eu vou trabalhar com essas duas coisas”. Coloquei de pano de fundo algo absolutamente verdadeiro, que acontece o tempo todo. Esses ratos d’água são muito violentos, eles usam isso para criar um medo total nas vítimas. Vão para cima de mulheres, inclusive grávidas, fazem coisas terríveis com maridos e esposas.
 
E há também uma questão de sequestro de cargas. O dono da carga ganha o seguro e depois recompra o material levado por um preço menor. Eu tenho uma facilidade em mostrar esse mundo todo pois moro no centro de Belém. É uma cidade de muitas fases. Primeiro, era portuária, 40 consulados lá trabalhando, produtos vindos diretamente de Paris e Londres, óperas, o Teatro da Paz é uma réplica menor do Scala de Milão. Depois, na II Guerra Mundial, quando já havia avião, os aliados fizeram uma ponte lá, para depois ir para Natal (RN), de onde seguiam para a África.
 
Tem as descobertas das riquezas, nas décadas de 1960 e 1970, quando milhares de pessoas correm para lá na expectativa de ficarem ricas com o ouro, esmeraldas e metais estratégicos. Mas ninguém consegue e elas acabam cercando a cidade como um cinturão de pobreza enorme. E a cidade não sabe como reagir a isso. E, no centro da cidade, você encontra essa turma toda. Debaixo do meu prédio, eu trabalho há 300 metros da minha casa, e diariamente converso com traficantes, prostitutas, cafetões, engraxate, tem um rapper que anuncia um show que nunca acontece. Você tem uma gama de figuras, taxistas. Eu ouço eles, aqueles camelôs vendendo coisas absurdas, que passam os dias jogando cartas. Isso forma o meu universo. A maneira com eles falam, a cadência e a melodia.
 
Fórum – No que a ficção ajuda a contar sobre essa violência?
 
Edyr – A questão desses fatos que eu falei para você, por exemplo, estão nos jornais como uma reportagem. Mas, quando você coloca a ficção no meio, é como se fizesse o leitor entrar dentro daquele ambiente para que ele perceba a dimensão daquilo. A minha alma de jornalista também fala quando estou como que denunciando com um pano de fundo as notícias que as pessoas leem assepticamente no jornal.
 
Em um fim de semana, morrem 30 pessoas na região de Belém. E isso está no jornal, mas parece que as pessoas estão anestesiadas. Ainda cobre o rosto do sujeito, mas o sangue aparece escorrido pelos lados. Isso está lá, mas quando você coloca a ficção no meio, ainda da forma como escrevo, é como se convidasse o leitor para entrar naquele ambiente e ficar olhando, ofegante, pensando: puta-que-pariu. E, ao término de cada capítulo, ele quer continuar a leitura.
 
Fórum – E a imprensa não consegue chegar até esse ponto por quê?
 
Edyr – Na minha terra tem muito isso de não falar sobre isso, é desagradável tocar nesse assunto. Atualmente temos os dois jornais de Belém, eu sei porque escrevo crônicas em um dele, totalmente corrompidos por estarem brigando politicamente por dinheiro. Então, a verdade foi para as cucuias. Cada dia eles vêm com uma manchete absurda e os problemas se reais se perdem nessa confusão. Você tem muito o jogo lá de “não pode falar sobre isso”, “não escreva sobre aquilo, que você não pode”. Teve um sujeito que escreve umas crônicas muito boas e teve uma delas que perturbou a direção do jornal. E eles disseram que não queriam que ele tocasse mais naquele assunto. O cronista disse que pararia de escrever então. E eles responderam: então tá. Acho que, quando surge o romance, ele mostra isso para as pessoas. Isso é legal.
 
Fórum – A corrupção política e as relações dela com o poder econômico também parecem bastante presentes. Por quê?
 
Edyr – Casa de Caba foi muito isso, porque o personagem vira governador do Estado.
 
Uso muito os jogos políticos, as atividades dos secretários. São coisas que você não pode falar claramente em uma reportagem. Na ficção, vamos lá. Eles são críveis. Lá na Franças, eles dizem que eu escrevo “polar” ou “noir”. Para mim, eu escrevo sobre as pessoas comuns, atingidas por fatos gravíssimos e deixam sua zona de conforto, largam os escrúpulos de lado e precisam resolver. Você imagina o pior que pode acontecer e não tem como ficar passivo. É nesse momento o início das minhas tramas.
 
O caso do angolano, por exemplo. Os caras retalharam a mulher dele a troco de nada. Veja o caso da menina que, por conta de uma cena de sexo, acaba destruída. Aí me dizem que eu mato os personagens, inclusive os que os leitores gostam. Mas, até o momento, eu não escrevo para ter finais felizes. Não são interessantes para dizer que o mundo precisa manter a esperança, ou algo assim. Eu escrevo o que a história e me diz e no tamanho que ela tem. Eu mato os personagens porque o mundo é assim, caralho. Não podia dizer: “pô, esse cara é bacana, vou salvar ele”. Não consigo.
 
Quando começo a escrever, tenho a primeira cena e algum encaminhamento, mas não sei o que vai acontecer. O momento de escrever é um período que você se enamora por aquele livro. Você faz outras coisas, mas pensa no momento em que vai escrever. Faz um esqueletozinho do capítulo, mas daqui a pouco isso vai para as cucuias. O bacana da história é como você vai seguindo. E, para mim, o livro diz de repente o momento de terminar. Aí, você vai e fecha.
 
Revista Fórum – Por que seus personagens parecem não ter saída?
 
Edyr – O Portuga continua, com um novo amor que não era aquilo que ele sentia pela mulher assassinada. Mas eu não podia fazer a menina, com o histórico de ser destruída pela prostituição forçada, retornar como uma grande heroína depois de tudo pelo que passou.
 
Fórum – Como essa situação social entra na sua literatura?
 
Edyr – Eu nasci em Belém, sou totalmente paraense, mas as razões políticas do nosso Estado são terríveis. Você imagina um Estado que é potencialmente o mais rico do Brasil e economicamente é um dos mais pobres. Temos lá nossas minas, que já estão virando um buracão, e os caras aumentam a produção para acabar com aquilo mesmo. E não vai ficar nada.
 
Quer dizer, vai ficar só uma pontinha para uns e outros. Aí nós temos problemas sociais e econômico terríveis, contrastes absurdos. Gente que passa final de semana em Miami, anda de Porsche e mora em palácios maravilhosos, mas, quando coloca o pé na rua, pisa na lama. Porque é egoísta, não quer deixar nada. Não contribui em nada para a cidade. E uma classe política absurda. É claro que isso me incomoda, me afeta no dia a dia e acaba saindo nos meus livros.
 
Revista Fórum – Como você concilia essa crítica com uma ligação com os lugares de Belém?
 
Edyr – Meu primeiro leitor é a cidade. É o que eu quero. E somente agora que isso começa a acontecer de verdade. Começa na França, vem para São Paulo e agora o Pssica está vendendo horrores lá em Belém. Quero que as pessoas se reconheçam nas ruas, meu primeiro público está lá. Tenho amigos que passam por determinados lugares e dizem que é como se estivessem vendo determinadas passagens dos meus textos. Isso é bom.
 
E, ao mesmo tempo, eu quero apresentar um novo cenário para as pessoas de fora. Todos os romances urbanos, praticamente, falam de Rio ou São Paulo. A aí você lê livros que o cara conta como são as coisas em New Orleans. Vamos poder ser Belém, mas não essa cidade tropical de papagaios e tucupi. Você não acha tucupi, tacacá e maniçoba nos meus livros. É Belém ou, como alguns chamam lá, Belhell.
 
Fórum – Por que você usa termos locais logo no título de seus livros?
 
Edyr – É uma provacação. Quando lançaram Os Éguas, ligaram da Livraria Cultura para a editora dizendo para parar tudo pois havia um erro grave na capa, que não era Os Éguas, mas as éguas. Você já sabe, né? O cara é um égua porque ele não vale nada. Se me lembro bem, eu quis fazer isso na linha do Jorge Amado. Percebi que ele usava nomes como Jubiabá para chamar a atenção para a cultura dele. Achei que também estaria instigando as pessoas se colocasse essas expressões locais no título dos meus livros.
 
Mas eu tenho um erro, não sei se é um erro, vai, são coisas que acontecem. Meu pai foi um grande jornalista e o nome dele era Edyr Proença. E meu nome é Edyr Augusto Proença. Quando comecei a escrever no jornal, assinava Edyr Augusto para não confundir com ele. Por isso, passei a ser chamado inclusive nos outros países de Edyr Augusto. Preferia Edyr Proença, mas agora virou Augusto e está acabado. O nome virou sobrenome.
 
Fórum – Como você construiu esses diálogos em que não identifica claramente quem está falando cada uma das frases?
 
Edyr – Aquilo ali é, quando estou escrevendo – eu criei a imagem por esses dias – estou sozinho no meu apartamento e tenho a exata sensação que atrás de mim está todo pessoal lá de baixo, da rua, me cutucando, me pisando. E eu quero dar uma velocidade para a cena, que não posso deixar aquilo organizado. A pressa que me dá esse maremoto. É a velocidade da cena. Quanto menor for a minha frase, melhor. Aí, quando estás lendo, tu já entendes esses personagens e sabe como eles falam.
 
Aí, você já percebe quem está dizendo cada coisa. É uma maneira também de alcançar os mais jovens, que hoje falam com uma linguagem bem telegráfica. Fiz isso para ser muito intenso. Às vezes, eu troco o tempo do verbo e você vai junto. Essa velocidade de leitura me interessa muito, além dessa coisa seca, que não julga. Só diz: “faz, faz, faz…”. Eu escrevo muito rápido, assim como deve ser o seu caso por ser jornalista também.
 
Escrevo como se estivesse vendo aquilo acontecer numa tela. Aquilo está passando na minha cabeça. E eu vou rápido, é algo que faço com facilidade. Podia dizer que foi algo construído, muito arquitetado, mas surgiu assim mesmo. Tu não achas, num momento de crise, pessoas que dizem “eu acho que isso, por causa daquilo …”. É tudo meio atropelado e eu coloquei isso no texto. É um estilo que deixei bem claro no Moscow e penso que agora, no Pssica, está cristalizado.
 
Fórum – Você se incomoda em ser visto como um autor policial?
 
Edyr – Nenhuma. Eu adoro, sou um leitor obsessivo. Gosto muito de literatura policial. Adoro meus colegas que escrevem aqui no Brasil, além de James Ellroy e muitos outros. São heróis. E isso acaba forçando um estilo de escrever diferente. Eu não me sinto escrevendo romances policiais porque não consigo definir. Acho que escrevo histórias fortes. É difícil colocar um selo, porque é algo que nunca busquei.
 
Tem escritores brasileiros que estão fazendo sucesso com literatura fantástica, medieval, esses monstros e tal. Você percebe que eles encontraram um filão e estão trabalhando. Parabéns. Não é meu caso. Meu próximo livro já está rodando na minha cabeça, mas eu não sei ainda o que vai acontecer. Tenho duas ou três histórias, mas não sei. Só quando eu pegar para saber. Deve ser sobre cassinos clandestinos em Belém, que movimentam muito dinheiro. Mas ainda não deu liga, acho que vou pensar nisso no ano que vem.
 
Fórum – Mais uma vez você vai trabalhar com realismo?
 
Edyr – Você trabalha com um fato real, que é escondido e ninguém fala. Aí, coloca ficção no meio para introduzir aquele assunto.
 
Fórum – Por que você coloca várias vezes seus personagens para narrar a própria morte?
 
Edyr – Essa proximidade é uma coisa. O investigador, coitado, não teve nem como saber como ia acontecer a morte. Quando se fala em narrar a própria morte, eu lembro do final do Moscow, não sei se tu leste, o cara absurdamente vai escapar depois de tudo que ele preparou e o pior é que você torceu para ele escapar. Mas, quando está fugindo no meio do mato, ele vê uma criança. E como o personagem tem uma perturbação, ele vai pegar a criança para fazer mal a ela quando conseguem pegá-lo e amarrá-lo numa árvore, onde o matam. E ele narra isso. Mas não tenho uma explicação lógica para colocá-los para narrar a própria morte.
 
Fórum – Mas quebra um pouco da narrativa tradicional, não?
 
Edyr – É também porque fomos acostumados a finais felizes. E sempre pensamos que o personagem vai escapar. Nós queremos salvar as pessoas. Mas a vida não é assim, né? Eu leio muito Caderno Policial. No Selva concreta, tem um sujeito que caminha em um domingo de manhã pela rua carregando um fardo pesado e pede ajuda para um morador de rua. O cara se nega a ajudar e o outro joga aquele fardo em uma dessas caçambas de lixo. Era uma mulher que ele tinha assassinado. Aí, começam a mandar bilhetes para o jornal.
 
E tem um repórter, que era também escritor, que passa a escrever sobre sacrifícios relacionados à religião e essas histórias. E começou a desenvolver a trama no jornal. Até que descobriram o assassino por causa de um telefonema. Eu ficcionei a partir disso. Na minha história, ele era um calígrafo e escrevia no corpo das mulheres. No alto, havia uma espécie de janela, da qual as pessoas interessadas olhavam ele torturá-las. E, quando vão pegá-lo, ele acaba entrando em um bairro populoso e acaba atropelando um sujeito, que consegue sobreviver.
 
E a vítima era um traficante que estava fugindo em uma outra história que se cruza. E os dois acabam juntos em um barracão, cercados pela polícia. E o cara que ia matar o traficante está na porta esperando. E ele recebe um chamado que é para matar o calígrafo, porque a turma que acompanhava os crimes lá de cima era importante. As histórias começam a mergulhar. É a mesma cidade, são os policiais. Sou meu primeiro público, me divirto com isso tudo. Já me perguntaram como eu consigo dormir depois de escrever essas histórias todas. E eu respondo que estou apaixonado pelo meu livro naquele instante. Quando estou escrevendo, você pode me insultar que nem ligo, estou ótimo.
 
Fórum – Como você trabalha a matéria-prima dessas histórias?
 
Edyr – O escritor é um vampiro. Você conta umas histórias e ele pega a que lhe interessa. O Haroldo Maranhão, que é um dos maiores escritores do Pará e já morreu, dizia que ele era como um cão hidrófobo que saia pelas ruas a procura de uma vítima. Minha mulher, quando ela ainda não era casada comigo, estava sozinha em uma casa. Era uma história de outro casamento. Ela estava em uma casa que eles tinham numa ilha chamada Outeiro, na beira d’água, mas cercada muitas invasões.
 
Aí um grupo invadiu a casa e fez ela refém. Eles tinham quatro cachorros imensos, que não fizeram nada. Depois de se assustar com os gritos de uma cadela dela, ela correu para a janela e pulou do segundo andar. Na queda, ela fraturou um osso, mas conseguiu correr até a casa do vigia e, por isso, não aconteceu nada com ela. De outra forma, essa história está num livro meu.