Belém do Pará, cidade proibida

08.01.2016

Suplemento Literário de Minas Gerais
Marcelo Miranda
De escrita frenética e criador de tramas violentas ambientadas em sua terra natal, o escritor paraense Edyr Augusto aprimora estilo em Pssica, seu quinto romance, e é revelado ao Brasil depois de se tornar fenômeno na França
 
“Janalice passa o dia zanzando pelo centro da cidade. Mexe em um tabuleiro de camelô quando outra garota lhe toca o ombro. Compra esse, não. Ali tem um freguês meu que te cobra mais barato. Um brinco. Gosta? Gosto, mas o dinheiro não dá. Flávio, põe na minha conta. Não, não precisa. Eu quero. Um presente. Mas. Deixa eu botar. Ficou lindo. Vamos. Como é teu nome? Dionete. Minha mãe brigou comigo porque eu queria tomar banho quente e ela não
queria. Aí minha tia entrou na discussão e já viu. Você mora aqui perto? Ali na Ó de Almeida, e tu? Logo ali. Tá vendo? Naquela casa. Elas não gostam de mim. Vivem me zoando. Eu preciso de uma amiga. Quer ser minha amiga? Mas tu não sabes nem meu nome. Qual é? Janalice. Prazer, Dionete.”
 
Este pequeno trecho das primeiras páginas de Pssica (Boitempo Editorial, 95 páginas) é um breve exemplo do estilo e da poética de Edyr Augusto. O escritor paraense, nascido em 1954 e autor de 16 livros (entre crônicas, poesia, teatro e prosa), lançou seu quinto romance em 2015 e só então ganhou destaque na imprensa brasileira. Apesar de ter estreado em 1998, com o perturbador Os Éguas, Edyr permanecia anônimo para centenas de leitores, que desconheciam
o trabalho do autor residente em Belém e criador de tramas violentas, ritmo frenético e situações ambientadas na capital do Pará e arredores. Foi preciso que o exterior descobrisse a literatura de Edyr para que o Brasil enfim o percebesse.
 
Desde 2013, Edyr Augusto é um fenômeno de crítica na França. A tradução de Os Éguas por lá se chamou Belém e causou frisson nos meios literários, com elogios em diversos veículos de imprensa. Em março de 2015, o livro foi agraciado com o prêmio literário Chameleon, da Université Jean Moulin, por ser considerado o melhor romance brasileiro contemporâneo traduzido para o francês. Na disputa, o livro de Edyr superou trabalhos de Milton Hatoum, Adriana
Lisboa e Frei Betto.
 
Moscow (2001) e Casa de Caba (2004), outros dois romances de Edyr, também ganharam versões recentes em francês. Junto à repercussão de Os Éguas, os títulos fizeram o paraense aparecer na lista dos “seis autores incontornáveis da literatura brasileira”, como noticiou o jornal 20 Minutes em matéria sobre o 35º Salão do Livro de Paris. Ao lado de seu nome, os outros cinco citados eram Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Milton Hatoum e Luiz Ruffato.
 
Expoente de uma literatura policial original e inovadora, tanto na linguagem quanto no universo onde ocorrem as tramas, Edyr Augusto conversou com o Suplemento Literário sobre seu processo de criação, o dia a dia em Belém como fonte de inspiração, algumas referências literárias e a “pitada de sorte”, entre outros fatores, a que ele credita sua receptividade na França.

Confira a entrevista completa e o conto "Fale, garoto", na edição nº 1357 do Suplemento Literário de Minas Gerais.