Entre as fronteiras do Norte

02.01.2016

Carlos Andrei Siquara
O Tempo
2015 foi um ano marcante para a trajetória literária do paraense Edyr Augusto. No primeiro semestre, ele conquistou, na França, o prêmio Caméleón de melhor romance estrangeiro com o seu primeiro livro Os Éguas (1998), rebatizado Belém na versão francesa. Ele se sagrou vencedor do certame que contemplava também obras de outros brasileiros, como Milton Hatoum, Adriana Lisboa e Frei Betto.
 
Além disso, o autor publicou o seu sexto título, Pssica, aclamado como um dos lançamentos mais relevante dos últimos 12 meses. Essa receptividade levou à necessidade de uma segunda edição da narrativa que aborda questões contemporâneas, como o tráfico de mulheres, a violência e o roubo de mercadorias espalhados pelos rios localizados na região Norte do país e a imigração, por meio de uma trama de tom policial.
 
Feliz com a repercussão desse trabalho, Augusto conta estar amadurecendo um novo projeto literário que deverá seguir orientação semelhante, mas desta vez buscará abordar o universo dos jogos clandestinos. “Essa é uma proposta que está funcionando na minha cabeça, mas não há nada ainda definitivo. Uma ideia poderá ser percorrer desde as partidas travadas no fundo dos postos de gasolina até as apostas e disputas que envolvem as pessoas da alta sociedade. Talvez eu encontre nisso um filão para ligar esses mundos”, afirma.
 
Por enquanto, ele conta estar aproveitando o sucesso de Pssica, que tem sido responsável por difundir melhor o seu nome entre os leitores brasileiros. Para Augusto, essa projeção mais recente reflete também alguns entraves à circulação da produção de autores fora do eixo Rio- São Paulo. Ele observa, por exemplo, que o interesse pela sua escrita aqui demorou para acontecer, se comparada com o tipo de atenção obtida em outros países, como a França.
 
“Todos os meus livros anteriores caminham na direção de Pssica, possuem o mesmo estilo, mas eu noto que é muito difícil quebrar uma espécie de barreira no Sudeste, onde está contemplado o maior consumo e os maiores meios de comunicação também”, afirma ele, ressaltando em seguida que emvbreve terá, ao todo, quatrovvolumes traduzidos para o idioma francês.
 
“No Brasil, parece que alguns críticos só se interessaram a ler o que faço após eu ter sido premiado no exterior. Por outro lado, eu compreendo que eles recebem muitos livros de editoras mais fortes e com títulos atraentes. Então, para se retirar de um bolo de livros algum feito por um autor do Norte é preciso ter uma curiosidade maior”, diz.
 
Apresentado numa escrita enxuta e quase telegráfica Pssica, pontua Augusto, é fruto do mesmo processo que o levou a suas ficções anteriores. Mas nesse, especificamente, ele deu prioridade à abordagem de dois principais temas: a atuação de grupos chamados ratos d’água, que saqueiam barcos na região amazônica, e o tráfico de pessoas. “A região tem muita capilaridade de rios, que são como as nossa ruas. Os ratos d’água praticam ali atos de muito violência e eu achei que deveria mexer com isso.
 
Fiquei em cima desse assunto durante dois anos, reunindo todo o material que saía na imprensa. Outra questão que escolhi tratar foi essa do tráfico de escravas brancas. Em Belém, como outras capitais do Brasil e do mundointeiro, acontece esse tipo de crime, que é uma coisa terrível, mas a sociedade parece não querer lidar muito com isso. Por isso resolvi me dedicar a esse tema e sobre ele eu também colecionei várias reportagens”, relata.
 
O resultado é uma história bastante marcada pela cor local dos cenários localizados na porção Norte do país. “Eu visitei regiões porque eu percebi que esse tráfico se dá por meio de três principais formas: o rapto, o aliciamento de meninas pobres e por meio de uma terceira via que talvez seja a pior que é a prática da venda das filhas por comida, o que acontece muito na ilha de Marajó”, pontua.
 
Esses fatores, de acordo com ele, o conduziram ao livro, e um episódio conhecido em Marajó serviu como o “start” da obra. “Lá, eu soube do vídeo de uma adolescente que brigou com o namorado e ele postou uma cena dos dois fazendo sexo. No dia seguinte, ela foi vítima de risos no colégio e levou uma surra do pai ao chegar em casa. A partir disso eu vi que havia encontrado ali os elementos para criar uma personagem que é expulsa de casa e deixa de ser a rainha da escola, descendo vários degraus até alcançar a condição de escrava sexual”, conclui.
 
Jornalista, escritor e dramaturgo, Edyr Augusto se dedica a esses diferentes ofícios e leva experiências e particularidades conectadas a cada um deles para a sua escrita de ficção. No caso do romance Pssica, por exemplo, o envolvimento com o jornalismo foi relevante, especialmente durante o processo, enquanto o autor reunia material informativo e estudava os temas abordados na narrativa de cunho policial.
 
“Isso é inevitável. Como eu sou jornalista, eu penso que mesmo nos meus outros livros há de fato um tom de denúncia de uma situação terrível. Em Pssica há esse olhar para o tráfico de pessoas, algo que se passa, sobretudo, no Marajó, mas também em Belém. A questão da posição geográfica do Estado favorece a saída de mulheres vendidas como escravas para outros países e, sem dúvida, quando trato disso, minha percepção como jornalista está
muito presente”, diz.
 
De acordo com ele, essa obra, como os títulos anteriores, surge a partir de um procedimento frequente em que ele encadeia os fatos aos poucos, numa espécie de sequência determinada pelo próprio ritmo da história. “Como nos meus outros livros, eu criei uma história e deixei os fatos seguirem. Eu não tenho, assim, muito domínio sobre a narrativa, mas escrevo costurando alguns fragmentos. A história vai se desenrolando mesmo no momento em que estou escrevendo, como se eu estivesse vendo numa tela tudo que vai acontecer”, explica.
 
Essa característica parece se refletir na literatura de Augusto que conduz o leitor a ter contato com diferente paisagens construídas por meio de sucessivos quadros. A concisão e a relação com a linguagem cinematográfica, inclusive, já rendeu a ele alguns convites para adaptar seus títulos para o cinema.
 
“Muita gente comenta essas características presentes na minha escrita. Isso é resultado de uma mistura de todas as minhas atividades. Eu trabalho com jornalismo no rádio, na TV e também trabalho com teatro, o que pode me ajudar na construção de diálogos ágeis. A coisa da concisão eu noto haver desde o meu primeiro livro e está bem cristalizado em Pssica”, diz o paraense.
 
Augusto observa que a escrita condensada e ausente de recursos como travessões para separar as vozes dos personagens, em Pssica reflete, por sua vez, boa parte da dinâmica das interações notadas por ele no mundo de hoje.
 
“Eu penso nesses jovens que brincam nesses videogames e têm milhões de decisões a tomar no jogo. Eu acho que quando encadeio a sequência das ações e não coloco travessão nos diálogos, ali eu já fisguei o leitor e penso que naquele momento ele já percebeu quem está falando e já imaginou aquele personagem na velocidade da cena. Eu busco deixar o leitor ofegante, como quem está à espreita, assistindo tudo o que se passa. Acho que isso faz com o que o leitor, ao invés de ler um capítulo por dia, antes de dormir, não durma antes de conseguir chegar até o final”, frisa.