O homem que amava os cachorros

23.01.2016

Blog do Kennedy
Daniela Martins
Romance de Leonardo Padura questiona os limites do idealismo
 
A trama que conduz o livro é real e conhecida: o exílio e o assassinato de Trotski no rastro dos expurgos de Stalin para assegurar o poder total da União Soviética. E é justamente o fato de trabalhar com dados históricos que torna o talento de Leonardo Padura ainda mais evidente. O autor consegue segurar a atenção de leitores que já sabem quem morre no final, quem mata e os motivos do crime.
 
Apesar de tratar de situações verídicas e de estar apoiado por sólida pesquisa, a atmosfera envolvente do romance jamais perde para o factual. É boa literatura mesmo. Padura oferece um retrato tão humano e palpável dos personagens que fica difícil deixar o livro descansar na mesa de cabeceira.
 
A narrativa se desenvolve em três planos diferentes. Em um deles, acompanhamos Trotski nos anos de exílio, sempre preocupado em expor ao mundo os graves desvios ideológicos que Stalin impunha aos ideais da Revolução Socialista.
 
Em outro plano são apresentadas a origem e a formação do jovem revolucionário espanhol Ramón Mercader, que, ávido por encontrar um papel de protagonismo para justificar sua vida em meio à guerra civil que assola seu país, acaba sendo selecionado pelo agente soviético Kotov para a missão secreta da eliminação de Trotski.
 
O terceiro plano acontece em Cuba, nas últimas décadas do século XX, quando um senhor enigmático chamado Jaime López conta os pormenores do assassinato do líder da Revolução de Outubro a Iván, um jovem jornalista desencantado, que havia abandonado o desejo de ser escritor por medo da censura do governo.
 
O trabalho do autor na alternância desses planos narrativos é realmente digno de elogio.
 
Ainda que esteja ancorado sobre uma história real, O homem que amava os cachorros está longe de ser simplesmente um livro sobre o assassinato de Trotski. O coração do livro é um questionamento de fundo, sempre presente: o que significa realmente abraçar e lutar por uma causa?
 
Daí sairão perguntas que acompanham tanto os leitores quanto os próprios personagens todo o tempo: até que ponto seria legítimo defender um ideal? A utopia vale mais do que a vida? Qual seria o limite ético e moral para esse tipo de decisão: a sua própria vida, a vida de sua família, a vida de seus companheiros, a vida de muitos desconhecidos, a vida de seus inimigos? Como precisar a linha fina que separa o idealismo do fanatismo?
 
Se Trotski fica chocado vendo a facilidade com que Stalin elimina seus oponentes, como distorce os fatos e lança mão de falsas acusações para se manter no poder, também é verdade que esse mesmo Trotski sempre “pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem até ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução”.
 
A certa altura, todos os personagens questionam suas escolhas e decisões. Ao receber a notícia da morte de sua filha, Trotski “sabia perfeitamente que a vida terrível de Zinuchka, e agora a sua morte com apenas trinta anos, eram fruto da sua paixão política, da sua decisão de protagonizar a salvação das grandes massas enquanto atirava para a fogueira o destino de seus entes mais próximos” e reflete: “Um revolucionário teria o direito de abandonar o combate? A vida dos seus filhos pesava mais do que o destino de toda uma classe, que uma ideia redentora?”.
 
Depois de anos exilado, Trotski sente o peso da solidão e entende que esse é o preço a pagar por uma entrega tão profunda a seus ideais políticos, “mas nem por isso deixava de lamentar profundamente as perdas de amigos pelas quais tinha sido culpado pelo seu fundamentalismo quando, cego pelo brilho da política, não foi capaz de compreender a diferença entre o circunstancial e o permanente. A armadilha mais insidiosa, dizia para consigo, tinha sido transformar a política em paixão peremptória, como ele fizera, e permitir que as exigências desta o tivessem cegado a ponto de levarem-no a colocar-se acima dos valores e das condições mais humanas”.
 
Ramón, por sua vez, aceita trocar sua vida pela missão secreta. Abre mão da sua identidade, do seu passado, dos seus amores, de sua própria filha. Concorda em ser treinado para enganar, incentivado a nutrir um ódio inquestionável por aquele que será seu alvo, a acreditar em mentiras, a obedecer cegamente. Deseja lutar por um mundo mais justo e quer ter um papel importante, mas acaba como um peão que se move pelo tabuleiro sem domínio algum sobre a estratégia do jogo.
 
Separado de Africa, a mulher por quem sempre fora apaixonado, Ramón pensa que aquela “era uma mutilação, mais uma das muitas que tivera de sofrer para chegar ao ponto obscuro de sua vida em que se encontrava: sem passado, sem presente, com um futuro que dependeria das decisões de outros, dos rumos intangíveis da história”.
 
E, quando se aproxima o momento de cometer de fato o crime para o qual havia se preparado, ele diz a Kotov, seu mentor, que “gostaria de ser o Ramón que era há três anos, antes de começarem as mentiras. Gostaria de poder entrar naquela casa e dar cabo da vida de um traidor renegado, tendo certeza de que o faria pela causa. Agora não sei onde começam a causa nem as mentiras”.
 
E quanto a Stalin? Este sabia que, para manter o poder absoluto, precisaria empreender uma luta infinita. Como avalia Trotski, “a guerra de morte não era contra a oposição, mas contra a história. Para fazê-la como se deve, Stalin teria de matar todos que conheceram Lenin, todos que conheceram Liev Davidovitch e, evidentemente, todos que conheceram Stalin […] Tinha de silenciar todos que tinham sido testemunha de seus fracassos, do genocídio da coletivização, da loucura assassina de suas obras e seus campos de trabalho […] E depois teria ainda de expulsar do mundo os que o tinham ajudado a aniquilar a oposição, o passado, a história, além das testemunhas incômodas”.
 
Caberá a Iván, o escritor cubano, fechar o século aberto pela Revolução Soviética e unir as histórias desses personagens. Iván também viu de perto uma revolução em seu país, acreditou em seus ideais e acabou atropelado pelo medo. Renunciou ao desejo de ser escritor quando confrontado com a impossibilidade de exercer seu ofício com liberdade. Mas desistir de escrever tampouco o tornou livre, pois ficou preso em uma curva da história que não fazia mais sentido para ele.
 
Quando Iván acompanha a última parte da narrativa do misterioso Jaime López, no ano de 1983, percebe o desencanto que cai sobre o final da vida do velho comunista sem saber ainda que toda a União Soviética viria abaixo na década seguinte e que Cuba entraria em colapso econômico. Tempos muito mais sombrios ainda estavam por vir.
 
Mesmo assim, Iván consegue identificar que o relato de López “era a crônica do aviltamento de um sonho e o testemunho de um dos crimes mais abjetos já cometidos, porque não atingia apenas o destino de Trotski, ao fim e ao cabo antagonista naquela luta pelo poder e protagonista de vários horrores históricos, mas o de muitos milhões de pessoas arrastadas – sem que o tivessem pedido, muitas vezes sem que ninguém jamais tivesse lhes perguntado seus desejos – pela ressaca da história e pela fúria de seus patrões – disfarçados de benfeitores, de Messias, de eleitos, de filhos da necessidade histórica e da dialética inelutável da luta de classes”.
 
Iván verá a si mesmo, nos anos seguintes, exatamente no papel dos arrastados pela ressaca da história. Ele passará fome, sentirá medo, desistirá de seus sonhos, perderá pessoas queridas, será dominado pela depressão. Sentirá compaixão por Ramón e se punirá por esse sentimento.
 
O próprio Ramón terminará sua vida se debatendo entre a autocomiseração e a culpa. Ele foi um crente, é verdade. Mas foi também um agente de seu próprio destino, pois “atravessara, satisfeito, o umbral do inferno, convencido de que deveria existir a morada das trevas para que houvesse um mundo de luz”.
 
É exatamente nessa dimensão humana profunda que trabalha Leonardo Padura, corajosamente.
 
Ao final, é Daniel, um cubano mais jovem, que só viveu a parte do desencanto, num tempo já distante do idealismo que moveu os revolucionários, quem lê os escritos de Iván sobre as figuras remotas de Trotski, Stalin, Ramón, Kotov, Caridad, López, Africa.
 
Daniel não tem dificuldade alguma para resumir aquele drama que tanta dor e tanta dúvida causou ao amigo: “Que Trotski vá para a puta que o pariu se, com seu fanatismo de obcecado e seu complexo de ser histórico, não acreditava que existissem as tragédias pessoais, mas apenas as mudanças de etapas sociais e supra-humanas. E as pessoas? Algum deles pensou alguma vez nas pessoas? Perguntaram-me, perguntaram a Iván, se concordávamos em adiar sonhos, vida e todo o resto até que se evaporassem (sonhos, vida e o raio que o parta) no cansaço histórico e na utopia pervertida?”.
 
Hoje, passados 15 anos do novo século, vivemos um tempo em que os desejos pessoais talvez recebam desmedida atenção. Haveria ainda algum espaço para a utopia de um mundo melhor para todos? Parece que a balança da história não é mesmo coisa fácil de se equilibrar.
 
Mais uma vez, vale recorrer às palavras do cético Daniel ao se despedir de Iván e enterrar aqueles papeis que o atormentaram por boa parte da vida. Ele deseja que todo aquele relato de ódio, frustração e medo, vá “talvez para um lugar utópico onde o meu amigo saberá, sem sombra de dúvida, que porra fazer com a verdade, a confiança e a compaixão”.
 
Leonardo Padura recebeu o “Prêmio Nacional de Literatura de Cuba” pelo livro e também o “Prêmio Princesa das Astúrias”, na Espanha, pelo conjunto da obra. O Homem que amava os cachorros foi traduzido para o português por Helena Pitta e lançado no Brasil no final de 2013 pela editora Boitempo.