Carta a Julinho de Adelaide

02.03.2016

O Globo | Opinião
Miguel de Almeida
A tentativa tola de se proibir a circulação do livro de Adolf Hitler (disponível na rede há anos, e gratuito) mostra como o inferno está cheio de gente boa
 
O que há de comum entre a tentativa de se proibir a circulação do livro Minha luta, de Adolf Hitler, e semelhante ação de tipos como Chico Buarque e Roberto Carlos em tentar bloquear a publicação de biografias? Ganha uma música de Caetano Veloso quem responder: censura.
 
E não são apenas os bacanas que andam flertando com o “cala a boca”.
 
Outro dia houve uma comoção nas redes sociais por conta de um chamado à chincha feito por uns garotões mal-educados a Chico Buarque, em nome de seu apoio ao governo de turno. Ficou decretado, desde então, que não se cobra em público posição política de um cidadão público. O escritor Eric Nepomuceno, parceiro de sushi do compositor, logo após o incidente fez circular um texto onde reclamava da abordagem na Dias Ferreira.
 
Não me lembro de haver lido nenhuma manifestação de Nepomuceno ao tempo em que seu companheiro de regabofe militava à sombra da liderança de Paula Lavigne em defesa do cerceamento às biografias. Dois hashis e uma medida.
 
O bom e velho Sócrates gastava suas tardes na praça principal de Atenas em busca de interlocutores para debater suas ideias e assuntos do dia.
 
De acordo com o novo Código de Hamurabi, não se pode abordar uma personalidade pública e dela cobrar suas posições políticas. A personalidade está autorizada a dizer todo tipo de avença, desavença e acarajés na mídia, com seu desfile de ego, e o incauto popular anônimo, receptor desta receita ou ofensa, jamais poderá questionar o cidadão público. Certamente, Sócrates era cobrado pela escravidão em Atenas, mas Chico Buarque não pode ser chamado a dizer por que apoia um regime que aprisiona homossexuais. Em nome da causa, vale tudo. Até ouvir os tatibitates de Paula Lavigne. Ainda bem que no meio do caminho havia uma Cármen Lúcia.
 
A tentativa tola de se proibir a circulação do livro de Adolf Hitler (disponível na rede há anos, e gratuito) mostra como o inferno está cheio de gente boa. Alega-se que o texto é racista e incita à violência. Misto de biografia e panfleto, Minha luta merece ser lido como um documento histórico (e patético), e eu sugiro que se faça após a leitura (deliciosa) de O cemitério de Praga, onde Umberto Eco mostra a construção ideológica do ódio aos judeus. Mas a censura ao livro de Hitler é mais veneno do mesmo veneno: intransigência, fascismo e ignorância.
 
O recurso arcaico à censura e à interdição de debate é apenas isso, um recurso arcaico usado à esquerda e à direita, conforme os exércitos de plantão. O homem que amava os cachorros, livro cult do verão passado do cubano Leonardo Padura, reconstrói a saga stalinista sobre Trotski. Ali estão recontadas as maledicências, o recurso à desqualificação, o golpe baixo nas intimidades, a mentira. Trotski foi assassinado por Ramon Mercader, chacal stalinista, em 1940. Quase 80 anos depois, num completo desatino, o Brasil vive clima semelhante. É certo que nesta terra cheia de gente dando adeus, a coisa é um arrematado chiste. Mas a história já mostrou que a censura de hoje é o degredo de amanhã.