Caio Prado Júnior ganha nova biografia política

18.04.2016

Jornal da USP
Claudia Costa
Resultado de seis anos de pesquisa em arquivos públicos e privados, livro discute atuação política de um dos maiores intérpretes da realidade brasileira. O lançamento acontece nesta terça, com debate na USP
 
“Conta a lenda familiar que, quando ainda era estudante secundarista no Colégio São Luís, o jovem Caio Prado Júnior teria presenciado um trabalhador se desequilibrar e ser jogado para fora de um bonde elétrica, que na época corria pelas ruas da capital. Ninguém veio em seu auxílio. Na hora, Caíto se deu conta de que, se aquilo tivesse ocorrido com ele, um membro da elite local, muitos transeuntes imediatamente viriam ajudá-lo. A injustiça no tratamento dispensado ao operário teria ficado evidente naquele momento. Esse episódio funcionaria como um ‘mito de origem’, ou seja, representaria o elemento catalisador que teria lhe infundido a noção das diferenças sociais, sensibilizando-o pela primeira vez, de forma consciente, para a luta de classes (outra versão indica que ele teria presenciado um acidente de infância que resultaria na morte de um funcionário da companhia São Paulo Tranway, Ligth and Power, o que o teria traumatizado pelo resto da vida). É difícil comprovar a veracidade da história, ainda que esse relato tenha sido contado pelo próprio Caíto a diversos parentes e amigos”, relata o historiador Luiz Bernardo Pericás (professor do Departamento de História da USP), em seu livro Caio Prado Júnior – uma biografia política, que será lançado nesta terça, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
 
O livro mostra a originalidade do pensamento e a militância política de Caio Prado Júnior, com sua intensa atuação na Aliança Nacional Libertadora (ANL) e no Partido Comunista do Brasil (PCB). “Busco entender Caio Prado Júnior como pensador e militante para, de certa forma, entender o Brasil e o mundo de sua época, a partir de suas relações com intelectuais marxistas (ou de esquerda), com o PCB, com as ideias em voga ao longo de várias décadas, com os países socialistas, com as revoluções e processos sociais do século 20”, diz o autor. Segundo Bernardo Ricupero, no texto de orelha da obra, o grande mérito da biografia política é precisamente demonstrar que o Caio Prado Júnior historiador é indissociável do Caio Prado Júnior militante político. “Em outras palavras, a opção que o jovem de família aristocrática tomou, decepcionado com os rumos da Revolução de 1930, de aderir ao Partido Comunista do Brasil (PCB) norteou o restante de sua vida e obra (…) A partir daí, já como marxista, buscou unir teoria e prática, sendo exemplos disso a Editora Brasiliense e a Revista Brasiliense, empreendimentos práticos embasados na teoria, e, principalmente, seus livros, trabalhos teóricos voltados para a prática política. Neles soube, como ainda é incomum, usar o marxismo como método para interpretar as vicissitudes de uma formação social particular, a brasileira”.
 
A obra, que tem a quarta capa assinada pelos historiadores Carlos Guilherme Mota e Lincoln Secco, é resultado de extensa pesquisa em arquivos públicos e privados, principalmente no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, nos quais foram consultadas centenas de documentos inéditos, matérias de imprensa da época, além de depoimentos e vasta bibliografia. Há informações novas acerca de sua trajetória, detalhes pouco conhecidos ou inéditos da vida política de Caio Prado Júnior – o autor tem parentesco com o biografado, que era irmão de sua bisavó, o que lhe deu acesso a arquivos pessoais. “Quando eu já estava terminando o livro, João Prado (filho do grande editor Caio Graco e neto de Caio Prado Júnior), me escreveu para dizer que havia acabado de encontrar, sem querer, na garagem de sua casa, no meio de dezenas de outros materiais, uma pasta com documentos inéditos da prisão de Caio. Ele me passou os documentos no dia seguinte”, conta o autor, e continua: “consegui fotos, depoimentos, cartas, recortes de revistas, matérias de jornais e documentos inéditos com alguns parentes, que me forneceram todo o material com a maior boa vontade e gentileza”. Segundo ele, há muitas informações inéditas, como detalhes de suas viagens à União Soviética e Cuba, seus tempos de prisão, suas relações com dirigentes e intelectuais marxistas (ou progressistas, de forma geral) da Argentina, México, Cuba, Polônia, Tchecoslováquia e Brasil.
 
A carreira política – Figura emblemática no desenvolvimento do marxismo, Caio Prado Júnior é considerado um dos maiores intérpretes da realidade brasileira. Seu esforço para entender a condição periférica do país em relação a outras economias e sua preocupação constante com a elevação material, cultural e de consciência política das massas o levou a escrever livros como Formação do Brasil Contemporâneo, um dos textos mais influentes sobre as relações entre nação e colônia no processo histórico que originou o Brasil. Em 1928, Caio Prado Júnior ingressou no Partido Democrático (PD), apesar da extração de classe e do perfil ideológico da legenda – já que o PD foi fundado, em 1926, por setores da classe média urbana vinculada a fazendeiros de café e dissidentes da oligarquia rural do Partido Republicano Paulista (PRP). Para ele, o Partido Democrático foi: “ao mesmo tempo mais reacionário e mais avançado que o Partido Republicano Paulista (…) pois havia nele tanto os oligarcas mais coerentes e empedernidos, mais aferrados aos elementos conservadores da vida econômica e social, quanto os elementos mais radicais, como a ala de Marrey Júnior, precursora do populismo”. O velho conselheiro Antonio Prado não viveria para ver a revolução de 1930, que seu partido apoiou, mas Caio Prado Júnior continuaria atuando de forma enérgica como seu militante.
 
Como ativista do PD em São Paulo, ajudou a organizar o partido na capital e no interior do Estado, mas em 1931 rompeu com o partido através de uma carta renúncia por discordar “radicalmente da atitude que o Partido tem assumido há muito”; afinal, de acordo com ele, “formado como partido de combate a uma situação política, vencida esta, cabia-lhe reorganizar-se sobre bases compatíveis com o novo estado de coisas”. Pouco tempo depois, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), quando já estava casado com sua primeira esposa, Hermínia Ferreira Cerquinho e tinha dois filhos, Yolanda e Caio Graco. Mas isso não seria fácil em termos pessoais, já que sua decisão de ingressar no PCB ia contra sua classe – a militância, as ideias e as prisões o tornavam uma figura indesejável nos círculos sociais. Segundo o autor, “a opção pelo comunismo fez com que Caio Prado Júnior transcendesse a condição de simples ‘rebelde’ e adotasse uma postura de ‘revolucionário’, em todos os sentidos do termo”.
 
Caio Prado Júnior – uma biografia política, do historiador Luiz Bernardo Pericás (Boitempo Editorial, 504 págs., R$ 63,00). O livro será lançado nesta terça, às 17h45, com debate, no Prédio de Filosofia e Ciências Sociais da FFLCH/USP (av. Prof. Lineu Prestes, 3.380, sala 8, Cidade Universitária).