Procurando rumo

24.04.2016

O Hoje
Guilherme Freitas
Em seu trabalho mais célebre, Formação do Brasil Contemporâneo (1942), o historiador Caio Prado Júnior investigou as dinâmicas sociais e econômicas do Brasil colonial para iluminar as origens da condição periférica do país no mundo. O livro é considerado até hoje um marco na interpretação da realidade nacional, ao lado de outros clássicos da época, como Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre.
 
No recém-lançado Caio Prado Júnior: Uma Biografia Política (Boitempo), o professor de História na USP Luiz Bernardo Pericás procura mostrar a relação profunda entre a obra teórica e a atuação política do historiador. Nascido numa família da aristocracia cafeeira de São Paulo, em 1907, Prado se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) nos anos 1930, foi deputado federal nos anos 1940 e virou alvo da ditadura depois do golpe de 1964, quando teve os direitos políticos cassados e chegou a ser preso. Pericás falou por e-mail sobre o livro.
 
Caio Prado Júnior costuma ser lembrado ao lado de outros “intérpretes do Brasil” de sua época, como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. O que distingue a obra dele desses outros autores?
 
Caio Prado Júnior pode ser colocado ao lado de nomes como Buarque e Freyre, mas também de outros “intérpretes” que faziam parte da tradição marxista, como Octavio Brandão, Leôncio Basbaum e Nelson Werneck Sodré. Ou seja, pode ser visto como importante integrante do cânone interpretativo da História do Brasil junto a personagens consagrados, mas também como parte de uma cultura política e historiográfica muito particular, daqueles que se dedicaram ao materialismo histórico no país. Caio, neste sentido, verá o Brasil dentro de suas particularidades (com um desenvolvimento desigual e combinado), mas inserido dentro de um sistema colonial que transitará para a esfera do imperialismo. Sendo assim, desígnios forâneos, ligados a interesses de grupos in­ternos, acabarão por direcionar o quadro econômico brasileiro. Ainda assim, Caio dará a devida importância para os setores populares e colocará ênfase no papel de grupos sociais menos privilegiados. O historiador paulista utilizará para isso o método dialético. Será um pioneiro do materialismo histórico no país, especialmente considerando que suas obras terão um rigor e uma sofisticação maiores que os de alguns intelectuais marxistas brasileiros de sua época.
 
Quais foram as principais contribuições da obra de Caio Prado para a compreensão da realidade brasileira?
 
Ele revelou as relações, os processos e as estruturas sociais, econômicas e políticas que operavam na composição e nas transformações de nossa sociedade, indicando o fator de instabilidade, de falta de continuidade no decurso histórico do país. Ou seja, uma evolução por ciclos, com fases sucessivas de progresso, seguido de decadência, resultando num sistema e num processo econômico em que a produção e o crescimento se subordinavam a contingências extrínsecas. O desenvolvimento significaria a superação do passado colonial e a eliminação do que ainda restava dele. Para isso, ele mostrará a dinâmica das forças sociais internas e das pressões econômicas e políticas internacionais, a partir de temas como o sentido da colonização, o quadro geral do escravismo, a crise do sistema colonial e as forças que constituirão a República Velha. Mas sua preocupação sempre será entender o passado para compreender e atuar politicamente no presente.
 
Qual foi o papel do engajamento social e da militância para a obra de Caio Prado?
 
Foi enorme. Não se pode entender Caio Prado Júnior sem o seu vínculo com o marxismo e com o PCB. Sua biblioteca tinha muitos livros marxistas. Ele viajou para diferentes países socialistas, como União Soviética, China e Cuba, e se encantou com o que viu. Escreveu artigos e livros nos quais dialogava direta ou indiretamente, de forma crítica, com a produção marxista, em especial com a filosofia soviética. Debateu durante anos com pecebistas, comunistas estrangeiros, intelectuais de esquerda de diferentes países. A influência do método marxista é evidente em sua obra. Sua atividade política direta (e, diga-se de passagem, intensa) na ANL ou na Assembleia Legislativa de São Paulo mostram como tentou colocar em prática suas ideias, com o objetivo de transformação social a partir de ferramentas políticas calcadas em organizações de massa.
 
Que impacto teve a obra dele durante a ditadura, em especial A Revolução Brasileira (1966)? Como ele enfrentou a perseguição do regime?
 
A obra teve grande impacto, com vendas expressivas. Foi muito debatida, tanto entre as agremiações de esquerda como entre estudantes universitários. Jacob Gorender chegou a dizer que este foi um dos livros que “fizeram a cabeça” dos militantes da época. Com A Revolução Brasileira, Caio ganhou, no início de 1967, o prêmio Juca Pato de intelectual do ano de 1966. Mas a obra sofreu críticas muito duras dos mais variados setores. André Gunder Frank chegou a dizer que proposta caiopradiana de revolução “não é brasileira, nem democrática, nem socialista, nem revolucionária. É a contrarrevolução”. Por aí, pode-se per­ceber o teor das críticas. Em relação às perseguições da ditadura, vale lembrar que o historiador paulista foi detido, intimado e, finalmente, preso pelos órgãos de segurança. Ele se exilou por poucos meses no Chile e depois de retornar, foi julgado e mandado para a prisão, acusado de ser o responsável por “atividades revolucionárias” dos estudantes (o que não era verdade). Também o acusavam de ser um “agente subversivo” e um “comunista atuante”. Uma entrevista que havia concedido a uma publicação estudantil (o principal motivo da sentença), foi considerada “um afrontoso crime contra a Segurança Nacional”. Em todas as situações, manteve-se firme em suas convicções e lutou judicialmente contra os processos e arbitrariedades da ditadura.
 
Na sua opinião, qual é o legado de Caio Prado para o pensamento sobre o Brasil? 
 
Caio Prado Júnior mostra a importância de se analisar corretamente os processos históricos, de compreender as particularidades do caso brasileiro e de avaliar as melhores formas de atuação política. É alguém que não se fechava em qualquer camisa de força teórica. Pelo contrário. Ele nos ensina que te­mos de evitar teorias ou interpretações preconcebidas ou importadas, e buscar em nosso próprio pas­sado os elementos para agir de forma apropriada no presente, sempre com o intuito de mudar a realidade. Nesse sentido, ele via nos trabalhadores, nas próprias massas populares, os protagonistas desse projeto.