Atentados diminuem chance de integração dos muçulmanos

16.07.2016

Folha de S. Paulo | Mundo | Análise
Contardo Calligaris

 O que sabemos do homem tunisiano que, em Nice, atropelou dezenas de pessoas? Era residente francês, trabalhava como entregador, tinha três filhos e um passado de violência doméstica; a mulher estava se separando dele.

Os pais, na Tunísia, dizem que ele sofria de um transtorno mental e mostram uma receita (não sei de que remédio). Segundo os vizinhos, não frequentava a mesquita (preferia a academia de musculação).

Traço comum a muitos terroristas que morreram nos últimos atentados (desde o 11 de setembro 2001): uma existência não propriamente fracassada, mas inglória, uma espécie de decepção da vida.

Claro, as dificuldades econômicas dos próprios países muçulmanos (Tunísia, Egito, por exemplo) são reais. A dificuldade de integração numa Europa cada vez mais hostil também é real. E há a sensação de um certo descaso geral com as vidas muçulmanas mundo afora. Mas o fato é que a morte quase certa na jihad, para uma geração de jovens, parece ter se tornado a grande resposta heroica à mediocridade ou até apenas ao caráter mediano de suas vidas.

O assassino de Nice, pelo que sabemos, não era afiliado a nenhuma organização terrorista (pesadelo da segurança: qualquer um pode se transformar num terrorista, por iniciativa própria, e a logística agora é elementar: basta alugar um caminhão).

Mas os ataques compõem uma estratégia. Cada atentado aumenta a intolerância europeia (e mundial) e compromete as chances de integração dos jovens muçulmanos.

Ou seja, os atentados impossibilitam o sonho do imigrante, ao qual só sobra a vontade de destruir as imagens de seu sonho. O terrorista assassina o que ele não consegue ser, para negar seu desejo de ser assim.

A cada atentado, a integração se torna mais difícil, até que sobrará, vindo do Ocidente, só o ódio, que justificará qualquer ataque.

Além disso, os islamistas conseguem forçar a extensão, nas nossas democracias, de um estado de exceção que suspende garantias e liberdades individuais.

Por razões de defesa, nossos governos agem contra nossos próprios princípios. O terrorismo ganha quando ele nos mostra que não há como viver segundo nossos ideais.

Leitura urgente: "Estado de Exceção", de Giorgio Agamben (Ed. Boitempo). 

 INIMIGOS DO PRAZER

Houve ataques terroristas contra o transporte, contra o trabalho, contra espaços e lugares simbólicos etc. Mas existem também (e talvez estejam aumentando) os atentados contra o prazer —por exemplo, a bomba no distrito turístico de Kuta, em Bali, Indonésia, em 2002.

Um casal da Flórida conta que foram celebrar seu noivado em Paris. A lembrança dos ataques de novembro 2015 os impedia de sentar nos cafés e "enjoy". Decidiram passar o 14 de julho em Nice, onde daria para relaxar.

A Flórida me fez pensar no ataque à boate Pulse, em Orlando. O assassino queria sobretudo matar sua própria homossexualidade, mas Orlando é também a cidade dos parques temáticos que fazem sonhar as crianças do mundo inteiro —parques para brincar, que a gente goste ou não.

Bali, Paris, Orlando, Nice, Istambul etc. são lugares de férias —de prazer, espera-se. Uma veia do terrorismo islamista está atacando o nosso suposto hedonismo: "Eu não estou me divertindo, então vocês também não vão se divertir".

Alguém deveria dizer aos terroristas que não precisa: nosso hedonismo é de araque, e nós já somos os piores inimigos de nossos prazeres.