Mulheres, raça e classe: livro de Angela Davis ganha tradução inédita para o português

23.08.2016

Modefica
Marina Colerato
A Boitempo Editorial publica pela primeira vez no Brasil o livro Mulheres, raça e classe, escrito pela famosa ativista feminista negra e abolicionista Angela Davis. O livro faz parte de mais uma tradução feminista da editora. Recentemente, a Boitempo lançou o clássico Reivindicação dos Direitos da Mulher.
 
Publicado originalmente em 1981 nos Estados Unidos, Mulheres, raça e classe analisa as tensões durante o movimento sufragista americano, aborda os interesses divergentes das mulheres brancas e negras, e conta aos detalhes sobre os movimentos sociais da época e como muitas mulheres estavam envolvidas neles.
 
Todo o trabalho de Davis preza pela interseccionalidade dos movimentos sociais, ou seja, entender as diferentes opressões sem hierarquizá-las. “Meu objetivo sempre foi encontrar pontos entre as ideias e derrubar os muros. E os muros derrubados se transformam em pontes” é uma de suas citações mais célebres. Não à toa, o livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe.
 
Esse trabalho da ativista conta com análises sobre escravidão, encarceramento em massa da população negra, estupro, aborto, direitos reprodutivos e trabalho doméstico, tendo sempre a mulher negra no centro das discussões. O livro é fundamental para as feministas brasileiras, indispensável para a compreensão do nosso país e para o entendimento sobre a urgência do debate racial para a construção de uma nova sociedade.
 
“Davis apresenta o debate sobre o abolicionismo penal como imprescindível para o enfrentamento do racismo institucional. Denuncia o encarceramento em massa da população negra como mecanismo de controle e dominação. Dessa forma, questiona a ideia de que a mera adesão a uma lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência, considerando-se que o sujeito negro foi aquele construído como violento e perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada.
 
Analisar essa problemática tendo como base a questão de raça e classe permite a Davis fazer uma análise profunda e refinada do modo pelo qual essas opressões estruturam a sociedade. Neste livro, tal discussão é sinalizada pela autora por meio de sua abordagem do sistema de contratação de pessoas encarceradas nos Estados Unidos, que já durante o período escravocrata permitia às autoridades ceder homens e mulheres negros presos para o trabalho, em uma relação direta entre escravidão e encarceramento como forma de controle social”, aponta o prefácio de Djamila Ribeiro.
 
Angela Davis e direito dos animais
 
Apesar de não ser um assunto tão pautado em seus discursos, Angela Davis também acredita que as questões dos animais não-humanos precisam entrar no debate se quisermos um mundo mais igualitário. Durante a 27ª Conferência Anual Sobre Empoderamento Da Mulher Não-Branca (Annual Empowering Women of Color Conference), nos Estados Unidos, Davis falou sobre promover justiça social para animais humanos e não-humanos.
 
Ao ser questionada pela Dra Breeze Harper, ativista feminista negra vegana, idealizadora do Sistah Vegan, a filosofa afirmou que “o fato de sentarmos para comer um frango sem pensarmos na condição horrorosa na qual frangos são industrialmente criados nesse país é um sinal do perigo do capitalismo. [Um sinal de] como o capitalismo colonizou nossas mentes”.
 
“Eu acredito que há uma conexão entre a maneira como tratamos os animais e as pessoas que estão na base da hierarquia. Olhe para como as pessoas cometem tanta violência para com outras pessoas, e como elas normalmente aprenderam a fazer isso torturando animais. Há muitas perspectivas pelas quais podemos falar sobre isso”, explica Davis.
 
Uma pequena biografia de Angela Davis
 
Davis ficou bastante famosa na década de 70 por integrar o partido Panteras Negras. Nascida em 1944, no Alabama, numa família de classe média americana com ideais comunistas, cresceu na época do Ku Kux Klan, linchamentos, segregação racial e Mississipi em chamas. Aos 12 anos, participou do seu primeiro boicote (a um ônibus que praticava segregação) e aos 14, graças a uma bolsa, foi para Nova York estudar em um liceu de esquerda chamado Little Red School House.
 
Anos mais tarde, ingressou no Partido Pantera Negra e foi presa em 1970, passando 16 meses reclusa. Recebeu apoio mundial com o movimento “free Angela Davis”, ganhou status de celebridade e escreveu diversos livros. Em 2012, estreou o documentário “Free Angela and All Political Prisoners” responsável por narrar a vida de Angela e seu ativismo social. Hoje, com 72 anos, é professora de filosofia na Universidade de Santa Cruz, que fica entre São Francisco e Monterey, na Califórnia.