Para vencedor do Juca Pato, saída da crise é pela esquerda

11.10.2016

Caros Amigos
Lucia Rodrigues
O historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Bernardo Pericás, considera que a superação da crise que atinge o Brasil deve ocorrer pela esquerda. "O caminho é pela esquerda", enfatiza. Ele avalia, no entanto, que essa ultrapassagem não vai ser rápida. "É um projeto de médio, longo prazos." Mas afirma que ela só ocorrerá se houver a consolidação de uma frente de esquerda no País. "A única forma de se fazer a luta é juntando forças. A frente é quase obrigatória", frisa.
 
Entretanto essa frente não pode ser meramente eleitoral, segundo ele. "Tem de ser algo mais do que para ganhar eleições. Tem de ganhar a hegemonia na sociedade: nas universidades, na mídia, no campo, nos bairros, tem de conscientizar a militância. Não adianta criar uma frente para ser gestora (do capitalismo)."
 
Ele defende uma forma híbrida de atuação que mescle ação nos partidos e nos movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Algo parecido com o Movimento 26 de Julho, em Cuba, que tinha capilaridade na sociedade, fundamental para a tomada de poder pelos revolucionários em 1959. Experiências como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe são consideradas pelo professor da USP incipientes. "A Primavera Árabe eu vi que não ia dar certo. Continuou a repressão e os militares voltaram ao poder."
 
Pericás não defende, no entanto, a  importação de modelos, nem tão pouco a tomada do poder pelas armas. Ele acredita, inclusive, que o PT teria tido dificuldade de chegar ao poder se tivesse adotado um discurso mais à esquerda. "O PT nunca foi revolucionário, mas me pergunto se conseguiria se manter no poder... (se fosse)." O mesmo questionamento ocorre em relação a Marcelo Freixo, que disputa o governo do Rio de Janeiro. "Me pergunto até onde o Freixo pode ir, se ganhar a eleição. O sistema vai continuar capitalista..."  
 
Para o professor, é fundamental que ocorra um balanço dos erros e acertos. "A esquerda tem de fazer uma autocrítica." Ele não se arrisca a dizer quem será o partido a hegemonizar a liderança na esquerda, mas considera que o Partido dos Trabalhadores não está morto. "O PT vai continuar sendo um partido muito importante." Embora ressalte que para isso a direção partidária vai ter de se renovar.
 
A falta de formação política da população é considerada um dos motivos que levaram ao fracasso do PT nas urnas, no domingo (2). "Os governos Lula e Dilma melhoraram a vida das pessoas, mas precisavam ter feito a politização junto." Ele cita como uma das soluções que poderiam ter sido adotadas para a elevação da consciência crítica da população, o preenchimento da ociosidade das salas de aula de universidades públicas. "Ao invés de encher salas de aula privadas, poderia se ter criado mecanismos para colocar as pessoas nas universidades públicas."
 
Mas o revés enfrentado pela esquerda não é exclusividade brasileira. "Vai muito além do Brasil, tá ocorrendo no mundo."   Ele cita o cenário na América Latina para exemplifcar. "Teve uma onda de governos progressistas, mas agora está ocorrendo um processo traumático (de reversão)."
 
Em relação ao discurso empregado pela direita, Pericás também deixa claro que não é novo. "O discurso do (prefeito eleito de São Paulo, João) Dória é antigo, não traz nada de novo. O  (Donald) Trump também usa isso (de afirmar que não é político, e sim empresário). O Dória nunca teve compromisso com o povo", alfineta.
 
Na prática, a ascensão da direita ao poder evidencia a retirada de direitos trabalhistas e o ataque ao patrimônio público. "Estão acelerando o desmonte do Estado", critica.
 
Ele considera que os intelectuais têm o dever de dar sua contribuição para ajudar na superação da crise. "Têm de escrever mais, têm de estar ligados às lutas de seu tempo." 
 
Pericás tem autoridade para propor a participação de seus pares. Ele acaba de receber o prêmio de Intelectual do Ano pela publicação da biografia de Caio Prado Jr. O troféu Juca Pato foi entregue na noite de quinta-feira (5), na Academia Paulista de Letras.