Feminismo revolucionário

14.10.2016

Revista Brasileiros
Giselle Porto
Recém-lançado no Brasil, Mulheres, raça e classe, livro publicado em 1981 pela professora e ativista Angela Davis continua atual. Obra aborda questões como o machismo e o encarceramento massivo da população negra.
 
É difícil pensar numa pessoa que encarne melhor o espírito dos anos 1970 do que a professora e ativista Angela Davis, ex-Pantera Negra e dona de um dos penteados black power mais famosos da história. A autora de Mulheres, raça e classe, livro recém-lançado no País (Boitempo Editorial, 248 páginas), é uma personagem icônica da luta pelos direitos humanos e permanece até hoje como símbolo do Movimento Negro e da busca por justiça e igualdade.
 
Se Mulheres, raça e classe continua atual (a obra data de 1981, logo após a autora concorrer pela primeira vez à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Comunista), é porque o livro debate questões ainda não superadas pela sociedade. O machismo e o encarceramento massivo de pessoas negras continuam sendo um grande problema nos Estados Unidos – que tem a maior população carcerária do mundo – e também no Brasil, que hoje ocupa o quarto lugar no ranking mundial, segundo o Ministério da Justiça. Como diz na orelha do livro Rosane Borges, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP, “há no imaginário racista a crença de que homens negros são perigosos e violentos. A presença deles em massa nas prisões dos Estados Unidos, do Brasil e de outros países só reforça esse estereótipo. É o racismo do Estado operando”.
 
Davis também oferece as ferramentas para o enfrentamento do racismo institucional. Ao analisar a violência do Estado a partir de seus mecanismos de coerção e da intersecção com as questões de gênero, raça e classe, ela mostra que romper com a lógica das opressões não só é possível, como também necessário para garantir a diversidade e o funcionamento das instituições democráticas. E mais: que não existe a primazia de uma categoria sobre as outras (seja da classe em relação a cor e gênero, seja de gênero em relação a classe e cor, entre outras possíveis combinações), uma vez que a desigualdade opera em vários níveis e deve ser combatida no interior dos espaços de poder.
 
Numa conferência realizada no Brasil em dezembro de 1997, na 1ª Jornada Cultural Lélia Gonzalez, promovida pelo Centro de Cultura Negra do Maranhão e pelo Grupo de Mulheres Negras Mãe Andreza, Davis afirmou que as organizações de esquerda “têm argumentado dentro de uma visão marxista e ortodoxa de que a classe é a coisa mais importante”. Embora o feminismo negro tenha ganhado força desde então, ainda é preciso “compreender que classe informa a raça. Mas raça também informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida”, conforme pontuou Davis, lembrando que o feminismo deve contemplar problemas como a precarização e a sub-representação de negros no ambiente corporativo se quiser promover a igualdade.
 
Também chamam a atenção os capítulos Mulheres Comunistas, em que Davis traça o perfil de Lucy Parsons (anarquista na juventude e uma das poucas mulheres negras a ter o nome citado em relatos sobre o movimento operário norte-americano), Ella Reeve Bloor, Anita Whitney, Elizabeth Gurley Flynn e Claudia Jones; e Estupro, Racismo e o Mito do Estuprador Negro, no qual ela analisa como o racismo criou uma imagem fictícia do homem negro como invariavelmente violento para mantê-lo encarcerado e sob controle após a abolição da escravidão.
 
O livro conta ainda com um prefácio escrito por Djamila Ribeiro, secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, para quem “Angela Yvonne Davis é uma mulher à frente de seu tempo. E dizer isso não é afirmar que ela esteja desatenta às questões que afetam a sociedade em seu momento histórico; ao contrário, significa apontar o potencial revolucionário de seu pensamento, que nos inspira a pensar além e a sair do lugar-comum”.