Fernando Meirelles: "A última boa surpresa que tive na literatura foram os livros do paraense Edyr Augusto".

08.09.2016

Época Negócios
Claudia Penteado
Entre alguém reconhecidamente talentoso e alguém reconhecidamente sangue-bom, Fernando Meirelles fica com o segundo sem piscar. O premiado cineasta (e sócio da O2 Filmes) admira gente tolerante que consegue enxergar o outro e gosta de olhar o mundo interno. Gosta cada vez mais de gente que, como ele, compreende que tudo está ligado no planeta e age com esta consciência. Por sinal, ele vem devorando, preocupado, livros sobre sustentabilidade – principalmente depois que passou a viver o que ele chama de uma “segunda vida” como produtor rural, que o encanta cada vez mais (sim, mais do que todo o resto). Nesse papo, falamos de muitos temas: de paz, da liberdade, da leveza, do ócio criativo, de talento, da alma humana, de Guimarães Rosa…ah, e também de TV, de cinema, de tecnologia. E de desafios: cujo maior, ele garante, foi a recente direção da abertura das Olimpíadas, para a maior plateia da sua vida.
 
Que tipo de criança você foi? Do que gostava de brincar, por exemplo?
Fernando – Fui uma criança normal, terceiro filho de uma família estável, classe média bem de vida. Perdi um irmão quando tinha 3 anos e este trauma marcou a família e me acompanhou até os 15. Moramos um ano nos EUA quando tinha 10 anos, foi um ano marcante na vida. Rodar de bicicleta era meu cotidiano, ir para escola ou zoar pelo bairro. Fui criado livre de uma maneira que não se faz mais. Hoje um pai seria preso se deixasse o filho na mesma situação. Nunca tive um emprego regular destes com patrão, por isso ainda não tirei minha carteira de trabalho. Comecei a trabalhar só com 24 anos, antes disso nunca tive sequer uma frase de cobrança em casa. O que trabalhei depois compensou os anos de ‘paitrocínio’ e sou grato a eles por terem me dado este tempo de ócio criativo sem culpa.
 
Quando percebeu que era criativo?
Fernando – Acho que passei a confiar no meu instinto para inventar soluções só quando eu já estava com uns 40 anos. Até lá achava que prêmios que eu ganhava e um certo sucesso profissional eram golpe de sorte. Me sentia como um impostor e achava que a qualquer momento iria ser desmascarado. Esse sentimento custou muito a passar e não sei se passou inteiramente, sinceramente ainda me acho meio supervalorizado.
 
Quando e por quê você decidiu trabalhar no mundo audiovisual?
Fernando – Fiz uns experimentos com Super-8 quando estava no colégio, mais como brincadeira e gostei do brinquedo. Fui me identificando com cinema, com cine-clube, um dia quando vi estava trabalhando com isso.
 
Qual foi seu primeiro trabalho importante nessa área?
Fernando – O primeiro trabalho autoral foi uma animação em super-8 chamada “Arquitetura Animada” que fiz como trabalho para uma matéria da FAU, faculdade de arquitetura onde estudei. Depois disso fiz um vídeo de 50 minutos que foi a minha tese de graduação, era um trabalho vergonhosamente pretensioso que nunca mais mostrei para ninguém, mas com ideias interessantes de linguagem. Recebi nota 5 por ele, a nota mínima para ser enxotado da escola. Também nunca mais revi, tenho medo de sentir vergonha alheia por mim mesmo no passado. Depois uns vídeos experimentais e de uma hora para outra estava na TV com amigos da Olhar Eletrônico, uma produtora de vídeo pioneira que montamos no início dos anos 80.
 
O que a TV lhe ensinou?
Fernando – A possibilidade de falar com o mundo e ter uma voz era a sedução da TV. Quer dizer, “falar com o mundo” é força de expressão, fazíamos programas na TV Gazeta em SP ou seja, falávamos ali com os bairros ao redor da antena. Cerqueira Cesar, Lapa, Pinheiros, Bela Vista. Mas para nós parecia o mundo e já estava bom.
 
E qual é a sua visão da TV hoje?
Fernando – A TV melhorou muito, hoje virou um híbrido entre o que era a TV e o cinema. Com aparelhos maiores, com melhor qualidade de som e de imagem, a TV se aproxima do cinema em termos de linguagem, de roteiro e de produção. Mesmo o acesso está mais próximo do cinema, posso escolher o que assistir e quando assistir. Há ainda a possibilidade de interação e as novas tecnologias como a realidade virtual, por exemplo, se é que pode-se chamar isso de extensão da TV. De qualquer maneira o que era um eletrodoméstico para donas de casa por uns tempos, virou um portal para possibilidades infindáveis.
 
Como o mundo digital transformou ou transforma o seu trabalho?
Fernando – Com o desenvolvimento do 3D na produção tudo que você consegue imaginar pode ser “filmado”, o limite é a imaginação. Construção de cenários, criação de paisagens que não existem, encher espaços com figurantes deste ou de outros planetas, movimentos de câmera, fotografia, música, maquiagem e até personagens podem ser feitos em 3D. Quando comecei era possível entender praticamente todo o processo técnico da realização de um filme, no mundo digital, cada área está tão especializada que o máximo é entender alguns princípios, ter noção de custos e de tempo de execução de cada alternativa possível para a realização de algum projeto. (Por exemplo, se preciso filmar em um grande lobby de hotel, hoje me pergunto: é melhor procurar um espaço parecido com o que tenho na cabeça, fechar o lugar, iluminá-lo e gastar dias filmando, ou melhor construir a parte de baixo num estúdio e completar as paredes e tetos em 3D para os planos gerais? Ou ainda é possível filmar tudo num estúdio verde mantendo apenas portas e objetos para os atores tocarem? Saber o que implica cada uma destas opções pondo na balança tempo, custos e a qualidade do resultado é o máximo que posso querer chegar.)
 
Você é uma pessoa tecnológica? Curte devices, baixa aplicativos, viciou-se na virtualidade? Como a tecnologia afeta a sua vida – para o bem e para o mal?
Fernando – Não tenho fascínio pela tecnologia, que pode ser uma arapuca às vezes e me sinto um pouco vítima dela por me obrigar, como a todo mundo, ficar baixando as últimas versões de aplicativos e preenchendo cadastros, inventando senhas. Me sinto enganado pela tecnologia porque prometeram que ela “libertaria o homem” que iria fazer o trabalho duro e no dar mais tempo para o ócio, mas isso não passou de 171. A tecnologia digital nos leva a trabalhar do momento em que acordamos até a hora de dormir, nos restaurantes, nas festas, no aeroporto. Simplesmente roubou todos nossos momentos de vazio. Estelionato. Admiro amigos que abriram mão de lap top para não ter o trabalho à mão. Eu mesmos não uso Facebook, Instagram ou estas coisas para que me sobre algum tempo livre. Só que não sobra.
 
O que o encanta mais, hoje: escrever, produzir, dirigir?
Fernando – Gosto de escrever, de pensar em ideias e colocá-las no papel, é um trabalho solitário, concentrado, gosto disso. Cada vez que uma solução para algum problema pipoca na cabeça imagino que deve liberar junto alguma endorfina ou algo assim, pois é muito prazerosa a sensação de ter achado uma solução que nem eu mesmo esperava. O trabalho de direção no set é diferente, é coletivo, ali as imagens que acontecem ou as nuances para se dizer um texto também podem ser surpreendentes, mas é um trabalho coletivo, a tônica é mobilizar a equipe e buscar junto, é um prazer de outra natureza. Já a produção é um trabalho que precisa de método, sou pouco apto para isso, então prefiro confiar em quem sabe fazer.
 
Com que tipo de gente gosta ou prefere trabalhar?
Fernando - Entre alguém reconhecidamente talentoso e alguém reconhecidamente sangue-bom, ficou com o segundo sem piscar. Um clima bom no set imprime na imagem tanto quanto um refletor bem colocado. E a vida é curta para ficarmos carregando malas.
 
Que tipo de diretor é você?
Fernando – Os produtores devem me achar desorganizado pois mudo os planos com certa frequência, improviso muito. Acho que filmo meio como jazz e produtores preferem trabalhar com partitura. Também dizem que tenho mania de achar tudo simples, que não compreendo o que está por trás das mudanças que proponho às vezes. Eles têm certa razão, mas não sou doido, filmo rápido e raras vezes estourei o orçamento. Com atores gosto de perguntar mais do que dizer o que devem fazer, vejo-os como parceiros na criação. Sou chato com montadores pois esta é uma área onde me sinto seguro e nada passa – Tira um frame aqui e coloca dois ali. Sou insuportável. Com figurinistas meu esforço é fazer com que não percebam que eu não entendo bulhufas do assunto, só enrolo e concordo. Sou arquiteto, então tenho alguma noção de direção de arte. O fotógrafo tem que ser o grande parceiro. Respeito os técnicos de som, mas às vezes eles extrapolam, são sempre meio nervosinhos. Música, só vendo. Desenho de som faz 40% do serviço. Detesto lançamentos. E por aí vai.
 
Descreva em uma frase sua experiência na direção da cerimônia de abertura das Olimpíadas.
Fernando – A parceria com a Daniela Thomas e com o Andrucha na direção foi dos encontros criativos mais prazerosos que tive na vida.
 
Que filme você mais gostou de ter feito?
Fernando – Cidade de Deus, por ter feito de ponta a ponta, da leitura do livro até o lançamento. Como filmei sem financiamento, bancando os custos, não tinha que dar satisfação a ninguém, estava livre para fazer o que me desse na telha, por isso me sinto tão dono do filme. Criativamente cada um da equipe deixou sua marca ali, mas como diretor tive um controle que nunca mais se repetiu.
 
Qual foi o maior desafio da sua carreira até hoje?
Fernando – A abertura das Olimpíadas. Mostrar para 3 bilhões de pessoas o que é o seu país é uma responsabilidade imensa. Se errássemos nunca mais seríamos perdoados e sabíamos disso. Foi tenso.
 
O que você acredita que estaria fazendo, se não fosse diretor/roteirista?
Fernando – Antes de fazer TV ou cinema o plano era ser oceanógrafo, mas desisti no caminho e fiz faculdade de arquitetura. Tenho uma “second life” como produtor rural e estou cada vez mais comprometido com questões ambientais. Sinto que daqui para frente tendo a usar cada vez mais meu tempo tentando ajudar a diminuir os impactos das mudanças do clima e da degradação do meio ambiente que estão em curso. Dirigir vai passando aos poucos para segundo plano.
 
Quem são seus ídolos?
Fernando – Não idolatro ninguém, mas tem um tipo de gente que admiro e que me ensina muito. Admiro quem tem visão de longo-prazo, gente tolerante que consegue enxergar o outro, admiro quem compreende que tudo está ligado no planeta e age com esta consciência, gosto de quem gosta de olhar para o mundo interno, o mundo de dentro da gente.
 
E quem são seus ídolos da ficção?
Fernando – O Riobaldo de Grandes Sertão Veredas é um personagem e tanto, foi o primeiro que me veio a cabeça. De certa forma ele tem um pouco das qualidades que apontei acima. É observador, olhando para um buriti consegue aprender sobre a alma humana, vive para compreender o sertão, que é o mundo de dentro da gente ao qual me referi acima.
 
Que personagem você gostaria de ter criado?
Fernando – Por questão de coerência, o Riobaldo. Mas não teria capacidade, jamais. Ainda bem que houve um Guimarães Rosa.
 
Que ator gostaria de dirigir, ainda?
Fernando – O Rodrigo Sant’Anna. O homem é um talento e acho que me daria bem numa comédia.
 
O que você tem assistido e gostado?
Fernando – Infelizmente ando assistindo pouca coisa. Comecei a assistir Justiça, dirigido pelo Villamarin e estou impressionado. Ele leva a TV para um outro lugar. Estou atrasado com séries e filmes.
 
O que tem lido?
Fernando – Muito livro técnico sobre clima, sobre sustentabilidade e estas coisas. Preciso parar com isso antes que fique deprimido. A última boa surpresa que tive na literatura foram os livros do paraense Edyr Augusto. Li Pssica há um ano atrás, adorei e acabei lendo tudo que achei dele de enfiada. São livros curtos, recomendo: Um Sol Para Cada Um, Casa de Caba, Os Éguas e Selva Concreta.
 
Que livro ou filme marcou a sua vida?
Fernando – Tenho lido muito sobre, água, energia, cerrado. Vou continuar monotônico, Grande Sertão Veredas é a obra que mais me tocou, foi dos raros livros que reli 2 vezes, assisti o filme, assisti a mini-série que a Globo fez nos anos 70 com o Tony Ramos, li a bela versão em quadrinhos e até já trabalhei em uma possível adaptação para cinema. É um livro que, uma vez habituado com a linguagem, você abre em qualquer página e lê qualquer parágrafo e acha uma pérola. Faço sempre isso, como um crente com a sua bíblia. Quer ver? Tenho o livro aqui na minha frente. Aleatório. Lá vai:
 
(…) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (…) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo.
 
Riobaldo está sempre falando sobre a condição humana como no trecho acima, onde diz que as pessoas, assim como as mandiocas, podem mudar. Para melhor ou para pior. As veredas do sertão que ele descreve são também as dobras insondáveis da nossa mente. O sertão está em toda parte. Diz. O sertão está dentro da gente.
 
Qual é a sua maior qualidade?
Fernando – Escuto mais do que falo.
 
E o seu maior defeito?
Fernando – Timidez? Impaciência quando sinto que estou perdendo tempo.
 
Qual é a sua ideia de felicidade?
Fernando – Ficar em paz. Às vezes acontece. Às vezes não quero comer, não quero beber, não quero ler, não quero pensar, não tenho nenhum desejo e não estou devendo nada a ninguém. Fico só ali respirando ou sendo respirado e aí vem uma sensação (ilusão?) de que está tudo certo. Não há vento e nem corrente marítima. Tudo em paz. Quando acontece e eu estou atento, chamo de felicidade.
 
Com o que você sonha?
Fernando – Sonho no sentido do que espero para o futuro? O que eu gostaria que fosse o futuro está cada vez mais distante de se realizar. Se no futuro chovesse tanto quanto choveu este ano no sudeste do Brasil eu estaria tranquilo e feliz. Não digo isso só como fazendeiro, é que cada vez mais tenho visto a possibilidade de um futuro razoável se extinguir. Quem se dispuser a dar alguma atenção à questão do clima perceberá que estamos diante do maior desafio que a humanidade já teve, precisamos urgentemente mudar nosso rumo, mas a rapaziada ainda continua querendo acelerar, querendo extrair o óleo do pré-sal, plantar soja na Chapada dos Veadeiros, tomar as áreas de proteção dos índios e viver como sempre viveu. Penso e sonho muito com isso. Pesadelos. Claro.
 
Como você se vê velhinho?
Fernando – Morando fora da cidade, cuidando de uma horta, lendo muito como faz o meu pai, tentando me adaptar às secas, ao calor e às surpresas que nos trarão as mudanças do clima. Se tiver sorte meus netos virão me visitar não por obrigação, mas por terem afeto real como eu tinha pelo meu avô e como meus filhos tem pelos meus pais.