A voz do trovão

15.11.2016

Revista da Cultura
Renata Vomero
Filósofa e ativista pela igualdade racial e de gênero, Angela Davis lança a primeira tradução no Brasil de seu clássico Mulheres, raça e classe, trazendo à tona o pensamento urgente acerca das dinâmicas das desigualdades vigentes em nossa sociedade.
 
Gosto de imaginar você como uma pessoa que passeia pelas livrarias, escolhe um bom livro, senta em um café e só se satisfaz depois de devorar ambos. Ou até mesmo como uma pessoa que viaja pela internet procurando por lançamentos literários, intercalando as novidades com alguns clássicos de nossa literatura. Bom, nessas andanças, você provavelmente deparou com um livro de capa vermelha, com letras em branco e a imagem de uma mulher a te encarar, né? Imagino também que essa imagem instigou a sua curiosidade; então, você andou até a prateleira onde estava o livro – ou dirigiu o seu mouse até a publicação – e notou que se tratava do título Mulheres, raça e classe. Mais do que isso, soube que a mulher que não parava de te encarar era Angela Davis. O livro em questão acaba de ser traduzido pela primeira vez no Brasil, foi originalmente publicado nos Estados Unidos em 1981: por lá, já carrega o status de clássico e, por aqui, além de muito aguardado, certamente irá figurar nas listas de livros mais vendidos do ano.
 
A publicação revela uma análise aprofundada de como as questões acerca de gênero, raça e classe estão, na verdade, dispostas em um emaranhado de conexões. A proposta de Angela Davis é mostrar como a desigualdade de classes não pode ser observada ou analisada sem antes vislumbrarmos as relações de desigualdade de gênero e raça que a alimentam. Para tal, a filósofa e ativista faz um panorama dessas relações desde o período escravocrata estadunidense, traçando os mais diversos paralelos entre as opressões e exigências dos protagonistas da luta pelos direitos civis. “Ela nos ensina que não deve haver primazia de uma opressão sobre as outras, posto que estas são estruturantes e agem de forma entrecruzada. Romper com a categoria universal de mulher antes de essa discussão ser tão presente, mostra seu olhar apurado. Davis mostra como para as mulheres negras existiu outra construção de feminilidade e denuncia o racismo existente no movimento feminista”, explica a filósofa e ativista Djamila Ribeiro, responsável por escrever o prefácio da edição brasileira de Mulheres, raça e classe.
 
Nascida no Alabama, Estados Unidos, em 1944, Angela cresceu sentindo na pele o peso do racismo e do machismo que a cercavam. Desde cedo passou a se interessar pelos ideais do socialismo e, a partir de estudos relacionados à essa ideologia, ela tomou consciência das diversas opressões sofridas por parte dos cidadãos dos EUA. Davis, então, escolheu cursar Filosofia, e daí em diante, mergulhou de cabeça nos estudos ligados aos direitos civis dos indivíduos, principalmente, no que diz respeito ao papel da mulher negra dentro da sociedade norte-americana.
 
Davis passou, então, a dividir-se entre o estudo filosófico das minorias e o ativismo pelas mudanças sociais que ela almejava enxergar na sociedade. Militante do Partido Comunista dos Estados Unidos e dos Panteras Negras, organização norte-americana política extraparlamentar socialista e revolucionária, focada na luta antirracial, ela foi o centro das atenções quando, em 1970, entrou na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI. Isso aconteceu porque ela foi acusada de fazer parte de um atentado realizado por membros dos Panteras Negras, que levou à morte do juiz Harold Haley e do ativista Jonathan Jackson. A respeito de tal acusação, o presidente Nixon chegou a se pronunciar, dizendo que ela era uma das ativistas mais perigosas do mundo e a mais procurada no país. Algum tempo depois que as buscas foram iniciadas, Angela Davis foi encontrada em Nova York, o que deu início ao seu longo processo de julgamento. Foram 18 meses em que defesa, acusação e ré se viram incansavelmente cercadas pela mídia. A seu favor nasceu a campanha Libertem Angela Davis, mencionada em canções dos Beatles e dos Rolling Stones, e a qual deu nome ao recém-lançado documentário dirigido por Shola Lynch. Depois de um ano e meio de julgamento, Angela Davis foi finalmente inocentada das acusações. Nos anos 1980, foi candidata à vice-presidência dos Estados Unidos pelo Partido Comunista. Mas a filiação ao partido causou o impedimento de lecionar na Universidade da Califórnia, onde, hoje, é professora emérita no Departamento de Estudos Feministas.
 
O pensamento de Angela Davis reverbera até hoje, tendo se estendido também para questões como o abolicionismo penal – enfatizando o encarceramento da população negra – e a questão da representatividade negra e feminina na política e na mídia como um todo. “Davis é uma das grandes críticas do sistema carcerário, fazendo a ligação com a escravidão e apontando para o fato de que essa é uma das consequências do racismo institucional”, diz Djamila Ribeiro. Seu raciocínio é complementado por Rosane Borges, ativista, comunicóloga e autora do texto de orelha do livro: “Sobre sua obra, podemos pôr em relevo a discussão sobre o abolicionismo penal, já que os EUA exibem números exorbitantes no quesito população carcerária, possuindo a maior população carcerária do mundo, o que é um contrassenso para um país que se pretende o bastião dos princípios democráticos e libertários”. A comunicóloga também destaca na obra de Davis a crítica e a análise de temas como controle de natalidade e direitos reprodutivos, trabalho doméstico e perpetuação da subalternidade das mulheres negras e, claro, comunismo e confrontação da exploração capitalista.
 
“A voz de Angela é essencial, porque ela é uma mulher à frente de seu tempo, e dizer isso não significa que não esteja atenta a seu próprio tempo, ao contrário. Significa que enxerga além e aponta novas possibilidades de reflexão”, salienta Ribeiro. Com uma ideologia que se mostra atual até hoje, Angela Davis serve de modelo para o enfrentamento das opressões ainda vigentes, mostrando uma de suas relevantes características: a de conseguir unir teoria e ativismo. “A fibra moral e ética dela a faz uma mulher absolutamente comprometida com a mudança social, a partir da reflexão e da prática. É uma biografia que, sem sombra de dúvidas, nos inspira muito e nos conduz a fortalecer uma rede de enfrentamento do racismo e do sexismo”, reflete Rosane Borges.
 
E NO BRASIL?
 
Não é de espantar que o lançamento de seu livro seja tão urgente para o Brasil atual, no momento em que nossas minorias passam a ganhar mais voz contra as opressões. “Quando ela aponta que seu nome e sua história não seriam nada se não fossem as pessoas ao seu redor, sua comunidade, que unida lutou na campanha Libertem Angela Davis, prova que não podemos ir a lugar nenhum se não estivermos juntas. As mulheres negras brasileiras sabem, desde os laços de amizade na mais tenra infância até a disputa por espaços de poder”, comentam as militantes do coletivo Blogueiras Negras. A importância do pensamento de Angela Davis para a realidade brasileira muito se dá por conta de nossas semelhanças com a história estadunidense. “Guardadas as devidas especificidades, a realidade brasileira revela similaridades com a americana por serem sociedades com herança escravocrata e com uma política de encarceramento em massa da população negra”, comenta Djamila Ribeiro.
 
Sobre a relevância do papel de Angela Davis em relação à luta por igualdade das mulheres brasileiras, a filósofa Rosane Borges reflete: “Seu arcabouço teórico-crítico serve como base para um pensamento mais plural, ensinando a importância de interligarmos nossas lutas. Acredito que o pensamento e o ativismo dela nos ajudam a aprofundar e refletir sobre o modelo de sociedade que queremos. Sua obra apresenta uma perspectiva revolucionária, portanto necessária, para quem pensa mudanças profundas”. E Borges conclui: “Angela Davis nos orienta, é uma bússola moral e política, para expandirmos a trilha aberta por ela, levando cada vez mais longe, numa perspectiva radical, a denúncia e o combate ao racismo e ao sexismo. Ela é, sem sombra de dúvida, um modelo para pedirmos acesso a uma soberania negada. É um clarão na história política do mundo”.