“Mulheres, raça e classe” de Angela Davis, uma reflexão

03.12.2016

TRENDR
Taís Bravo
 
Há histórias entre a história que nos ensinam
 
Mulheres, raça e classe de Angela Davis é um dos livros mais importantes para compreender o feminismo interseccional. Nessa obra, Davis analisa as estruturas racistas, sexistas e classistas que ordenam nossa sociedade, considerando como essas questões se entrelaçam. A partir disso, podemos perceber como as opressões relacionadas às questões de gênero, raça e classe se apresentam em diferentes formas e nuances, sem necessariamente que uma se sobreponha a outra, porque, na verdade, se intercalam.
 
Um dos aspectos mais importantes desse livro talvez seja a crítica de Davis aos movimentos feministas lideradas por mulheres brancas que se mostraram incapazes de compreender as diferentes realidades e demandas das mulheres negras. Davis aponta, por exemplo, como em muitos momentos o movimento sufragista esteve tão concentrado em conquistar mais direitos paras as mulheres brancas que ignoraram as outras formas de opressões que coexistiam naquele mesmo momento histórico. Muitas sufragistas consideravam mais importante que as mulheres tivessem o direito ao voto do que os homens negros. Além disso, ainda argumentavam que essa última conquista contribuiria para intensificar a opressão das mulheres negras. Essa perspectiva que hierarquiza a opressão provocada pelo sexismo contribui para que alguns movimentos feministas se concentrassem em uma pauta política de interesses limitados em vez de lutarem por uma sociedade livre de qualquer forma de violência e exploração.
 
Outro conflito essencial entre os interesses das feministas brancas e a realidade das mulheres negras diz respeito à crítica aos papéis de gênero. Uma das pautas feministas mais relevantes é a desconstrução da feminilidade, as mulheres brancas e burguesas buscavam?—?e ainda buscam?—?romper com o estereótipo da mulher enquanto um ser doméstico, frágil e submisso. Contudo, essa não era uma questão compartilhada pelas mulheres negras durante e após a escravidão, pois nessa realidade viviam um outro tipo de submissão: Eram tão exploradas quanto os homens negros, porque a escravidão submetia essas mulheres a uma desumanização extrema. Na verdade, a única diferença entre os homens negros e as mulheres negras é que elas eram mais vulneráveis à violência sexual?—?é preciso ressaltar que a violência sexual era imposta pelos homens brancos, pois, segundo Davis, mulheres e homens negros viviam em igualdade. Assim, em muitos momentos, o feminismo focou em questões que interessavam exclusivamente às mulheres brancas, falhando em compreender as diferentes realidades entre as mulheres.
 
“Embora tenham colaborado de forma inestimável para a campanha antiescravagista, as mulheres brancas quase nunca conseguiam compreender a complexidade da situação da mulher escrava. As mulheres negras eram mulheres de fato, mas suas vivências durante a escravidão?—?trabalho pesado ao lado de seus companheiros, igualdade no interior da família, resistência, açoitamento e estupros?—?as encorajam a desenvolver certos traços de personalidade que as diferenciavam da maioria das mulheres brancas”.
 
O que mais me surpreendeu ao ler Angela Davis foi constatar o quanto desconheço completamente a história de resistência das mulheres e homens negros. O primeiro capítulo de seu livro, O legado da escravidão, me provocou uma sensação muito semelhante ao que senti quando li Amada de Toni Morrison: O horror de, enfim, notar que ninguém me contou direito essa parte da história. Foi apenas quando li a obra de Morrison?—?me faltam adjetivos para explicar a potência de Amada?—?que entendi o quanto não sei nada sobre a escravidão.
 
“As primeiras feministas podem ter descrito o matrimônio como uma “escravidão” semelhante à sofrida pela população negra principalmente devido ao poder impactante dessa comparação?—?temendo que, de outra maneira, a seriedade de seu protesto se perdesse. Entretanto, elas aparentemente ignoravam que a identificação entre as duas instituições dava a entender que, na verdade, a escravidão não era muito pior do que o casamento. Mesmo assim, a implicação mais importante dessa comparação era a de que as mulheres brancas de classe média sentiam certa afinidade com as mulheres e os homens negros, para quem a escravidão significava chicotes e correntes”.
 
Sou filha de um professor de história e fiz três períodos desse curso na faculdade, no entanto, foi só através da literatura que percebi o quanto em momento algum de a minha educação alguém realmente se esforçou para explicar a gravidade de tal violência imposta a um povo. É claro que estudamos sobre a escravidão na escola, mas isso, em geral, é feito de um modo quase leviano: Aconteceu essa calamidade, essa coisa terrível, mas é passado, já não existe mais. E assim não nos debruçamos sobre o impacto da escravidão nas vidas das pessoas nem no passado, o que dirá refletir sobre suas consequências e marcas em nosso presente.
 
Foram as palavras de Morrison que me forçaram a enxergar minha profunda ignorância. Amada é sobre os vestígios da escravidão, sobre casas, vestidos, vidas que carregam o peso dessa experiência. Foi o primeiro livro que me fez realmente tentar entender o que deve ter sido viver a escravidão. A cada página só pude descobrir o quanto não posso ter ideia.
 
“Sethe tinha vivido então vinte e oito dias?—?o trajeto de uma lua inteira?—?de vida não escrava. Da saliva clara que a sua filha babara em seu rosto até seu sangue oleoso foram vinte e oito dias. Dias de cura, facilidade e conversa de verdade. Dias de companhia: de saber os nomes de quarenta, cinquenta outros negros, suas ideias, seus hábitos; onde tinham estado e o que tinham feito; de sentir a alegria e a tristeza deles junto à dela, que deixavam tudo melhor. Uma lhe ensinou o alfabeto; outra, um ponto. Todos lhe ensinaram como era acordar de manhã e escolher o que fazer do dia… Libertar-se era uma coisa; reclamar a propriedade desse eu libertado era outra”.
 
Ao ler Amada, acho que consegui ter um vislumbre da dimensão do quanto a história não simplesmente passa, mas impõe legados e estruturas que não são destruídos sem que seja preciso uma enorme resistência. Na verdade, quanto mais apostamos nessa ideia de uma história que é um passado remoto, mas contribuímos para a permanência dessas estruturas. Em outras palavras, a minha ignorância, fruto dos meus privilégios, é nada mais do que a perpetuação de uma prática racista.
 
O mercado editorial também não está isento das estruturas racistas, sexistas e classistas de nossa sociedade. Mulheres, raça e classe foi publicado originalmente em 1981, ou seja, há 35 anos, e só agora, em 2016, foi publicado no Brasil?—?pela editora Boitempo que realizou uma edição bastante cuidadosa, com prefácio de Djamila Ribeiro, tradução de Heci Regina Candiani e um belíssimo projeto gráfico.
 
A espera de 35 anos para a publicação de um dos mais importantes livros sobre feminismo negro e interseccional demonstra o desinteresse do mercado editorial em traduzir e publicar mulheres negras. A falta de representatividade de mulheres e pessoas negras na literatura não é só um reflexo da desigualdade em nossa sociedade, é também a perpetuação desse silenciamento a partir do desinteresse estabelecido tanto pelo mercado editorial quanto por um público que não questiona seus hábitos de leitura. Dessa forma, o mercado editorial é, ao mesmo tempo, causa e consequência das opressões históricas que limitam as possibilidade das minorias sociais de se dedicarem à literatura.
 
Hoje em dia se fala muito em empatia, é algo que cada vez mais as pessoas demandam das outras. Contudo, não sei se acredito na possibilidade da empatia como algo absoluto. Não acho que sou realmente capaz de entender o que outra pessoa vive e sente. Mas acredito no exercício de autoanálise e do esforço para furar a bolha de nossos privilégios?—?exercícios que são mais tentativas do que conquistas absolutas, estamos em processo, afinal. Acredito que é mais importante a humildade para admitirmos nossos inevitáveis limites pessoais do que acreditar na possibilidade de se colocar na pele do outro.
 
Penso que o primeiro passo pode ser reconhecer essas estruturas e de que modo nós as reproduzimos. É possível começar com uma decisão simples: Questionar quais histórias nos formam, quais interlocutoras/es, autoras/es e narrativas influenciam nossa compreensão do mundo e, então ir ao encontro do que desconhecemos e consequentemente ignoramos. Assim, talvez, ler autoras e autores negros seja uma maneira para iniciar essa caminhada.