Prêmios consagram J. Fuks e B. Bracher e escancaram concentração editorial

08.12.2016

UOL | Página Cinco
Rodrigo Casarin
Na terça foram anunciados os vencedores do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa e, com isso, a temporada das honrarias literárias pelo país (ou as principais delas, ao menos) chega ao fim. Com foco nos trabalhos de ficção adulta (romances, novelas, contos e poesia), levantei os vencedores das distinções prestigiadas para chegar a algumas conclusões (e umas tantas dúvidas). Antes, vale repassar os agraciados:
 
Prêmio São Paulo de Literatura
Romance do ano: “Anatomia do Paraíso”, Beatriz Bracher (Editora 34)
Romance de autor estreante com mais de 40 anos: “A Imensidão Íntima dos Carneiros”, Marcelo Maluf (Reformatório)
Romance de autor estreante com menos de 40 anos: “Rebentar”, Rafael Gallo (Record)
 
Jabuti
Livro do ano de ficção: “A Resistência”, Julián Fuks (Companhia das Letras)
Romance: “A Resistência”, Julián Fuks (Companhia das Letras)
Contos e Crônicas: “Jeito de Matar Lagartas”, Antonio Carlos Viana (Companhia das Letras – in memoriam) e ''Amora'', Natalia Borges Polesso (Não-editora)
Poesia: “Agora Aqui Ninguém Precisa de Si”, Arnaldo Antunes (Companhia das Letras)
 
Biblioteca Nacional
Contos: “Antes que Seque”, Marta Barcellos (Record)
Romance: “Desesterro”, Sheyla Smanioto (Record)
Poesia: “Poesia Reunida”, Adélia Prado (Record)
 
Prêmio Rio de Literatura
Melhor obra de ficção: “Anatomia do Paraíso”, Beatriz Bracher (Editora 34)
 
Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa
1º lugar: “Galveias”, José Luís Peixoto (Companhia das Letras)
2º lugar: “A Resistência”, Julián Fuks (Companhia das Letras)
3º lugar: “O Livro das Semelhanças”, Ana Martins Marques (Companhia das Letras)
4º lugar: “Maracanazo”, Arthur Dapieve (Alfaguara)
 
Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, que premia livros do ano corrente)
Romance/ Novela: “Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, Elvira Vigna (Companhia das Letras)
Poesia: “Rol”, Armando Freitas Filho (Companhia das Letras)
Contos/ Crônicas: “A(s) Mulher(es) que Eu Amo”, Eros Grau (Globo Livros)
 
Olhando para os prêmios, faço cinco considerações:
 
Consagrados: Os paulistanos Julián Fuks e Beatriz Bracher foram os autores dos dois grandes livros de 2015. Com “A Resistência”, ele levou para casa dois Jabutis (Ficção do ano e Romance), o segundo lugar do Oceanos e ainda foi finalista do Prêmio São Paulo. Ela, por sua vez, venceu justamente o São Paulo com “Anatomia do Paraíso”, que também ganhou o Rio de Literatura.
 
Concentração editorial: Os premiados escancaram uma enorme concentração editorial brasileira: 10 prêmios foram para o Grupo Companhia das Letras (do qual a Alfaguara faz parte), quatro para o Grupo Record, dois para a 34 (pelo o mesmo livro), um para a Globo, um para a Não-editora e um para a Reformatório.
 
Por que 14 dos 19 prêmios listados foram para apenas duas casas – uma dezena deles para o mesmo grupo editorial -, sendo que há centenas delas pelo país? Os melhores editores brasileiros estão, indiscutivelmente, nessas casas ou a maneira que os jurados dos prêmios encaram a literatura é a mesma desses editores? Quanto o nome do autor e da editora pesam em uma decisão? Perguntas precisam ser feitas e o problema deve ser discutido. Uma pluralidade maior aqui seria muito bem-vinda.
 
Prêmio Sesc: Três autores que se destacaram este ano foram revelados pelo Prêmio Sesc de Literatura, sendo dois deles com os livros premiados pela instituição: “Antes que Seque”, de Marta Barcellos (ganhou o Biblioteca Nacional na categoria Contos), e “Desesterro”, de Sheyla Smanioto (que, além de vencer o Biblioteca Nacional de Romance, foi finalista do São Paulo de Literatura dentre os autores estreantes com menos de 40 anos e ficou com o terceiro lugar do Jabuti em romances). Rafael Gallo também é uma “prata do Sesc”, prêmio que venceu em 2012 com “Revéillon e Outros Dias” – agora, com “Rebentar”, foi um dos vencedores do São Paulo.
 
Isso comprova que a instituição, que tem parceria com a Record para publicar os livros vencedores de cada ano, está fazendo um trabalho respeitável de garimpagem entre novos nomes. Este ano o Prêmio Sesc da categoria Contos foi para “Receitas Para se Fazer um Monstro”, de Mário Rodrigues, e, em Romance, para “Céus e Terra”, de Franklin Carvalho. Aguardemos o desempenho deles nas premiações do ano que vem.
 
Apostas: Outros prêmios, aliás, poderiam se inspirar no Sesc e passar a olhar para autores inéditos. A ação sem dúvidas ajuda a arejar o cenário literário nacional. Dos concursos que citei inicialmente, apenas o Rio de Literatura já faz algo nessa linha, ainda que com um recorte regional: neste ano, Izabela Guimarães Guerra Leal ganhou na categoria Melhor Novo Autor Fluminense por “A Intrusa”. O prêmio ainda fez uma menção honrosa a Clara Ferrer, outra nova autora do Rio de Janeiro, por “Amores Monstruosos”.
 
O injustiçado: Da minha parte, o meu romance preferido lançado em 2015 nada ganhou: “Pssica”, de Edyr Augusto (Boitempo), que ficou entre os quatro finalistas do APCA do ano passado e parou na semifinal do Oceanos deste ano. É um livro brutal, impiedoso, construído com uma linguagem seca, direta e implacável, que fala de prostituição e tráfico de escravas brancas em uma trama cheia de violência, corrupção, marginalidade e sexo. Edyr é o tipo de autor que consegue escancarar o que há de pior no ser humano. Então, mesmo sem nenhum troféu, deixo aqui a minha recomendação de leitura.