Caio Prado Júnior: uma biografia política

10.05.2016

Revista Eccos
Graziela Naclério Forte
O historiador Luiz Bernardo Pericás – autor de Os Cangaceiros: Ensaio de Interpretação Histórica (São Paulo: Boitempo, 2010 e Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 2014), com o qual recebeu a Menção Honrosa do Prêmio Casa de las Américas 2012, em Cuba, e os livros Che Guevara e a Luta Revolucionária na Bolívia (São Paulo: Xamã, 1997), Che Guevara e o Debate Econômico em Cuba (São Paulo: Xamã, 2004; Nova Iorque: Atropos Press, 2009; Buenos Aires: Ediciones Corregidor, 2011 e Havana: Fondo Editorial Casa de las Americas, Prêmio Ezequiel Martinez Estrada), além do romance Cansaço, a Longa Estação (São Paulo: Boitempo, 2012) que virou peça de teatro (2015) – acaba de lançar mais um trabalho de fôlego: Caio Prado Júnior: uma biografia política.
 
O livro atual, se destaca por preencher uma lacuna nos estudos de história contemporânea: a análise profunda entre a obra teórica e a atuação política do intelectual Caio Prado Júnior, considerado um dos cinco principais intérpretes do Brasil, ao lado de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha e Antonio Candido.
 
Pericás investigou os livros e os autores que Prado lera e mantivera em sua biblioteca e, por consequência, de que forma eles o influenciaram. Desconfiava de que o autor de Formação do Brasil contemporâneo (1942) não tinha sido um militante de gabinete apenas. Queria saber ainda por quais países havia viajado, quem eram seus contatos no exterior e de quais instituições fora membro. Incomodado com estas e outras questões, partiu para a pesquisa.
 
Na época em que começou a levantar as fontes primárias, o acervo do intelectual, formado por cartas, recortes de jornais e fotos estava sendo gradativamente disponibilizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (IEB-USP), porque todo o material encontrava-se em processo final de catalogação, uma vez que não fazia muito tempo que passara a pertencer à referida instituição. Assim, este trabalho
apoiou-se na ampla documentação do próprio Caio, que até então havia sido muito pouco explorada.
 
Luiz Bernardo também teve acesso à biblioteca de Prado, que atualmente pertence ao IEB, assim como o acervo. Valendo-se do fato de ser sobrinho-bisneto do biografado, conseguiu muitos outros documentos, todos inéditos, na casa de familiares. Para completar, o autor entrevistou amigos, familiares, estudiosos do tema e militantes políticos que atuaram junto com Caio Prado Júnior.
 
A partir daí, os fios foram sendo trançados com o objetivo de mostrar como a militância política, as leituras de autores marxistas, as amizades com dirigentes de órgãos internacionais, as viagens aos “países da cortina de ferro”, socialistas, influenciaram a obra teórica de Caio Prado Júnior. Em outros termos, a grande contribuição deste livro é, justamente, jogar luz sobre como o método marxista norteou os livros e escritos teóricos de Caio, ao interpretar os problemas inerentes à formação social do Brasil. Vale lembrar que este tipo de análise é pouco comum.
 
Ao falar da militância de Caio Prado Júnior, é preciso dizer, necessariamente, sobre os variados aspectos de sua vida privada, uma vez que, desde muito jovem até adoecer, integrara as fileiras do PCB. Por isso, o livro de Pericás acaba trazendo algumas das histórias dos familiares e amigos mais próximos, com o intuito de melhor contextualizar os acontecimentos políticos.
 
Dividido em doze capítulos que narram desde seu ingresso no PCB até os últimos anos de vida, o livro possui um bem cuidado caderno de fotos e é sem dúvida indispensável para todos que se interessam pela história do Brasil contemporâneo, principalmente aqueles que têm interesse especial pelo marxismo.
 
Pericás acaba de ser contemplado com o Prêmio Juca Pato Intelectual 2016 por essa extraordinária obra sobre a trajetória de Caio Prado Júnior, fundador da União Brasileira de Escritores (UBE) e ele próprio fora agraciado com o Prêmio Juca Pato, em 1966.