Djamila Ribeiro, a voz da consciência negra feminina no Brasil

18.11.2016

Vice
Ana Flávia Oliveira

Na entrevista, a pensadora fala sobre Dia da Consciência Negra, feminismo, racismo, política e o lançamento de Mulheres, raça e classe, o clássico da Angela Davis que ganhou sua primeira edição brasileira.

As longas tranças nos cabelos negros, a roupa estampada e o batom colorido revelam muito. É o que me explica a filósofa Djamila Ribeiro, 36. O que poderia parecer apenas adornos de beleza, para ela, são sinais de orgulho da pele preta, da cultura afro e de seus antepassados. E, apesar do riso fácil, Djamila, que me recebeu para uma entrevista em seu gabinete na Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, onde é secretaria adjunta, não perde a seriedade ao falar de assuntos que tanto a incomodam e que pautam sua atuação política e profissional: o racismo e o feminismo.

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A filósofa define o racismo como "estrutural e estruturante" e diz que o combate passa por políticas públicas e afirmativas na área da educação e representatividade na mídia "e em espaços que a gente possa se enxergar de maneira positiva". Djamila defende ainda uma reforma política para que negros e mulheres tenham mais representantes. Nas palavras da própria filósofa: "A gente precisa mexer nas estruturas para conseguir, de fato, garantir oportunidades mais iguais para população negra".

A entrevista foi editada para melhor compreensão:

"Mulheres, raça e classe"

O Mulheres, raça e classe foi publicado [originalmente] em 1981 nos Estados Unidos e a tradução chega só agora no Brasil, em 2016, 35 anos depois. Mas eu acho que [o livro] ainda traz um debate muito atual que é o de pensar as questões de classe, raça e gênero interseccionadas e, sobretudo, do ponto de vista da mulher negra, pensando a emancipação a partir de um ponto de vista anti-capitalista, anti-racista e anti-sexista. Ainda hoje, existe uma resistência muito grande de fazer o debate racial. A esquerda clássica pauta muito a questão somente pelo viés de classe. E no Brasil ainda tem muita resistência em pensar a questão de raça de maneira profunda. Acho que vai muito por conta dessa resistência, inclusive da esquerda, de querer eleger qual opressão é mais importante colocando classe como mais importante e não percebendo que essas categorias, na verdade, são intercruzadas.

Os negros nos Estados Unidos são 15% da população e aqui no Brasil, somos 52%.

Nos Estados Unidos, estão acontecendo esses confrontos, mas lá, a coisa é muito diferente. Quando negros são assassinados pela polícia, como aconteceu em Ferguson, a população vai para as ruas mesmo. Aqui no Brasil, a gente ainda naturaliza [a morte de negros]. Lá existe o "Black Lives Matter" e tantos outros movimentos. Tem um enfrentamento mais direto. Lembrando que os negros nos Estados Unidos são 15% da população e aqui no Brasil, somos 52%. Lá, de fato, os negros são minorias. Mas existe outro entendimento do movimento negro nos Estado Unidos, porque lá o racismo era constitucional. O negro sempre soube que tinha um problema, sabia que não podia entrar em tais lugares, que ia ser morto se fosse para determinado bairro. Então, como [o racismo] era extremamente declarado, não existia outra maneira a não ser o enfrentamento. Aqui no Brasil, como se criou esse mito da "democracia racial", de que todo mundo se ama e todo mundo é legal, muitas vezes o próprio sujeito negro tem dificuldade para entender que nossa sociedade é racista.

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Leia a entrevista na íntegra.