Erguer, acumular, quebrar, varrer, erguer…

31.01.2017

Revista Serrote #24
Carla Rodrigues

Na quarta onda do feminismo, surfam jovens, negras, mulheres trans, lésbicas, prostitutas, intelectuais etc. – principalmente etc.

Para Angela Freitas, cuja onda feminista sempre nos revigora.

Aproximando-se da praia, cada uma erguia-se, acumulava-se, quebrava e varria pela areia um tênue véu de água branca. A onda parava, partia novamente, suspirando como um ser adormecido cuja respiração vai e vem inconscientemente.

Virginia Woolf, As ondas

 

Só para quem não estava prestando atenção direito a onda feminista que tomou as ruas desde o fim de 2015 pode ser es­pantosa e surpreendente. Basta olhar um pouco mais de perto para perceber que, nem espantosa – porque o movimento das ondas é mesmo esse, varrer o solo por onde passa – nem surpreendente, essa onda vem de longe e está se acumu­lando faz tempo. No momento em que escrevo este ensaio, a quarta onda feminista pode estar no seu ápice. Navegam nesse oceano jovens, negras, mulheres trans, lésbicas, prostitutas, intelectuais etc. Principalmente etc. Há um mar de gente nes­ses movimentos a conjugar os verbos erguer, acumular, que­brar, varrer e recomeçar.

A #primaveradasmulheres, assim batizada em 2015, veio embalada pelas manifestações de 2013, pela criação de coleti­vos de mulheres e pela retomada das ruas desde 2011, quando começou a se espalhar, a partir do Canadá, a Marcha das Vadias. Fomos gritar #foracunha e protestar contra o Projeto de Lei 5069;1 as negras exibiram seus cabelos no #orgulhocrespo e organizaram a Marcha Nacional das Mulheres Negras; ocupa­mos as redes para denunciar #meuprimeiroassedio; intelec­tuais ganharam espaço na campanha #agoraéquesãoelas; a #partidA se organizou como um novo movimento feminista a fim de aumentar nossa representação parlamentar; apoiamos a presidente Dilma Rousseff para pedir #ficaquerida, gritar #foratemer e denunciar a misoginia do golpe; a Marcha das Margaridas levou 100 mil mulheres a Brasília; o Think Olga liderou a mobilização #chegadefiufiu para dar um basta na naturalização do assédio, da violência sexual e da cultura do estupro; o transfeminismo confrontou o essencialismo das feministas radicais, as radfems [radical feminists], e reivindica espaço legítimo no movimento de mulheres; as radfems estão brigando contra a pornografia e a prostituição, e as prostitutas, lutando pelo direito de ter sua profissão regulamentada. Tudo isso acontece ao mesmo tempo, formando a quarta onda femi­nista. Ou seria a terceira? Ou não seriam ondas? Há razões para o feminismo ser contado em ondas? Houve a terceira onda e esta é a quarta ou esta é a terceira?

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JOVENS E VADIAS

Para as jovens que nasceram sob o signo da emancipação – aqui entendida nos seus sinônimos mais estritos, como liber­tação, alforria e independência –, há retrocessos inaceitáveis. O mais exemplar é o constrangimento à sexualidade, algo que “naturalmente” seria impossível conter nos homens. Elas reeditaram o slogan “meu corpo, minhas regras” e criaram a Marcha das Vadias.8 Surgida em 2011, no Canadá, depois que um policial propôs como estratégia de redução do número de estupros que as meninas não saíssem às ruas “vestidas como vadias”, a Slut Walk rapidamente se espalhou, como uma onda, por diferentes países ocidentais. O Brasil aderiu no mesmo ano, e, aos poucos, a manifestação foi tomando o corpo das mulheres nas grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A ideia de assumir o termo pejora­tivo e transformá-lo em mote de reivindicação já funcionara nos anos 1990, quando o movimento queer – um xingamento de difícil tradução, expressão norte-americana que poderia equivaler a “bicha” ou “viado” – também propôs ressignificar aquilo que pretendia desqualificá-lo. Alegre, carnavalesca e irreverente, a marcha recuperou o bom humor para boa parte do movimento de mulheres, cuja crescente institucionalização havia afastado a militância das ruas.

Muitas jovens feministas da quarta onda têm a pretensão de estar inven­tando o feminismo desde 2013, causa de tensão com as linhagens ante­riores. Ao mesmo tempo, as mais velhas por vezes olham com arrogância para quem está chegando agora e nem sempre sabe ou se interessa pelo que aconteceu antes. Esse é um dos riscos das ondas feministas. Em certo momento, o mar recua da areia e é como se nunca tivesse passado por lá. A imagem serve para descrever os afastamentos entre gerações, que tam­bém não começaram agora. A mim, por exemplo, nunca passou pela cabeça agradecer a Bertha Lutz pelo sufragismo. Tendo nascido mais de duas déca­das depois da conquista do voto feminino, sempre me pareceu natural e óbvio que mulheres também fossem eleitoras. Quem hoje tem 18 anos por vezes não faz ideia de como foi difícil chegar até aqui. Na década de 1980, por exemplo, os movimentos de mulheres impulsionaram a prática de promover encontros nacionais de militantes –— engajadas em organiza­ções de base, redes, grupos, ONGS – para discutir pautas de reivindicações, enquanto a teoria se constituía em diversas áreas de pesquisa como antro­pologia, literatura, psicanálise, ciências sociais, economia, filosofia. Desde 1994, as acadêmicas realizam na Universidade Federal de Santa Catarina o congresso feminista Fazendo Gênero, um marco na construção do campo dos estudos de gênero no Brasil, cujas discussões incluem um aspecto deci­sivo para qualquer corrente feminista hoje: qual o grau de colonização do pensamento feminista brasileiro em relação a autoras europeias ou norte-a­mericanas? É ótimo que a quarta onda possa retomar a pergunta, tão perti­nente em tempos pós-coloniais e de crítica à invisibilidade de pensadoras negras, latino-americanas ou indígenas.

 

MULHERES NEGRAS

Nos anos 1980, os movimentos de mulheres no Brasil tinham o fôlego da segunda onda e também seus problemas internos. Um episódio marcou para sempre a disjunção entre o feminismo de brancas e negras. Reuni­das no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, duas feministas se con­frontaram, a negra acusando a branca de “nunca abandonar sua atitude de sinhazinha”. Dali em diante abriu-se uma dissidência importante, que evidenciava a hierarquia problemática na luta pelo poder. As mulheres ne­gras denunciavam que nós, brancas, estávamos reproduzindo em relação a elas as mesmas opressões de que éramos alvo por parte dos homens. Sim, havia especificidades da luta das mulheres negras que não estavam sendo contempladas. Sim, as mulheres negras estavam invisíveis e minoritárias nas organizações de mulheres e, sim, era preciso pensar as discriminações cruzando pelo menos três elementos: gênero, raça e classe.

Em 1987, no IX Encontro Nacional Feminista, decidiu­-se que era o momento de as mulheres negras fazerem um movimento próprio. No ano seguinte, acontecia no Rio de Janeiro o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, com 450 participantes vindas de 19 estados, precedido por reuniões e seminários estaduais de mobilização e debate político. O ano era 1988, data das comemorações oficiais do centenário da abolição da escravatura. Era o que precisava para as mulheres negras contestarem a história oficial a fim de mostrar a per­sistência do racismo na sociedade brasileira, intrinsecamente ligado à escravatura, e suas ramificações particularmente vio­lentas com as mulheres. Organizações de mulheres negras se multiplicaram a partir de então e foram constituindo suas bandeiras e reivindicações singulares. Por isso, quando, em 2015, a Marcha das Mulheres Negras levou 50 mil pessoas a Brasília para mostrar a cara da desigualdade e da violência racial, não foi nem espantosa nem surpreendente a emergên­cia dessa onda feminista negra, cujas forças vinham se acu­mulando há muito tempo.

 

FEMINISMO INTERSECCIONAL

Nos anos 1970, coube às feministas marxistas apontar a insufi­ciência de exigir o fim da exploração do proletariado, demons­trando que nem todas as desigualdades podiam estar circuns­critas à luta de classes. Havia desigualdades de gênero e de raça que se entrelaçavam e se sobrepunham às desigualdades de classe, de tal modo que era preciso pensá-las de forma articu­lada. Houve a separação histórica no interior do pensamento materialista, homens para um lado, mulheres para o outro. No Brasil dos anos 1970, Heleieth Saffioti 9 falava num sistema de opressão que ela chamou de patriarcado-racismo-capitalismo, e Lélia Gonzalez escrevia coisas como “ser negra e mulher no Brasil é ser objeto de tripla discriminação”.10 Ela se referia à subalternidade, tanto no mercado de trabalho quanto em casa, e à condição da “mulata” como mero objeto sexual. A partir de então, muito se fez e pensou sobre a interseccionalidade como forma de tentar abranger – sem hierarquizar – os diversos aspectos da exclusão da mulher negra. Hoje, comemora-se como um avanço desse debate o lançamento de Mulheres, raça e classe, de Angela Davis,11 a marxista negra norte-americana cujas críticas à esquerda tocam exatamente neste ponto: não é possível manter a primazia da questão de classe sobre as outras formas de opressão. A tradução brasileira chega com prefácio de outra feminista negra, a paulista Djamila Ribeiro, cuja atuação no feminismo interseccional tem sido decisiva para a visibilidade desse modo de atuação.

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